Uma Quaresma para mudar a forma de pensar e cuidar dos mais fracos, propõem os cristãos da Amazónia e o Papa

| 18 Fev 2021

“Como está o nosso compromisso concreto em defesa da vida de todos os seres vivos?”. Foto: Manifestação em defesa da Amazónia. © Fórum Social Pan-amazonico

 

É preciso mudar a nossa forma de pensar e de agir em relação à nossa ‘casa comum’ e em relação a todos os seus habitantes, especialmente os que mais sofrem do abuso do poder político e económico.” É desta forma que o padre jesuíta brasileiro Adelson Araújo dos Santos, nascido em Manaus (Amazónia brasileira) aponta o horizonte para a reflexão dos cristãos desta quinta-feira, 18, segundo dia do tempo de Quaresma, iniciado nesta Quarta-Feira de Cinzas, 18 de Fevereiro.

A reflexão do também professor de espiritualidade na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e perito no Sínodo para a Amazónia, realizado em 2019, aparece no guião da caminhada quaresmal com o título 40 dias navegando com a Laudato Si’ na Amada Amazónia. A proposta é elaborada a partir da encíclica do Papa e inclui também textos bíblicos e sugestões de oração.

O roteiro de reflexões é proposto pela Rede Eclesial Pan-Amazónica (Repam) e está explicado na página da rede, que oferece ainda a possibilidade de descarregar o guião em português.

Adelson dos Santos acrescenta alguns exemplos do que deve ser o tempo quaresmal para os cristãos, na preparação para a Páscoa: “Devemos aproveitar este tempo propício para uma revisão de vida para fazermos a nossa própria autoavaliação de como estamos vivendo o louvor a Deus pelas suas criaturas, como faz São Francisco de Assis, mas também como está o nosso compromisso concreto em defesa da vida de todos os seres vivos.”

Esta série de reflexões concretiza, na região amazónica, aquilo que, de há muito, no Brasil e na América Latina, são iniciativas que envolvem milhares de comunidades cristãs – seja através da Campanha da Fraternidade, no Brasil, seja com outras dinâmicas, nos diferentes países. Nesta Quaresma de 2021, explica-se no serviço noticioso das Obras Missionárias Pontifícias, a proposta da Repam dá continuidade ao trabalho dos dois anos anteriores: 40 dias rio abaixo: navegando juntos a Boa Nova de Deus a caminho do Sínodo Amazónico, em 2019, e Querida Amazónia, 40 dias navegando em direcção à conversão, em 2020.

Além da encíclica Laudato Si’, que o Papa Francisco dedicou ao “cuidado da casa comum”, também a exortação apostólica Querida Amazónia e o documento final do Sínodo dos Bispos sobre a região, realizado em Outubro de 2019, estarão em pano de fundo destas propostas. Ou seja, são propostas que abordarão, além das reflexões sobre a mudança de vida, as questões do cuidado com a vida da região e dos povos indígenas, também problemas como a maior participação dos leigos e das mulheres nos ministérios de lideranças das comunidades, tal como o Papa deixou em aberto na Querida Amazónia.

 

Papa Francisco: “Superar as divisões e unirmo-nos em torno da vida”

“Passada a crise sanitária, a pior reacção seria cair ainda mais num consumismo febril e autoproteção egoísta.” Foto: Encontro do Papa com indígenas da Amazónia, em Outubro de 2019. Vatican Media.

 

Nesta quarta-feira, Francisco dirigiu aos católicos brasileiros uma mensagem por ocasião da Campanha da Fraternidade. “Precisamos vencer a pandemia e nós o faremos à medida em que formos capazes de superar as divisões e nos unirmos em torno da vida”, escreve, citando depois a Fratelli tutti: “Passada a crise sanitária, a pior reacção seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta.”

Tendo em conta que a campanha deste ano é a quinta organizada em conjunto pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB, católica), e pelo Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (Conic, protestante), o Papa acrescenta que, no diálogo ecuménico se pode “verdadeiramente abrir o coração ao companheiro de estrada sem medos nem desconfianças, e olhar primariamente para o que procuramos: a paz no rosto do único Deus”.

A “construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade” dependem também dos cristãos, acrescenta Francisco, na medida em que eles sejam capazes de “dialogar, encontrar pontos de união e os traduzir em acções em favor da vida, de modo especial, a vida dos mais vulneráveis”.

Estas palavras de Francisco fazem ecoar também a sua Mensagem para a Quaresma deste ano, na qual o Papa insiste no cuidado especial para com os que mais têm sofrido com a pandemia: “Viver uma Quaresma de caridade significa cuidar de quem se encontra em condições de sofrimento, abandono ou angústia por causa da pandemia de covid-19”.

No texto, o Papa sugere um “jejum” à “saturação de informações – verdadeiras ou falsas – e produtos de consumo” e pede que os católicos sejam capazes de ter “uma palavra de confiança” que se manifesta na “atenção e compaixão por cada pessoa”.

 

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