Uma refugiada actriz e a “Fratelli Tutti”: Não me faltaram cerejas na vida

| 23 Out 20

Natasha Marjanovic. Vento Leste. Imigração. Refugiados.

Natasha Marjanovic na peça “Vento Leste”: “Nunca sonhámos que a guerra poderia acontecer na minha terra, mas aconteceu. Mas as cerejas que o senhor Joaquim trouxe tinham o tamanho de uma melancia.” Foto: Direitos reservados.

 

A primeira coisa que me vem à ideia com a leitura da encíclica Fratelli Tutti (“Todos irmãos”) é pensar: o que nos dera ter lido uma coisa destas há alguns anos, antes de guerra! Teria feito diferença? Se calhar, só pensamos em remediar as coisas e não em prevenir. Mas temos de pensar antes de algo acontecer.

Sou uma refugiada e aconteceu-me tudo: educar-me, sobreviver, viver essa situação na primeira pessoa… Comecei a pensar que devia passar o meu testemunho aos outros, principalmente aos mais novos.

Ser imigrante ou refugiado surpreende-nos. A pessoa é obrigada a sair do meio e da cultura onde cresceu, deixando a sua rede social, tendo de se adaptar a uma nova cultura. É muito importante haver abertura no sítio aonde chegamos. É muito importante a pessoa saber como é que receberia os outros. Hoje, chegamos a qualquer lado e estamos habituados a pedir: peço, tenho direito, quero, necessito.

Devo pensar também no pouco que tenho para dar a este mundo: no nosso crescimento, na educação, nas escolas, o que tenho para dar? Porque é que sou uma pessoa com valor? Esse valor que transportamos é possível pô-lo numa mala…

Quando uma pessoa lê um texto como o do Papa, pergunta-se quando é que ela própria conseguirá fazer o que ele propõe. O texto é um apelo à humanidade inteira para não se ser individualista e fazer pequenas mudanças, mesmo que seja só cada pessoa…

No parágrafo 99, o Papa fala da amizade social e da aceitação das diferenças. O amor que se estende para lá das fronteiras está na base do que chama amizade social, em cada cidadão ou em cada país. Se for genuína, essa amizade numa sociedade é condição para possibilitar uma verdadeira abertura ao universal.

O que temos nós ainda de diferente? Sentimo-nos muito mais confortáveis dentro do que conhecemos e facilmente desprezamos o que é novo, que nos é difícil de entender, que é diferente. E não pensamos que isso pode ser uma riqueza, que pode ser algo que nos acrescenta.

A amizade social é algo que se aprende, tem de se plantar já na primeira infância: quanto mais simples e espontânea for, mais ela se entranha. Por isso trabalho muito com crianças e jovens, acreditando que posso mudar alguns preconceitos que existem entre os adultos.

As pessoas deviam transportar de um lado para outro a sua riqueza. Quando chega a hora de nos acontecer uma desgraça – um terramoto, cheias, guerras – somos todos iguais: obriga-nos a sair de um lugar para outro, percebemos qual é o nosso valor individual e colectivo. O que queremos é esta amizade social, onde conseguimos cruzar os diferentes valores de cada pessoa.

 

A diferença é o que nos guia e nos dá força

O Papa fala também do perigo que constitui este universalismo autoritário e abstracto que destrói e desta globalização que nos quer todos iguais, propagando uma falsa igualdade (cfr. 99-100): queremos todos as mesmas marcas, sapatos iguais, malas iguais, roupa igual… Entramos numa bolha e não temos coragem de aceitar a diferença. Por este andar, perderemos as cores de todos os povos e as pessoas serão todas iguais.

A diferença é o que nos guia e nos dá força. Este é o século de ser diferente, porque nos tornámos todos iguais. Quem começa a ser diferente, está à frente. Alguém que acabou relações internacionais e aprendeu chinês está muito à frente de todos os outros: acabar a universidade, hoje em dia, já não é diferente.

Posso falar sobre isto na primeira pessoa: sou actriz, vinda de outro país por causa da guerra. No primeiro momento, pensei que nunca mais na vida iria exercer a arte de representar. Até poderia trabalhar como encenadora, mas pensava que nunca mais iria subir ao palco. Mas a minha arte tinha influências diferentes; aprendi uma língua nova e com um sotaque diferente.

