Uma viagem inesquecível

| 20 Mar 2021

Encontro inter-religioso em Ur, Iraque, presidido pelo Papa na sua viagem ao país. Foto: Direitos reservados/Religión Digital

 

Ao visitar o Iraque, o Papa Francisco contribuiu decisivamente para que se abram caminhos para um movimento corajoso no sentido de um diálogo entre religiões e povos, que conduza os governantes da região a delinearem a sua ação no sentido da Paz. Sabemos que as condições são adversas e extremamente difíceis e incertas, por isso muitos tentaram dissuadir o Papa no seu desejo de concretizar esta viagem. Contra ventos e marés, o sumo pontífice persistiu no seu corajoso intento e realizou esta visita essencialmente ecuménica, como um gesto de conciliação e boa vontade.

Muitos esperavam esta peregrinação necessária, mas não esperavam que tivesse lugar tão cedo, e em circunstâncias tão difíceis, que levaram o Papa a arriscar a sua própria saúde e a vida. Mas era fundamental não esperar mais. E a escolha de Ur, lugar das origens de Abraão, Pai das grandes religiões monoteístas, é a demonstração de que estava em causa a urgência de uma iniciativa unificadora. E assim aconteceu, até para ouvirmos palavras exigentes e necessárias: “Hostilidade, extremismo e violência não nascem de um espírito religioso; são traições à religião. Nós, crentes, não podemos calar-nos quando o terrorismo abusa da religião”. Eis o que deve ser ouvido por todos, já que em todos os pontos cardeais e em todas as religiões sentimos que há vozes que descreem desta verdade elementar. Quantas vezes prevalece a intolerância e o desrespeito mútuo, em nome da indiferença e do esquecimento sobre o primado da dignidade humana.

“Hoje rezamos por todos os que padeceram sofrimentos horríveis e por todos os que ainda se encontram desaparecidos e sequestrados. E rezamos para que em toda a parte se respeite a liberdade de consciência e a liberdade religiosa, que são direitos fundamentais”. Infelizmente há ainda quem não compreenda os princípios fundamentais em que assenta a herança de Abraão e de quantos lhe sucederam ao longo dos séculos. Mas é preciso que tal aconteça!

Esta viagem histórica coincide com o oitavo aniversário do pontificado do Papa Francisco, eleito a 13 de março de 2013, e permite realçar a marca de fraternidade que tem caracterizado este magistério. Ao escolher a invocação do Santo de Assis fê-lo por causa dos pobres e dos deserdados e não se tem cansado de afirmar a Igreja como realidade viva atenta aos sinais dos tempos, às injustiças, à indiferença, à fome e à miséria – em nome da dignidade humana. Tem, por isso, o Papa Francisco afrontado os temas mais difíceis: o risco de corrupção, a pedofilia, as desigualdades, a pandemia, a necessidade de chamar todos quantos constituem o Povo de Deus a responsabilidades partilhadas no seio da Igreja.

Ao lermos as exortações apostólicas Evangelii Gaudium, Amoris Laetitia e Gaudete et Exultate compreendemos que a verdadeira alegria da Graça de Deus e das Bem-Aventuranças exige atenção e cuidado, generosidade, sobriedade e capacidade de ir ao encontro de quem precisa de nós. Nestes tempos de pandemia, de confinamento e de separação temos de encontrar novas formas de encontro e de compreensão do próximo.

A exceção em que vivemos corresponde a um tremendo “estado de necessidade”, que nos obriga a prevenir a morte dos mais frágeis. O descuido, o egoísmo, a desatenção têm como consequência o flagelo da doença e da morte de muitos dos nossos irmãos. E se referi as lições das exortações, devo lembrar os textos luminosos de três encíclicas de importância capital: Lumen Fidei, escrita com o Papa Bento XVI, ligando Fé e Razão, Liberdade e Responsabilidade; Laudato Si’, um documento para a sociedade toda, que é profético, uma vez que nos coloca perante a exigência de salvaguardarmos a Natureza e o Meio Ambiente, contrariando o aquecimento global e combatendo o consumismo e o desperdício; e Fratelli Tutti, em nome de uma fraternidade necessária e autêntica.

E termino a citar a carta dirigida ao Papa Francisco por María Lía Zervino, Presidente da União Mundial de Organizações Femininas Católicas: “sonho que, durante o Teu pontificado, inaugures, juntamente ao Sínodo dos Bispos, um Sínodo diferente: o Sínodo do Povo de Deus, com uma representação proporcional do clero, dos consagrados e das consagradas, dos leigos e das leigas. Não seremos mais felizes só porque uma mulher vota pela primeira vez, mas porque muitas mulheres leigas preparadas, em comunhão com todos os outros membros desse Sínodo, possam dar o seu contributo e o seu voto, que se juntará às conclusões que serão colocadas nas tuas mãos. Provavelmente, Santo Padre, Tu já tens esta “carta no teu baralho” para colocar em prática a sinodalidade apenas no momento certo para a jogar.”

Todos somos chamados à primeira linha, como os heróis que têm cuidado nos hospitais das vidas de quem tem sido afetado pela pandemia, de que ainda não nos libertámos, devendo manter cuidados redobrados. Todos não somos demais. Os nossos próximos são aqueles cuja vida temos de salvar.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Os confins da fenomenologia

Emmanuel Falque na Universidade de Coimbra novidade

Reflectir sobre os confins da fenomenologia a partir do projecto filosófico de Emmanuel Falque é o propósito da Jornada Internacional de Estudos Filosóficos, “O im-pensável: Nos confins da fenomenalidade”, que decorrerá quinta-feira, dia 26 de Maio, na Universidade de Coimbra (FLUC – Sala Vítor Matos), das 14.00 às 19.00. O filósofo francês intervirá no encerramento da iniciativa.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“A grande substituição”

[Os dias da semana]

“A grande substituição” novidade

Outras teorias da conspiração não têm um balanço igualmente inócuo para apresentar. Uma delas defende que estamos perante uma “grande substituição”; não ornitológica, mas humana. No Ocidente, sustentam, a raça branca, cristã, está a ser substituída por asiáticos, hispânicos, negros ou muçulmanos e judeus. A ideia é velha.

Humanizar não é isolar

Humanizar não é isolar novidade

É incontestável que as circunstâncias de vida das pessoas são as mais diversas e, em algumas situações, assumem contornos improváveis e, muitas vezes, indesejáveis. À medida que se instalam limitações resultantes ou não de envelhecimento, alguns têm de habitar residências sénior, lares de idosos, casas de repouso,…

Agenda

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This