Uma rosa a levitar em Mafra, como que por magia – e é mesmo

Uma rosa a levitar. Exposição “Magia – Um olhar sobre um tesouro oculto”. Palácio Nacional de Mafra. Dezembro 2019 a Maio 2020. Foto: Direitos reservados.
Uma rosa levita no Palácio Nacional de Mafra. Dentro de uma campânula de vidro rectangular, a flor está suspensa no ar, sem nada que a sustente. Magia? É mesmo.
A rosa a levitar é apenas uma das peças – um truque de ilusionismo, no caso – da exposição Magia – Um olhar sobre um tesouro oculto, patente no palácio até 18 de Maio do ano que vem. Nesse dia, aliás, haverá uma surpresa para os visitantes: a caixa de vidro será aberta e a rosa cairá… Na mostra, podem ver-se também livros e tratados sobre o tema, normalmente inacessíveis ao público, bem como objectos de ilusionismo (mecanismos e instrumentos usados nos séculos XIX e XX) e uma reprodução da pedra filosofal.
Estes são alguns dos ingredientes incluídos na exposição Magia – Um olhar sobre um tesouro oculto, que foi inaugurada em Mafra no passado dia 4. Comissariada pelo ilusionista Nuno André, com o acompanhamento científico de João Alves Dias (CEH–Centro de Estudos Históricos, da Universidade Nova de Lisboa) e a pesquisa bibliográfica de Clotilde Mendes, a exposição é “percursora de novas abordagens sobre o tema”, como refere o director do Palácio, Mário Pereira.

Trata-se de uma exposição que constitui, por si, “um hino à tolerância perante a diferença e um caminho na procura do conhecimento”, como referia João Alves Dias na inauguração. “Afinal, o que é que não é magia? Estar vivo já por si é magia!”, acrescentava.
No texto de apresentação do catálogo, o membro do CEH faz um percurso pela ideia de magia, desde a Antiguidade à actualidade, passando pelos tempos bíblicos, tendo em conta que muitas coisas são vistas como magia. “Talvez tenha sido nesse espírito que muitos imaginaram que o Mundo foi criado por sucessivos momentos de magia, em apenas seis dias”, e Deus Criador era comparado um grande mago, como se pode ver numa iluminura do século XV: Deus segura na mão um ceptro que parece uma varinha mágica:

“Criação do Mundo, 4º Dia”. in “The Bible Historiale of Edward IV 1479, Bruges). Exposição “Magia – Um olhar sobre um tesouro oculto”. Palácio Nacional de Mafra. Dezembro 2019 a Maio 2020.
“Estas obras confirmam o desejo e a procura incessante que a humanidade tem de conhecer”, afirmava, também na inauguração, o comissário da mostra, Nuno André. “O medo é fruto do desconhecido e da ignorância”, acrescentava. Também por isso, grande parte da mostra remete para a questão do conhecimento, podendo ver-se alguns dos tesouros bibliográficos relacionados com as temáticas que um mago tem de dominar para ser tratado como tal: alquimia, astrologia, cabala, criptografia, esteganografia, filosofia, quiromancia.
Os livros exibidos, regista Nuno André no catálogo, apelidam a magia de “oculta, natural, mecânica, recreativa, lícita, diabólica, etc. (…) Em nome dela se condenou, se proibiu, se estudou, se evoluiu…”

Capa de uma das edições do Index, representando livros a serem atirados para a fogueira.
Antigos tratados de alquimia, considerações sobre a pedra filosofal, cabala, astrologia, estudos médicos sobre monstros humanos e prodígios da natureza estão também à vista, numa ocasião rara: embora fazendo parte da biblioteca do convento, a leitura de muitos desses livros era proibida pela Inquisição (mesmo se alguns deles eram escritos por membros do clero) e apenas alguns podiam ter acesso a eles – e hoje a situação, por razões que se prendem essencialmente com a conservação dos mesmos, não é muito diferente.
Guardados pela chave de um dos frades – no início, frei João de Santa Anna, primeiro bibliotecário da Real Livraria de Mafra, era quem tinha acesso –, apenas a autorização do Papa Bento XIV permitiu a alguns frades de Mafra guardar, ler ou estudar em segredo os livros que faziam parte do Index de Livros Proibidos, incluindo os que à magia diziam respeito.

Ilustração alusiva ao esquema sensorial e intelectual humano, numa obra proibida, publicada em 1619.
Os frades não se limitavam a guardar esses livros interditos e há uma ligação de vários religiosos à história da magia, como recorda Nuno André: o abade Trithemius inventou a criptografia e a esteganografia (na exposição pode ver-se o livro considerado o primeiro tratado de criptografia, escrito por Trithemius), depois usadas por magos para colocar mensagens cifradas nos seus escritos aparentemente vulgares; vários jesuítas desenvolveram alguns dos primeiros autómatos, sendo depois acusados de difundirem ideias heréticas; e muitos métodos, fórmulas e conceitos de magia eram guardados na biblioteca do palácio, fechados pela chave do frade bibliotecário.
“A exposição não defende nem ataca a magia, ela é um olhar histórico a partir dos livros do acervo da biblioteca”, diz Nuno André ao 7MARGENS. Para notar a seguir: “Não deixa de ser curioso o discurso do Papa Francisco no dia da inauguração da exposição, dizendo que quem tem Cristo na vida não precisa recorrer aos magos e que a magia não é cristã.”
Facto é que a mostra termina, na secção que leva o título “Para lá da ilusão”, precisamente com um quadro da Adoração dos Magos, um dos episódios que representa a “incursão” da magia nas páginas da Bíblia. Retirada do Livre des Heures de Notre Dame, impresso em Paris em 1504, esta representação sucede, na exposição, a uma xilogravura incluída num incunábulo de 1492/93, que representa a criação do mundo, em seis tábuas que correspondem aos seis dias do relato bíblico.

Adoração dos Magos, no “Livre des heures de Notre Dame”, impresso em Paris, em 1504.
Obras de Hermes Trimegisto, Cornelius Agrippa, Gaspar Schott, Robert Fludd e muitos outros nomes marcantes do rumo filosófico e científico das suas épocas ajudam a fazer uma viagem em nove etapas: desde o encanto da ilusão à interpretação dos sinais, da história das proibições e condenações aos monstros e prodígios, da filosofia matural á física recreativa, da alquimia à arte de ocultar segredos. Tudo servido ainda por um catálogo que acrescenta também várias das ilustrações em destaque.

Magia – Um olhar sobre um tesouro oculto
Palácio Nacional de Mafra. Todos os dias, excepto 3ª feiras, das 09h30 às 17h30 (última entrada às 16h45). Até 18 de Maio.
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