
Marino Mazzacurati, “Os Horrores da Guerra”. Obra na igreja de Santa Maria in Trastevere (Roma). Foto © António Marujo/7MARGENS
Quando uma guerra se instala – seja em que parte for – falhamos todos. Falhamos enquanto espécie. Falhamos por acreditar que vivemos em linha recta quando negligenciamos a evidência dos ciclos.
Primeiro, falhamos na descrença. A seguir, falhamos na indiferença. Depois, falhamos na arrogância das opiniões – dos dedos em riste apontando a vítima. Somos bárbaros fingidos. Não queremos saber, queremos apenas fingir que sabemos sem a menor cautela com os nossos irmãos. Sim, porque somos todos irmãos, não é? Deveríamos sê-lo também nos corpos dados ao manifesto, no rasgar das balas, no choro dos bebés a caminho da orfandade e nos anciãos sem direito a passagem digna.
Não me venham com tretas de conflitos internos e sempre existentes, de lavagem de roupa suja vinda dos séculos antes de Cristo, e o diabo que vos carregue mais às vossas constatações. Se lhes está no sangue, não será no sangue do povo desesperado, com certeza. E no nosso sangue? O que nos está? A passividade que destrói a paz? A indiferença? A distância? A desculpa de quem se acusa filho de Deus mas se recusa a descruzar os braços?
O que nos resta… o que nos resta já não é nada. Somos os escombros que perpetuam a desistência da vida, que nunca a souberam agarrar com a força divina. Somos o pó envergonhado dos dias depois do medo, dos dias sem nada para sentir. Somos a apatia.
Mas para fingir que não somos isto tudo, disfarçamo-nos de opiniões gélidas e sem honestidade – a preguiça de pensar e de sentir cola-se-nos sem volta a dar. Se ao menos fôssemos insónias e lágrimas exaltadas… mais malparecidos, é certo; mas ainda humanos, quase divinos. Se ao menos isso… mas não.
Assim, resta-nos ser uma sombra de gente a olhar a morte – a ajudar a morte, a causar a morte.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; Depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em breve, meu amor” e ” O Homem do trator”.










