Uma questão de justiça

| 16 Mar 20

A Universidade de Georgetown, de Washington, realizou um estudo que pretende contabilizar a ação da Igreja Católica no âmbito da promoção social (saúde, educação, combate à pobreza, etc.) no mundo inteiro.

Dele resulta que a Igreja Católica é responsável por 150.087 escolas que servem 54 milhões de estudantes, 5.000 hospitais, 16.000 clínicas, 600 leprosarias, 16.000 casas de acolhimento de idosos, doentes crónicos e pessoas com deficiência, 10.000 orfanatos, 10.500 infantários, 13.000 consultórios matrimoniais, 3.200 centros de educação social e 31.182 outros centros de beneficência.

Uma grande parte destas estruturas situa-se nos países em vias desenvolvimento (em muitos âmbitos onde os Estados não chegam) e o seu raio de ação nesses países tem crescido nos últimos anos.

Do estudo pode concluir-se que nenhuma outra instituição, no mundo inteiro, exerce uma ação que nestes âmbitos se possa comparar à da Igreja Católica. E poderíamos imaginar a tragédia que seria se toda esta ação, por qualquer motivo, cessasse.

Também em Portugal a ação da Igreja Católica no âmbito da solidariedade social vem sendo reconhecida por sucessivos governos e personalidades de todos os quadrantes.

É verdade que os efeitos da ação da Igreja não podem medir-se apenas quantitativamente. Nem os seus benefícios se reduzem ao da promoção humana, prescindido dos benefícios de ordem espiritual e sobrenatural.

E também não podem as conclusões deste estudo alimentar algum tipo de arrogância triunfalista, que ignore as incoerências e contra-testemunhos que não poucas vezes resultam dos comportamentos de membros das instituições católicas, a partir de quem neles tem as maiores responsabilidades.

Vêm à mente, a este propósito, os escândalos dos abusos sexuais de crianças e jovens, cuja dimensão se vai revelando cada vez mais.

Mas se o enfoque da opinião pública mundial se tem concentrado desde há vários anos nesses escândalos, não será desadequado pretender que realidades benéficas como estas não sejam ignoradas. Realidades que muitos desconhecem em toda a sua extensão. Isso permitiria dar da ação da Igreja Católica uma imagem mais fiel, e não uma imagem que com frequência é desfocada. Não tanto porque se revelem falsidades, mas porque só se revela um de muitos lados da verdadeira imagem, o lado mais escuro e vergonhoso. É uma questão de justiça.

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica

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