Uma religião “light”?

| 23 Jul 2023

Jovens numa celebração que vai preparando o caminho para a Jornada Mundial da Juventude, na diocese de Portalegre-Castelo Branco. Foto © COD Portalegre-Castelo Branco/Agência Ecclesia.

Questione-se: para que serve a Jornada? Na foto, jovens numa celebração de preparação para a Jornada Mundial da Juventude, na diocese de Portalegre-Castelo Branco, em abril de 2022. Foto © COD Portalegre-Castelo Branco/Agência Ecclesia.

 

Vivemos tempos estranhos. Nem piores nem melhores do que os vividos noutras épocas da nossa História. Contudo, observamos sintomas preocupantes sobre a forma como as sociedades estão organizadas e os princípios e valores em que baseiam as suas condutas e as propostas que são feitas às pessoas por parte dos responsáveis aos mais diversos níveis. Não vale a pena falar aqui e agora daquilo que se passa a nível político e dos dirigentes dos partidos à volta dos quais gira o Governo do país, pois é consabido o estado a que a nossa sociedade chegou.

Refiro-me, concretamente, à forma ligeira e despreocupada como é encarada a vida nas suas mais diversas facetas. Hoje quase tudo é facilitismo, precário, descomprometido, insonso, sem garra. A vida é-nos apresentada como se fosse para ser vivida sem preocupações, sem valores, sem exigências. Perpassa a ideia que a felicidade que todos almejam pode ser alcançada sem sacrifícios, sem trabalho, sem respeito pela vida, pela natureza, pelos outros, sem a preocupação de vivermos respeitando regras, costumes, tradições, com o intuito de ajudarmos todos a sermos felizes através da nossa palavra, do conselho, da nossa acção, exemplo, testemunho… No fundo, com o intuito de deixarmos um mundo melhor para os nossos filhos e netos. E as instituições políticas, sociais e religiosas, dirigidas pelos homens, devem servir exactamente para que a humanidade alcance esses objectivos.

Ora, quando essas instituições deixam de cumprir as finalidades para as quais foram criadas, isto é, falham na prossecução dos seus objectivos, a sua necessidade começa a ser colocada em causa e a decrepitude e consequente falência conduzem à ruína das sociedades.

Todas as instituições, sejam elas sociedades que gerem a economia, instituições políticas que dirigem as sociedades ou religiosas que apelam e orientam os seres humanos naquilo que se entende por caminhos de concórdia e destino comum, devem possuir e reger-se por princípios, valores e regras, em obediência a uma doutrina que constitui o fio condutor de toda a sua acção. Essa doutrina pode evoluir com o decurso do tempo, sem perder de vista o seu escopo, num rumo traçado por quem teve a ideia da sua criação.

O sentido do religioso, do transcendente que paira sobre toda a humanidade desde que o mundo é mundo, materializa-se na existência de diversas religiões, às quais ao longo de milénios tem aderido a maior parte dos seres humanos. Em todas as épocas houve descrentes. Sempre houve quem declarasse que a religião não interessa, preferindo adorar outros deuses, lutando por dinheiro, prazer, poder, pondo de lado princípios e valores, por vezes alegando que “as religiões são o ópio dos povos”, mas procurando inculcar na mente das pessoas outros tipos de ópio, apresentados como garantindo a felicidade das pessoas.

Ora estas ideias vão fazendo o seu caminho e algumas vezes conseguem penetrar no âmago das religiões. A Igreja Católica, nascida há dois mil anos, mas com bases em princípios e valores que se foram apurando com acontecimentos e doutrina que se perde na memória dos tempos, tem vindo a deixar-se influenciar por esse ar do tempo actual, procurando adaptar-se a certas correntes de pensamento que de católico, na minha opinião, pouco possuem. Para isso, tem contribuído um certo laxismo, uma secularização e uma evidente falta de compromisso com a exigente doutrina do seu fundador, que tem levado uma enorme percentagem de pessoas a afastar-se da prática religiosa consciente e comprometida. O fenómeno não é recente, mas acentuou-se de forma extraordinária, principalmente nos países ocidentais, nas últimas décadas.

Muitos baptizados deixaram de frequentar os actos litúrgicos, abandonando a sua prática, tornando-se meros espectadores desses actos e convertendo-se a uma espécie de nova religião, na qual não há compromisso, perdendo o rumo e esquecendo os princípios básicos orientadores traçados pelo fundador. Na Europa, a Igreja transformou-se numa instituição velha, gorda e acomodada. E uma grande maioria dos seus membros transformou-se naquilo que há muito chamo cristãos de missa de funerais e de sétimo dia. Nas celebrações já são poucos os que participam, respondendo às invocações dos sacerdotes. Por respeito humano, medo ou ignorância. Muitos dos que nessas alturas vão às igrejas fazem-no por mera obrigação social, de solidariedade para com os familiares dos defuntos. 

E o mais grave é que aqueles que ainda têm algum sentido do rumo que lhes foi traçado quando se baptizaram e que o tenham procurado viver, parece que são convidados a procederem do mesmo modo, deixando de se preocupar em viver de acordo com os princípios evangélicos e, convencidos da justeza das vidas que vinham levando e da certeza daquilo em que acreditam, deixar de trazer outros para o pátio, para o redil, de procurarem as ovelhas tresmalhadas. 

Quando um responsável religioso, no caso concreto um bispo, afirma que não é intuito da Jornada Mundial da Juventude converter os jovens a Cristo e à sua mensagem; que apenas têm como objectivo fazer com que os jovens que participarão nesse evento se sintam irmãos; que se preocupem com a ecologia, com a natureza – não estaremos a falar de uma religião diferente, numa outra coisa qualquer, baseada em princípios e valores que qualquer pessoa com um mínimo de consciência da sua humanidade, da sua atenção à vida possa e deva praticar? O que se procura com essa forma simplificada de praticar e pregar a Boa Nova de Cristo? Será que tenho andado enganado quando cito o evangelista Mateus, segundo o qual Cristo disse e eu acredito: “Ide, ensinai, baptizai e fazei discípulos” (Mt 28, 19-20). Por isso me questiono: para que serve a Jornada?

Desconfio de elogios de maçónicos e agnósticos a solidéus que proferem declarações nem sempre providas de sabedoria e de bom senso.

António Caseiro Marques é advogado e dirigente da Acção Católica Rural

 

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