Revelação é o título de uma exposição – de uma pequena parte – relativa aos Manuscritos Sagrados de Santa Cruz de Coimbra, com peças do acervo da Biblioteca Pública Municipal do Porto, desde 1834, patente na Alfândega do Porto, aberta ao público, de 21 de Fevereiro a 25 de Abril.
Neste momento, o edifício da Biblioteca Municipal, instalada desde 1842 no antigo Convento de Santo António da Cidade, está encerrado para obras de reabilitação e de ampliação.
Deve-se aos esforços de Alexandre Herculano a recolha de manuscritos de diversos mosteiros, entre os quais os de Santa Cruz de Coimbra, por “mandato superior”. A recolha desta documentação deveu-se ao decreto de 1834 que extinguiu todos os conventos e mosteiros no país.
O Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra foi fundado antes da nacionalidade, em 1131, sendo uma das mais importantes instituições monásticas.
A leitura e a escrita activa como elevação espiritual

“O Livro, e em particular a Bíblia, Antigo e Novo Testamento, o Saltério e outras obras de explicitação relativas aos Evangelhos, são uma presença teológica e didáctica constantes, na vida monacal, na Idade Média.” Foto: DR
O Livro, e em particular a Bíblia, Antigo e Novo Testamento, o Saltério e outras obras de explicitação relativas aos Evangelhos, são uma presença teológica e didáctica constantes, na vida monacal, na Idade Média.
É estabelecido um plano anual de leitura silenciosa ou escutada em silêncio, individualmente ou em conjunto, em diversos momentos: na Lectio Divina, no momento das refeições da comunidade monástica, por exemplo.
No século XVI, é aprofundado o estudo e investigação teológica, com o ensino do hebraico, grego e latim corrente. Em particular, no Mosteiro de Santa Cruz.
A Leitura é o primeiro passo e o primeiro degrau na elevação espiritual, tal como é referido no texto seguinte, A Escada dos Claustrais, da autoria de Guigo II, o Cartuxo, autor do século XII:
Um dia, quando estava ocupado a trabalhar com as minhas mãos, comecei a pensar no nosso trabalho espiritual e, de repente, vieram-me à mente quatro degraus do exercício espiritual: a leitura, a meditação, a oração e a contemplação. Estes formam para os monges uma escada pela qual se elevam para o céu.
A leitura é o estudo cuidadoso das Escrituras, concentrando nela todas as suas forças. A meditação é a aplicação atenta da mente para procurar, com a ajuda da própria razão, o conhecimento da verdade oculta. A oração é voltar-se, com a devoção do coração, para Deus, a fim de afastar o mal e obter o bem. A contemplação é quando a mente é, de alguma forma, elevada a Deus e mantida acima de si mesma, de modo a saborear as alegrias da doçura eterna. (…).
A leitura procura a doçura de uma vida aventurada, a meditação percebe-a, a oração pede-a, a contemplação saborei-a.
A leitura trabalha no exterior, a meditação na medula, a oração pede-nos o que desejamos, a contemplação dá-nos o prazer da doçura que encontramos.
Belas e justas palavras são estas. O pó dos séculos não as apagou, mas tornou-as ainda mais clarividentes: Na verdade, quando um cristão faz o que vulgarmente chamamos agora meditação, fazemos – ou deveríamos praticar – estes quatro momentos.
A exposição, muito cuidada e completa, constitui um verdadeiro e misterioso prazer para quem a percorre, sempre ao som de uma harpa – tocada pela harpista e compositora Angélica Salvi, natural de Espanha e radicada no Porto desde 2011, que se debruçou sobre as imagens da Livraria de Mão do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra para criar uma composição musical específica para a mostra.
Scriptorium monástico

“Três dedos escrevem, mas todo o corpo trabalha. É o recinto específico para a escrita e leitura. É um espaço sagrado, como tudo deveria ser.” Foto: DR
Três dedos escrevem, mas todo o corpo trabalha.
É o recinto específico para a escrita e leitura. É um espaço sagrado, como tudo deveria ser.
Sobretudo, pede-se ao monge copista humildade, concentração e talvez “respiração longa e profunda”, tal como faziam ou fazem os mestres zen nas suas caligrafias, os célebres kanji. Há, na verdade, bastantes semelhanças com o trabalho dos monges copistas.
É espantosa esta atenção, este gesto intemporal de amor pelo livro, pela leitura e escrita, se compararmos com a “escrita e leitura” apressada e histérica nas redes sociais, no nosso tempo. Para já não falar do desprezo pelo Livro.
Aqui, nesta visita tão inesperada, interessa sobretudo passear com calma e contenção, ver, ouvir, tactear e aprofundar com os olhos e ouvidos e espírito, estes corredores cheios de luz e de sombras, de cores e desenhos simbólicos, para se extasiar com a Revelação.
Oficina no Scriptorium

“A leitura procura a doçura de uma vida aventurada, a meditação percebe-a, a oração pede-a, a contemplação saborei-a.” Foto: DR
Em paralelo, são convidados os que desejam participar na Oficina aberta, para “explorar técnicas de escrita medieval”. No Livrinho oferecido gentilmente à entrada – muito completo e com diversos textos – vêm as datas e os horários desta Oficina, dirigida por Tiago Rodrigues.
O Museu e Bibliotecas do Porto estão de parabéns por este trabalho colectivo e muito aprofundado sobre tais aspectos da vida monástica medieval.
Revelação – Manuscritos Sagrados de Santa Cruz de Coimbra
Exposição na Alfândega do Porto – R. Nova da Alfândega – Porto
Curadoria: Rita Roque e Jorge Sobrado
Consultor Científico: José Meirinhos
Terça a domingo, 10h-17h30
Até 25 de Abril
Mais informação: https://museudoporto.pt/recurso/exposicao-revelacao-manuscritos-sagrados-de-santa-cruz-de-coimbra/
Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário










