Uma receita religiosa q.b.

e | 23 Dez 20

Pedro Gil (esqª) e Khalid Jamal, os autores do texto, no palácio presidencial de Abu Dhabi, por ocasião da visita do Papa Francisco ao país, em fevereiro de 2019. 

 

Ingredientes: 5718 caracteres; 985 palavras; 85 linhas

Do mesmo modo que os cinco dedos, embora unidos numa mesma mão, não são iguais, é preciso reconhecer que as religiões monoteístas, em particular o cristianismo e o islão, têm verdades, defendem doutrinas e sustentam-se em princípios irreconciliáveis entre si. E o ponto principal de discórdia é a afirmação cristã de que Deus se fez homem em Jesus – tão próprio da celebração desta época do ano – que a fé islâmica rejeita totalmente, por afirmar que Deus é absolutamente transcendente e qualquer assimilação ao humano é impróprio da sua dignidade. É saudável esta total clareza para a serena colaboração e para o diálogo honesto entre crentes de diferentes religiões.

Dito isto, e assumindo-o como uma verdade intemporal, propendemos para a ideia de que esta divisão ou este fosso que separa as duas maiores religiões do planeta (em termos de números de seguidores e de fiéis) não nos conduz ao abismo e ao vazio, apenas nos dá a oportunidade de refletir sobre os problemas da vida terrena e quiçá futura, e aprendermos mais sobre o que pensa o outro.

Por essa razão, um católico e um muçulmano optam por escrever este texto presididos por um espírito de profunda amizade alheio a convergências artificiais ou politicamente corretas. Inspiram-se nos exemplos de Jesus (Deus-homem), para o católico, e de Jesus e Muhammad, para o muçulmano (que a paz e a bênção de Deus estejam com eles). Como crentes que são, têm naturalmente consciência de que a adoração “do Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão”[1], é algo que os une muito mais do que muitos outros pontos que os separam.

Escrever um texto assinado por ambos não é concordar em tudo, e não significa dizer que as religiões, embora mereçam ser tratadas por igual, devam ser postas num mesmo saco ou categoria: a daqueles que acreditam num Deus que cada vez menos é reconhecido nos dias de hoje.  Se Deus é pouco reconhecido, não é por demérito de Deus em si mesmo, mas pela insuficiência ou desinteresse do olhar dos homens sobre Ele.

E como os dedos de uma mão são cinco quisemos, nesta altura natalícia e num gesto pedagógico e reconhecedor da união e paz entre os povos, dar as mãos (simbolicamente, considerando a pandemia de covid-19) como irmãos de fés monoteístas de origem abraâmica, identificar cinco ingredientes para esta receita do que entendemos ser uma cura para o ser humano do séc. XXI, não sem antes reconhecermos os devidos créditos:

Este esforço tem por base a encíclica Fratelli Tutti, na linha dos encontros de S. Francisco de Assis e do Sultão do Egipto que por ora celebram 800 anos, e do Papa Francisco e do Imam de Al Azhar Ahmed Al Tayeb, que ousaram sair da sua zona de conforto e provaram que se pode ser devoto de uma religião sem se ser intolerante para com credos diferentes.

Para haver paz
tem de haver diálogo
para acontecer diálogo
tem de haver lugar e tempo para o encontro e hospitalidade
por sua vez, para que o encontro se proporcione
há que correr o risco de atravessar limiares e derrubar fronteiras inventadas pelos medos humanos e interesses políticos.

300 gr de paciente imediatismo (capítulo I)
Sabemos que o mundo de hoje não se compadece com grandes delongas. Ainda assim, há que ter paciência pois diz o sábio povo que “quem espera sempre alcança” e o objetivo é o céu e não apenas a felicidade terrena, obtida a qualquer custo e de forma instantânea e prazerosa, como se de refrigerante se tratasse.

500 gr do bom samaritano (capítulo II)
Os crentes não devem ser dotados de uma atitude sobranceira, como se estivessem assentes num pedestal moral – pois quem crê, fá-lo no quadro do seu temor reverencial e na sua bondade, própria da sua condição de crente, e não para se sobrepor ao próximo ou apontar-lhe o dedo.

700 gr de acolhimento a imigrantes (capítulo IV)
Num mundo cada vez mais global, em que o encurtamento de distâncias nos relembra as migrações em massa e quase diárias, é preciso “ter um coração aberto ao mundo inteiro” (encíclica Fratelli Tutti, cap. IV) olhando para essa entreajuda como um gesto bonito e absolutamente legítimo, e migrar não só fisicamente, mas em termos espirituais e de ideias.

900 gr de moderação de populismo e liberalismo (capítulo V)
No exercício da política, tão indispensável desde sempre, e seja esta a nível familiar, local, nacional ou global, uma reflexão que solucionaria todos os seus males: falar verdade, como forma de criar um mundo melhor!

1000 gr de diálogo e amizade social (capítulo VI)
Pela janela por onde vemos o mundo, outrora a caixinha mágica chamada televisão, hoje substituída pelo smartphone, e que pode ser usada como uma ferramenta para o bem e para o mal, não devemos estender o nosso olhar só para o que queremos ver. Combatendo a tendência para obstruir o diálogo e para a desumanização dos povos pela anonimização digital, devemos olhar para cada pessoa como uma joia única e intocável, desde que é concebida até à sua morte natural.

Esta receita recomenda o tempero de uma atitude aberta à mudança, permeável ao contexto e à época em que vivemos, firme na convicção da indiscutível nobreza das pessoas, a quem deve sempre dar-se espaço para afirmar as suas crenças, mesmo contra as conveniências do momento.

E caso ocorram excessos ou erros, o que é normal e próprio da natureza humana, é preciso também pedir perdão e saber perdoar – essa arte tão difícil, profunda e purificadora mas sem a qual nenhuma amizade, família, sociedade resiste.

Que Deus ilumine todos os corações e os encha de júbilo e de vontade de O conhecer Deus e obter o seu perdão.

 

Khalid Sacoor D. Jamal é membro do Observatório do Mundo Islâmico e dirigente da Comunidade Islâmica de Lisboa; Pedro Gil é diretor do Gabinete de Imprensa do Opus Dei; ambos são grandes amigos e comentadores residentes no programa da Antena 1 E Deus Criou o Mundo
.

Nota
[1] Concílio Vaticano II, Declaração sobre as Religiões Não Cristãs Nostra Aetate, 3

 

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