Uma semana sob protesto!

| 1 Abr 2024

Crucificação. Jesus entre os dois ladrões

Jesus na cruz entre os dois ladrões (1619-1620). Rubens, Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Bélgica.

 

Escrevo em sexta-feira. Sem vontade anímica de escrever seja o que for. Apenas a repulsa, a indignação, quase o sufoco toldam-me a alma e algemam-me o corpo. Porque – e por mais que a chamem Santa – esta sexta-feira é sangrenta, criminosa, demoníaca. O ‘Príncipe das Trevas’ (como predissera a própria Vítima) tomou conta do mundo, tudo quanto de peçonhento e desumano e cruel possa atribuir-se ao espírito diabólico injectou-se nos ossos e nas veias das forças dominantes, infectou a atmosfera judaica e cevou-se no corpo frágil de um jovem sonhador de um outro Israel, reino novo, era nova, mundo novo.

Desde há oito décadas – tinha eu cinco ou seis anos de idade, habituado às celebrações sacras da ensanduichada “Semana Santa” – este foi o ano em que me mantive afastado, direi mesmo imune aos incensos turvos, às encenações de teatro infanto-senil, roupagens folclóricas, com que as igrejas e o mundo em geral pretendem encobrir o drama, a tragédia e o hediondo crime perpetrado contra Jesus de Nazaré. De há cerca de cinquenta anos que, em chegando a esta altura, afirmava publicamente que celebrava esta Semana, sim, mas sob protesto.

Começando pelo “Domingo de Ramos”, aquela manhã radiosa – mais forte que a luz do sol nascente era o lume vivo que ressumbrava da multidão alvoroçada – fez estremecer os magnatas furiosos do Templo de Jerusalém que maquinavam a morte do Nazareno: uma manifestação civil, desinibida e livre, genuína e anti-litúrgica (o próprio Mestre concordou, pode dizer-se que a provocou), em que estiveram frente a frente o supremo poder religioso-institucional e o poder popular. Sem a força do Povo nunca teria havido Domingo de Ramos. Os rituais que a instituição eclesiástica promove para um dia tão expressivo roçam as raias do ridículo com as opas, as fardas oficiais, as capas sumptuosas aos ombros do celebrante-presidente. E Jesus montado no mais humilde asinino, um “jumento, animal de carga”… O desafio foi tremendo: quando os sumos-sacerdotes do Templo mandaram calar o povo, Jesus respondeu com uma eloquência retumbante, ameaçadora: “Se eles se calarem, serão as próprias pedras a manifestar-se, estralejando, elas saltarão dos caminhos”! Perante o que se passa actualmente, não há melhor definição: Ridicule, mais charmant!

Procissões medievais, crepes sobre crepes, desnudação dos altares, enterros do Senhor sob pálios bordados a ouro e bandas acompanhantes, hissopes e águas-bentas, descerramento dos crucifixos, fúnebres espectáculos bracarenses, autoflagelações filipinas, antífonas e quejandos – não haverá mais artefactos engenhosos e pílulas pias para esconder o facto histórico: Mataram um Homem!!! E ninguém pergunta quem O matou? Onde o ‘Pregador’ que desmonte esse pré-elaborado mas caduco artifício instrumental e explique as razões por que O mataram?!… Não perca tempo com o supérfluo. Leia o que está escrito e desentranhe o secreto corredor que vai do Pretório de Pilatos ao Sinédrio dos sumos-sacerdotes Anás e Caifás. Aí, a interminável aliança entre o poder político e o poder religioso, a antecipada Inquisição satânica que os suporta! Até hoje e até sempre!

Eles ainda estão vivos por aí, os assassinos de Jesus.

Perguntem a Cirilo, patriarca cristão de Moscovo, em que pensa quando, diante de Putin, celebram os dois no mesmo templo a Paixão e Morte de Jesus! Ocorrer-lhe-á alguma coincidência reincarnada de Caifás e Pilatos?…

E na Palestina, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Rafah… Desde o fatídico 7 de Outubro – em cinco meses apenas – assassinaram 34.000 vezes a Jesus, na sua própria pátria! Jovens, crianças, mulheres, idosos – todos repercutem ao mundo idêntico grito de há dois mil anos: “Por que nos abandonastes?”.

Tinha razão Blaise Pascal:

Jesus estará em agonia até ao fim dos tempos.

Por isso, não me empoeirem o ar nem defraudem a história, com adereços despropositados, falaciosos. Há factos que, pelo seu peso e mensagem, são irrepetíveis, absolutamente inimitáveis. Eis a razão por que, aos rituais de piedosa diversão, preferi nesta sexta-feira estar perto de alguém que, aos 96 anos e amarrada à cruz do seu leito, aguarda o dia da partida.

Em cada dia, há sempre uma Sexta-feira da Paixão.

E em cada dia, há um Domingo de Páscoa que espera pela nossa Acção.

 

© UNICEFEyad El Baba Crianças olham para suas casas destruídas na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza

Crianças olham para suas casas destruídas na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza © UNICEF Eyad El Baba.

 

 

José Martins Júnior é padre católico da diocese do Funchal.

 

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