Diários de quarentena (4): Uma sensação de espera, o espaço público vazio…

| 20 Mar 20

Março de 2020. Texto e foto © Lucy Wainewright

“…eis que vou levá-la para o deserto e lá, a sós, falarei ao seu coração (Oseias, 2, 16)

 

Saindo à varanda oiço silêncio… Uma sensação de paragem, de suspensão, de espera…

Mas os pássaros continuam ativos e os seus cantos lembram que a primavera está à porta.

 

 

Lá fora (Texto de Jorge Wemans)

Lisboa

Avenida Álvares Cabral, em Lisboa, vazia durante a quarentena do estado de emergência nacional. Março de 2020. Foto Jorge Wemans

Estranha esta condição do espaço público se ter tornado um local vazio. A avenida, vista da minha janela, é um risco silencioso. Os olhos percorrem-na sem interrupção. Para cima e para baixo. Por vezes um carro, uma moto, autocarros vazios. Outras vezes uma pessoa. Raros. Mais raros do que num domingo de agosto.

Neste espaço vazio, a Natureza ganha nova visibilidade. A primavera que o bulício habitual esconde, é agora manifesta. O pólen no ar e pelo chão. As primeiras folhas de um verde muito claro. Cheiros novos. A Natureza que tão longamente maltratámos afirma-se pujante diante dos nossos olhos caseiros. Não é uma desforra, uma vingança sobre o predador preso. Contemplo esse rebentar de vida a que agora dou atenção como um mar de misericórdia que limpa o passado e é gérmen de confiante esperança.

A primavera é sempre a marca exuberante da generosidade da Natureza. Agora vê-se melhor. Sente-se mais…

Jorge Wemans é jornalista e membro da equipa editorial do 7MARGENS

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