José Ornelas, bispo de Setúbal e, agora, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), será um dos três bispos portugueses em maior consonância com a abertura do bispo de Roma, Francisco. Outros dois serão o de Leiria-Fátima, D. António Marto, e D. José Tolentino Mendonça –, o que se poderá traduzir numa maior abertura da Igreja Católica Romana à sinodalidade que “não é inimiga, antes pelo contrário, da unidade”.

Interessante é a referência que o novo presidente faz da “primazia do bispo de Roma”, que não é posta em causa, nem pelas igrejas da Reforma, desde que se reveja o seu papel de unidade visível da igreja, como o primeiro dos primeiros – é o que se sente das suas entrevistas. Partindo do princípio de que todas e todos são filhas e filhos de Deus, José Ornelas refere que a “unidade tem de estar ligada com a pluralidade”, e que o bispo é o garante de que “ninguém fique para trás”. A unidade das igrejas particulares (leia-se: diocesanas), faz-se de forma que o caminho a todos nos una, na grande diversidade de culturas, ideias e pensamentos, como diz: “Uma igreja constantemente criativa tem de se adaptar a novos meios, novas culturas, novas línguas, criar o que ainda não estava criado.”

Dando o exemplo de Nelson Mandela para uma reconciliação duradoura, o novo presidente da CEP afirma, com coragem, que “só os ideais débeis é que têm medo e se fecham” , e porque não vê debilidade no fechar da igreja, não vê mal a possibilidade de termos padres casados dentro da nossa Igreja, referindo que na sua diocese de Setúbal, há um padre casado e já avô, de rito oriental.

Com esta abertura sobre a “sinodalidade”, onde os leigos e leigas tenham um papel preponderante, D. José Ornelas coloca a tónica, digamos, da “governança” da Igreja na sua catolicidade que foi já defendida pelos padres que no século XIX abandonaram a Igreja Católica Romana, fomentando uma Igreja nacional com a sua própria cultura ou os missionários que vindos a Portugal propugnavam a leitura da Palavra de Deus.

Da leitura das suas entrevistas – que seguem as do bispo de Roma –, vislumbra-se a possibilidade de um sínodo português que possa levar aos sínodos universais, sob a presidência do bispo de Roma, a pluralidade de opiniões, na unidade católica da Igreja. Como definiu São Vicente de Lerins, no século V, católico é aquilo em que se crê “sempre, por todos e em toda a parte”, colocando, assim, em questão a “infabilidade papal”, aliás há tanto tempo não usada. Mas é neste sentido que a “sinodalidade” aponta. Por outro lado, coloca-se em causa o “clericalismo” sempre apontado como chaga da Igreja, não se diga que é o clero que está “em causa”, mas o exercício do “clericalismo”.

José Ornelas propugna por uma Igreja ao serviço dos mais frágeis, sejam as mulheres (que sofrem a desigualdade na Igreja), seja o Povo de Deus, sem voz quer na Igreja, quer na sociedade. Isso exige uma mudança de linguagem, costumes e de primazia, mais no sentido de uma Igreja ao serviço dos mais pobres, uma Igreja “sem festejos” de inaugurações estatuárias, mas de festa e alegria como posição missionária sempre e só ao serviço de Jesus morto e ressuscitado.

Estas são as linhas principais do que leio em D. José Ornelas, desejando que se concretizem.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental

 

Uma sinodalidade portuguesa?

| 27 Jul 20

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