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Uma tragédia americana

| 15/03/2020

Uma tragédia americana

by | 15 Mar 20

Imagem do filme “O Caso de Richard Jewell”, de Clint Eastwood

 

No dia 27 de Julho de 1996, quando decorriam os Jogos Olímpicos, em Atlanta, durante um concerto musical, um segurança de serviço – Richard Jewel – tem a intuição de que uma mochila abandonada debaixo de um banco é uma bomba. Não é fácil convencer os polícias da sua intuição, mas ele é tão insistente que acaba por conseguir. E não é uma, mas três bombas de fabrico artesanal. Sem conseguirem desactivá-las a tempo, elas acabam por explodir. Felizmente, por causa da obstinação de Richard, foi possível criar um bom perímetro de segurança e os danos foram muito minimizados.

Como era de prever, Richard torna-se rapidamente um herói, mesmo que ele não queira colher para si os louros, afirmando que não fez mais do que a sua missão lhe pedia.

Só que demorava a encontrar o bombista e era preciso fechar o caso depressa, dado o contexto olímpico que se vivia na cidade. E o FBI, sem grandes escrúpulos, vai atrás de uma denúncia maldosa do reitor de uma universidade onde Richard tinha trabalhado como segurança e de onde tinha sido despedido por excesso de zelo.

De facto, Richard, cuja paixão e objectivo na vida era ser polícia – tal era a sua confiança e quase adoração pelo trabalho que ele acreditava que eles faziam – tinha uma figura e uns traços de personalidade que quase levavam a que fosse condenado inocentemente. Com o seu modo conservador de ser e com a sua fragilidade e vulnerabilidade a toda a prova, comovente até; com a sua cuidadosa atenção aos pormenores (veja-se a questão dos Snickers) e com a sua atitude obsessiva para cumprir e fazer tudo como a lei manda, procurando em cada situação aplicar os protocolos de segurança que tinha aprendido.

Tudo isto, agravado ainda pelo ‘arsenal’ de armas que tinha em casa, vai fazer com que encaixe perfeitamente no perfil do incompreendido e frustrado que quer tornar-se famoso e que, para isso, coloca ele mesmo a bomba, para depois ser o primeiro a dar o alerta. E bastou uma notícia, sem fundamento, de uma jornalista “desesperada” e de um agente do FBI que quer apresentar serviço, aproveitada e explorada pelos meios de comunicação social, para o herói ser apontado como culpado e a sua vida se tornar num calvário. Richard parece que não tem salvação.

É então que se lembra do advogado que gostava de Snickers e resolve ligar-lhe. Ele já não está na sociedade onde trabalhara e será a sua nova sócia, russa, que o convencerá a defender aquele homem encurralado, dizendo-lhe: “De onde eu venho, quando o governo diz que uma pessoa é culpada, sabemos que está inocente”. E Watson Bryant, um advogado muito peculiar, vai assumir a defesa de Richard, sabendo que se trata de uma luta de David contra Golias. Mas ele está absolutamente convencido da inocência de Richard e do oportunismo dos que o acusam. E ainda vai ser mais do que advogado, é como se fosse o pai que não existe, ou então o irmão mais velho de que Richard precisava. Ele vive só com a mãe.

Richard Jewell foi formalmente declarado inocente pelas autoridades e, alguns anos depois, o verdadeiro bombista foi descoberto e preso. Jewell tinha, entretanto, realizado o sonho de entrar para a polícia.

Quase aos 90 anos, Clint Eastwood realiza – desta vez sem entrar como actor – mais um filme marcante, ele que é um cineasta que se interessa pela justiça e crítico da sociedade, sobretudo quando ela (nós) se deixa levar pelos preconceitos, nascidos dos estereótipos. Creio que até nós caímos nessa armadilha: sabemos que Richard não é culpado, mas diante de tantas evidências – ele tem vários tiques irritantes, que o realizador não esconde – ainda deixamos crescer uma pequena semente de dúvida. O filme está muito bem montado e conta também com magníficos actores.

Um bom filme para este tempo.

Richard Jewell, de Clint Eastwood. Drama, M/12, EUA, 2019.

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar); o texto foi inicialmente publicado na revista Mensageiro de Santo António, de Fevereiro de 2020.

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