Compartimento nº 6

Uma viagem tão longa e ficamos sem ver os petróglifos

| 3 Fev 2022

Compartimento nº 6, de Juho Kuosmanen

 

No princípio, temos uma mulher finlandesa, Laura, arqueóloga. Estamos em Moscovo. Há uma festa na casa, mas ela parece desconfortável. Os cinéfilos sublinham logo a cena inicial, a sua saída da casa de banho, envergonhada, porque quem bateu à porta vai entrar e cheirar ainda o odor que ela deixou. Não é agradável.

Depois, ficamos a saber que Laura, que vive uma relação com uma mulher russa, vai fazer uma grande viagem, de Moscovo a Murmansk, para ver umas gravuras antigas inscritas na pedra. Chamam-se ‘petróglifos’. A questão das palavras e da linguagem vai ser importante. Ela não devia fazer aquela viagem de 1500 quilómetros sozinha, mas é o que vai acontecer, porque a sua companheira não esteve disposta a ir.

Quando chega ao comboio e entra no Compartimento nº 6, o seu lugar para fazer aquela longa viagem, as coisas complicam-se. No mesmo compartimento, já de si sempre pequeno e a obrigar as pessoas a uma grande proximidade, mesmo que não o desejem, viaja um homem russo – Ljhoa – que parece ocupar e tomar conta do espaço todo. Não começa nada bem a convivência inevitável. Ela vai mesmo procurar trocar de lugar, mas não consegue. Tem de aguentar e ficar ali. O seu desconforto aumenta diante de um homem que come e bebe e fala com modos muito brutos, demasiado intrusivo, grosseiro e machista. Também ele parece estar de mal com a vida.

A câmara, dada a estreiteza do espaço, está naturalmente colocada ‘em cima’ das personagens, mostrando-nos toda a tensão que se estabelece entre eles, só aliviada quando algum deles sai para o corredor e para o restaurante, ou a câmara ‘sai’ pela janela, para nos mostrar uma paisagem fria, nebulosa, com neve a cair.

Logo na primeira paragem, em São Petersburgo, Laura ainda tenta voltar para trás, mas do outro lado do telefone percebe que já não é desejada. É um momento decisivo. Ela vai continuar. Vai deixar para trás a sua infelicidade e abraçar o momento. E vai começar a olhar de modo diferente para o seu companheiro de compartimento. E para a sua vida. Vai descobrir, pouco a pouco e em alguns momentos muito belos – por exemplo, a visita que fazem a uma estranha e sábia amiga de Ljoha – como aquele ar e atitude agressivos dele escondem, afinal, uma imensa ternura e uma grande capacidade de ajudar.

De facto, quando ela chega à última paragem do comboio, Murmansk, ainda falta o mais difícil para conseguir chegar aos tais petróglifos. Vai revelar-se uma missão impossível, ninguém está disposto a levá-la lá naquela altura do ano. E vai ser precisamente Ljoha, para quem não há impossíveis, tal é a sua generosidade e inconsciência, que vai conseguir que ela cumpra o seu desejo. Lá chegados, ele fica sentado, a ver o olhar dela. Mas é aí que acontecerá o momento de viragem: os dois a brincar como crianças na neve e sentados na sucata de um barco velho a falar do Titanic.

O filme é essa lenta revelação de um ao outro e dos dois a quem, de fora, acompanha a viagem interior e exterior que corre à nossa frente.

Verdadeiramente e apesar de tanta proximidade, nada ‘acontece’ entre eles, não se trata de um filme romântico. A distância mantém-se, com algum desconforto ainda, mas eles já não são os mesmos. Já depois da despedida, ele vai fazer-lhe chegar, nas costas do retrato que ela lhe tinha pedido para desenhar, a ‘frase mágica’, em finlandês. Ele está a dizer que a ama, ainda que a frase signifique uma coisa completamente diferente. Ela tinha-o enganado na tradução, mas ela sabe perfeitamente o que ele está a dizer-lhe.

Para quem, como eu, ainda fez algumas longas viagens de comboio, lugar de encontros e desencontros, este é um filme apaixonante. Um belo filme sobre a vulnerabilidade que se esconde na força mais bruta, no rosto mais duro, na paisagem mais agreste, na mais longa viagem ao interior do outro. É um filme, afinal, de grande humanidade e simplicidade sobre a procura e as contradições que cada um esconde mas tem de enfrentar.

 

Compartimento nº 6, de Juho Kuosmanen
Título original: Hytti nro 6 (Adaptação do romance homónimo de Rosa Liksom, o filme foi Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes 2021)
Com Yuriy Borisov, Seidi Haarla, Dinara Drukarova, Yuliya Aug
Rússia/Finlândia/Alemanha/Estónia,
Drama, 2021Cores, 107 min.

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar). Este texto foi inicialmente publicado na edição de Fevereiro da revista Mensageiro de Santo António.

 

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