Um sonho para evitar o pesadelo

Uma proposta global para o fim da guerra na Ucrânia

| 18 Mai 2022

A par do desejo, porventura irrealista e arriscado, de derrotar Putin, cresce o número dos que entendem que uma guerra como a da Ucrânia dificilmente será ganha por qualquer dos lados, sendo necessário começar a pensar nos caminhos que levem ao fim do conflito. Essa busca da paz justa parece longínqua e tem de contar com a vontade dos diretamente envolvidos. Mas é vital que comece a ser discutida. É vital que a opinião pública europeia introduza na agenda preocupações e ideias que possam levar os agentes políticos a orientar-se para a paz e não para a guerra, mesmo que isso se faça ao mesmo tempo que ajudam os ucranianos a resistir no terreno militar e a mitigar o desastre humanitário em que o seu país se encontra.  O 7MARGENS quer contribuir para esse debate, nomeadamente dando a conhecer análises e propostas que ajudem a pensar e a agir. É o caso deste artigo de Luigi Ferrajoli, jurista italiano, professor da Universidade de Roma Tre e ex-juiz de 1967 a 1975. O texto foi publicado esta terça-feira, 17, por Il Manifesto, na Itália e traduzido no Brasil pelo Instituto Humanitas, da Unisinos, com o título “Guerra na Ucrânia: sonho ou pesadelo”.

Mais do que as análises do autor, interessam-nos as suas perguntas e as ideias, por destemidas e sonhadoras que sejam, com que nos provoca.

criança ucraniana sofrimento guerra foto depositphotos

“Todos repetem que esta guerra vai durar muito tempo, meses, talvez anos, num mundo cada vez mais armado. (…) A perspetiva é estarrecedora.” Foto  © Depositphotos.

 

 

Existe uma contradição clamorosa e terrível no coro dos media e no comportamento dos governantes dos países da OTAN/NATO. Afirma-se – justamente, mesmo que não devesse ser o Presidente dos Estados Unidos a falar isso, para não colocar mais lenha na fogueira – que Putin é um carniceiro, um criminoso, um déspota feroz, um novo Hitler. E depois faz-se de tudo para encurralar Putin, para não lhe oferecer qualquer saída, para obter a sua humilhação e a sua derrota.

No entanto, Putin, desde 24 de fevereiro, declarou que “a Rússia, se necessário, responderá de imediato e as consequências serão como nunca antes [vistas] na história”. Repetiu várias vezes ameaças de uma “reação inimaginável”. Colocou em alerta máximo o seu sistema de dissuasão nuclear. Simulou um lançamento de míssil a partir de Kaliningrado, capaz de atingir e destruir em poucos minutos todas as capitais europeias. Mais ainda, com a sua absurda guerra criminosa, mostrou de forma convincente aquilo de que é capaz. Mas todos repetem que esta guerra vai durar muito tempo, meses, talvez anos, num mundo cada vez mais armado, cada vez mais embrutecido e dividido, cada vez mais dominado pelo clima de guerra, pelo ódio identitário e pelo desejo de derrubar o inimigo.

A perspetiva é estarrecedora. Este autocrata lembrou repetidamente que tem muitas armas nucleares – mais de 6.000 ogivas – e, portanto, é bem possível que, quando encurralado, ele as venha a usar. Sabemos que 50 bombas atómicas são suficientes para destruir toda a humanidade. Portanto, a Rússia é capaz de destruir a humanidade mais de cem vezes. Não seria de levar a sério as suas ameaças?

Não seria oportuno, hipoteticamente, procrastinar a entrada da Finlândia e da Suécia na OTAN para tempos menos calamitosos, o que hoje significa, pelo menos aos olhos da Rússia, certamente não um movimento de defesa, mas um ato de hostilidade que estenderia a fronteira entre a Rússia e a OTAN em 1.300 quilómetros?

A OTAN, por sua vez, pode certamente, destruir a humanidade não cem, mas 200 e mais vezes. É bastante improvável que Putin arrisque o suicídio nuclear. Mas estamos realmente seguros de que ele se vai resignar a uma derrota humilhante, se realmente é um novo Hitler? Que uma vez encurralado não coloque em prática as suas ameaças nucleares, evocadas novamente em 12 de maio pelo chefe de governo, Dmitry Medvedev? Além disso, de que falamos quando calculamos as baixas probabilidades de uma guerra total? De um jogo de póquer, de uma roleta, cuja aposta é a destruição da Ucrânia, ou da Europa, ou, pior, da humanidade? De uma corrida para ver quem será o melhor a provocar a destruição global e devastar o planeta?

Todos repetem que Putin não quer negociar. Mas seria bom, pelo menos, colocá-lo à prova, não o obrigando a usar as armas, mas tentando responsavelmente o caminho de uma solução pacífica para o conflito. É o caminho expressamente indicado pela Carta da ONU, cujo artigo 51º estabelece que qualquer um dos membros das Nações Unidas tem o “direito natural de autodefesa” contra “um ataque armado”, “desde que o Conselho de Segurança não tenha tomado as medidas necessárias para manter a paz e a segurança internacional”.

Quais poderiam ser essas “medidas necessárias” para impedir que a escalada atual degenere numa guerra nuclear? Certamente não a decisão de cessar-fogo, que a Rússia vetaria. A verdadeira medida consistiria na própria reunião, em sessão permanente, do Conselho de Segurança, onde estão presentes todas as grandes potências, incluindo a China, para “conseguir por meios pacíficos”, como exige o artigo 1º da Carta, “a solução” do conflito.

Em suma, trata-se de estar ao lado da Ucrânia nas negociações, com todo o peso e autoridade das potências ocidentais, mas também com a autêntica vontade de alcançar a paz. O resultado poderia ser um acordo no mesmo espírito do Ato Final da Conferência de Segurança de Helsínquia, de 1975. Tentemos sonhar. O Presidente dos EUA, Joe Biden, abre a sessão dizendo: “A Rússia tornou-se responsável por uma agressão criminosa a um estado soberano. Mas talvez nós também, como disse o Papa Francisco, tenhamos exagerado ao ladrar nas vossas fronteiras (*). A Rússia, portanto, para com este massacre absurdo e todos nós, logo a seguir, vamos pôr fim ao pesadelo nuclear!”

 

Proponho o seguinte pacto: 

“Putin retira todas as suas tropas de toda a Ucrânia. Em troca, propomos-lhe que a Rússia entre para a OTAN, que se reabra e complete o processo de desarmamento nuclear planetário iniciado por Reagan e Gorbachov em 1987, que as sanções cessem e que, por outro lado, se coloque em prática, graças também à redução dos gastos militares, um plano de ajudas económicas destinado a reconstruir a Ucrânia e também a ajudar 150 milhões de russos a sair da pobreza”.

 

Seria a verdadeira demonstração da superioridade moral e política do Ocidente.

Biden passaria para a história como o artífice de uma nova ordem de paz. Putin e Zelensky, obviamente, aceitariam. Seria a vitória de todos: da Ucrânia, da OTAN, da Europa, dos Estados Unidos, da Rússia e, sobretudo, do povo ucraniano e do povo russo. Mas tudo isso, é claro, não é “política”. Não é realista. É apenas um sonho. A realpolitik no poder, os nossos governantes, os nossos comentadores preferem o pesadelo.

 

(*) Expressão usada pelo Papa Francisco numa entrevista recente ao jornal italiano Corriere della Sera

 

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