
“Sob a complacência israelita, cristãos libaneses massacraram inocentes, mulheres, crianças, velhos.” Imagem do filme
Comecemos pelo fim — afinal, o filme conta uma história conhecida: os massacres de Sabra e Chatila, na guerra do Líbano, em 1982. No final, o que vemos é a história então contada ao mundo pelas câmaras dos repórteres de televisão. Sabra e Chatila eram dois campos de refugiados palestinianos. Sob a complacência israelita, cristãos libaneses massacraram inocentes, mulheres, crianças, velhos.
O que vemos no ecrã é o regresso de sobreviventes aos campos – que choram e gritam. Há um repórter que entra nos campos de Sabra e Chatila e vê a mão e depois a cabeça de uma menina morta. Nas notícias, desde há um ano, há fotografias em tudo semelhantes a este filme animado. São a crua realidade, como é o filme de animação de Ari Folman, Valsa com Bashir, um desenho visceralmente real de uma memória vivida.
A dor já não é filtrada pelas cores intensas desse desenho. Mas antes, durante 90 minutos, esta Valsa com Bashir só podia ser contada assim, em animação: o protagonista confronta-se com a sua memória que apagou aqueles dias da guerra no Líbano e decide partir em busca do que foram esses dias. A sua descoberta é a nossa.
Comecemos pelo princípio. Folman é realizador israelita e foi soldado na primeira guerra do Líbano, em 1982. Mais de 20 anos depois (o filme é de 2008), um encontro com um amigo trouxe-lhe à memória esses dias, de que não se lembrava, de que tinha apagado o registo. A partir daí o filme constrói-se de encontros entre camaradas de armas onde Ari vai reconstruindo a ida à guerra. A sua viagem é nossa também e à medida que ele vai compondo o quadro do que aconteceu naquele ano, o espectador vai construindo também a teia complexa em que se enredou já há muito o Médio Oriente.
É uma lição de cinema e de vida que ali se escreve. Há um repórter que entra nos campos de Sabra e Chatila e vê a mão e depois a cabeça de uma menina morta. Nas notícias, desde há um ano, há fotografias em tudo semelhantes a este filme animado. São a crua realidade, como este filme é um desenho visceralmente real de uma memória vivida.
Nestes dias em que a guerra voltou a essas paragens (afinal, algum dia terá parado?), Valsa com Bashir apresenta-nos um olhar notável de inteligência e beleza, de sonho e mesmo humor sobre os eternos conflitos da região. Por entre as cores fortes, a atenção aos detalhes de som (que bela banda sonora de Max Richter) e imagem, o olhar quase terno das personagens sobre o seu passado, as ideias feitas são desarrumadas. No meio dos tiros, Ari Folman põe-nos a dançar a valsa, para sublinhar o absurdo da guerra, de qualquer guerra.
Valsa com Bashir
de Ari Folman
Israel, 2008.
(as edições portuguesas em DVD e Blue-ray estão esgotadas, mas vale a pena a pesquisa por edições estrangeiras ou em plataformas de streaming)