Isso abriu, então, novas portas e proporcionou-me também aprender muitas coisas novas. Quem ganhou? Portugal. Porque apareceu uma mistura entre várias Natashas e outras pessoas que entre si, trocaram e acrescentaram valores.

Muitas pessoas pensam que um refugiado vem tirar o lugar ou atrasar o desenvolvimento. Há preconceito, medo, as pessoas estão confortáveis e não querem sair do seu conforto.

O Papa fala de políticas internacionais onde é absolutamente necessário ter novos rumos, novas visões. Mas também fala da pessoa humana que pode ajudar a outra. E tudo na vida vem da simplicidade. No meu espectáculo Vento Leste, abordei o momento em que o porteiro do meu prédio, o senhor Joaquim, de 70 anos, apareceu à porta e conversou através de mímica com as minhas filhas e acabou a trazer-nos um cesto cheio de cerejas.

Digo ainda a muitos amigos que não me faltaram cerejas na vida. Os meus pais eram de um extracto social médio-alto: mãe advogada, pai engenheiro. Nunca me faltaram cerejas nem fruta nem comida. Nunca sonhámos que a guerra poderia acontecer na minha terra, mas aconteceu. Mas as cerejas que o senhor Joaquim trouxe tinham o tamanho de uma melancia. E ainda agora, na minha memória, sei que nunca na vida comi cerejas com aquele sabor.

 

Ajudar a levantar voo, que as asas já lá estão

Por causa disso, aquelas cerejas entraram na peça de teatro. Hoje ainda, quando me lembro delas, vêm-me lágrimas aos olhos. Uma pessoa, mesmo formada na universidade, mesmo tendo crescido num ambiente tranquilo, está altamente vulnerável e insegura quando chega a outro país. E se alguém, nesse momento, nos dá um sorriso, uma fruta, uma palavra, um mimo, ajuda-nos a levantar asas – já as temos, mas falta levantar voo.

Algumas pessoas ajudaram-me a levantar voo e eu ajudei muitos portugueses a levantar voo: criei, com a minha sabedoria, actividades, empregos e a possibilidade de se realizarem como actores. O importante é poder dar e não estar preocupado em saber se alguém nos vai devolver alguma coisa. Estou muito feliz por encontrar este prazer e estimulo os meus jovens nesse sentido. Eu não devolvi nada às pessoas que me ajudaram, elas também não me pediram nada. Eu devolvi a outros. Ajudei outros, sem me preocupar se eles depois me devolvem algo a mim.

Essa abertura a deixar fluir outra cultura é belíssima e também é referida várias vezes neste texto do Papa, é um valor que todos podemos acrescentar. Temos de investir muito mais na cultura da interculturalidade e da diferença, caminhando para a fraternidade através da educação, desde a primeira infância.  Cada dia, cada pai, cada professor, cada educador pode estimular: “Canta-me uma canção da tua terra. Como se cantam lá os parabéns? Como se brinca? Como se joga? Que provérbios há?…” Quando brincamos, não temos medo.

No parágrafo 134, o Papa diz: “Quando se acolhe com todo o coração a pessoa diferente, permite-se-lhe continuar a ser ela própria, ao mesmo tempo que se lhe dá a possibilidade dum novo desenvolvimento. As várias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos séculos, devem ser salvaguardadas para que o mundo não fique mais pobre.”

Esta é pobreza que devemos evitar. Como é que acrescentamos valor, como observamos o que acontece? Quando falo de problemas sociais, digo aos meus alunos: imagina que os teus pais e irmãos perdem o emprego; não podes pensar que te sentas à mesa a comer e eles ficam a olhar para ti porque não têm emprego. O direito de cada pessoa é ter, pelo menos, o que comer. Temos de pensar em cada momento que, quando comemos muita coisa, há alguém que não come nada. E no que podemos fazer para que isso não seja assim.

Estes são os jogos que podem ser jogados na escola, no teatro… A cultura é uma ferramenta fabulosa para, brincando, abordar assuntos sérios e pensar este mundo. Fazendo, cada um, um bocadinho, seria fabuloso.

 

Natasha Marjanovic é actriz; chegou a Portugal em 1999 como refugiada na sequência da guerra na ex-Jugoslávia; tem duas filhas e considera-se portuguesa, sérvia e, no coração, ex-jugoslava para sempre; dirige a Associação Cultural Palco de Chocolate, onde cria espectáculos e dá aulas de teatro para crianças e jovens. Nestas aulas  prepara os seus alunos para palcos de vida.

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