“Uma Vida à sua Frente” – Amizade Social

| 8 Dez 20

Sophia Loren, numa das cenas de Uma Vida à Sua Frente.

 

Quando sugeri a amigos e conhecidos que vissem na Netflix o filme/documentário do grande realizador Wim Wenders Francisco, um Homem deste Mundo, sugeri-lhes que prestassem atenção, já que Francisco tinha um “olhar de Deus”, nomeadamente quando aparecia em primeiro plano, olhando de frente para o entrevistador.

Francisco é um homem deste mundo, sem dúvida, o Espírito Santo o habita no aqui e agora, enquanto vai desenvolvendo a missão para que Deus o destinou: demonstra coragem, bondade, determinação, profunda espiritualidade e humanidade, conhecimento científico e ético dos grandes desafios que se colocam ao mundo de hoje e, não menos importante, criatividade e sentido de humor. Sempre tem demonstrado ser um Papa que se faz perto de nós.

O conceito de “amizade social” da sua encíclica Fratelli Tutti (FT) tocou-me profundamente. Apesar de já ter pensado e escrito inúmeras vezes sobre questões de justiça e das desigualdades sociais, da pobreza, do não-paternalismo/maternalismo quando exercemos a caridade, do respeito pela criação, etc. – tomar consciência de que tudo isto se pode formular em termos de amizade social, inspira-me e faz-me querer estar ainda mais comprometida. Afirma o nº 99 da encíclica que “amizade social é o amor que se estende para além das fronteiras” que corresponde a “um coração aberto ao mundo inteiro” (título do cap. IV), “o reconhecimento de quanto vale um ser humano, sempre e em qualquer circunstância” (nº 106).

Foi neste contexto que vi há dias (também na Netflix) o filme de Edoardo Ponti, Uma Vida à sua Frente (Momo, no seu título original…), baseado no romance de Roman Gary (pseudónimo Émile Ajar), prémio Goncourt 1975, mas realizado num contexto bem diferente da narrativa inicial: o filme passa-se numa cidade do sul de Itália, Bari, na província da Apúlia, junto ao mar Adriático.

Em termos gerais, relata a relação progressivamente mais forte de uma mulher judia – que havia passado pelo Holocausto – com uma criança oriunda de África. Uma octogenária Sophia Loren é sublime na sua interpretação de uma velha prostituta que acolhe em sua casa os filhos de prostitutas mais jovens, ajudando-as e contribuindo para o bem-estar e educação das crianças. Rosa aparece como uma “estrela no meio da escuridão” (FT nº 222).

Sem ser uma obra-prima cinematográfica, este filme ilustra de forma muito clara aquilo que me parece ser o conceito de amizade social introduzido pelo Papa Francisco. Rosa, antiga prostituta que desenvolve “uma cultura da amabilidade” no seu bairro (FT, nº 222), encontrou o sentido da sua vida atormentada pelas memórias da Shoah no cuidado desvelado por crianças, filhas de prostitutas, uma delas filha de uma transexual, Abril Zamora (de origem hispânica), outra filha de uma emigrante hebraica não legalizada e que não pode frequentar a escola. A estas crianças junta-se Momo, um rapazinho de origem nigeriana, cuja mãe tinha morrido muito cedo, ficando a criança abandonada à sua sorte.

Muito competente nas artes da simples sobrevivência, Momo, de 12 anos (magnificamente interpretado por Ibrahima Gueye), muçulmano, é especialista na arte do roubo, da simulação e manipulação, do tráfico de droga na rua e na sua própria escola. Esta criança é entregue a Rosa por um médico amigo (um médico que trabalhava com os pobres e para os pobres, uma espécie de “bom samaritano” (cap. II, FT) que já não tinha meios de supervisionar aquela criança difícil e revoltada, desesperando de o “educar” e lhe proporcionar uma vida melhor.

A amizade maternal entre Rosa (a quem todos chamam Madame) e a criança evolui, ao longo do filme, entre fuga e provocação, ciúme das outras crianças coabitando em casa de Rosa, e revolta, para uma interação cada vez mais sólida a ponto de, a meu ver, no final do filme, Momo se tornar na “figura maternal”.  Cuida da Madame até à sua morte – uma Rosa bem diminuída física e mentalmente –, garantindo que ela não morresse confinada a um quarto de hospital (era esse o seu desejo…), servindo-se das suas artes de dissimulação para a “roubar” da enfermaria onde estava internada, levando-a para a cave da casa onde ela se refugiava nas suas memórias do Holocausto, nas coisas belas que ainda possuía (um postal antigo da propriedade onde vivera com a sua família mostrando umas magníficas mimosas). Momo tornara-se exímio na arte de cuidar, garantindo a Rosa a morte que ela desejava. A relação entre os dois ilustra, de forma sublime, o que é uma “amizade social”. O encontro de Rosa com Momo é “epifânico” (James Joyce) porque, decisivamente, transformou a vida dos dois.

Num tempo que valoriza a juventude qual “bezerro de ouro” e esquece e maltrata os velhos, é sublime ver atuar uma grande atriz que não tem receio de se apresentar nas rugas da sua velhice e nas marcas que o tempo e o sofrimento fizeram nela. Tem a experiência de ter sido uma criança “descartada”, nas palavras do Papa Francisco.

Pelo caminho de Momo cruzam-se ainda figuras que ilustram bem esta “amizade social”. São, tal como Rosa, uma espécie de “poetas sociais” (FT, nº 169). O velho médico que quer tirar Momo da rua e que não tem condições para o acompanhar, mas por quem manifesta uma profunda ternura (“sentido social da existência”, segundo FT, nº 86). Um árabe dono de uma tabacaria (na parte da frente da loja) e onde funciona, nas traseiras, uma inesperada e lindíssima oficina de restauro de tapetes e de peças de arte. Durante algum tempo Momo é ajudante no processo de restaurar tapetes, recebendo do seu mentor um sentido do que é a história e a permanência de valores.

Quando Momo decide voltar à sua vida de rua, recebe do seu mentor a despedida: “Quando perderes o rumo, estou aqui”. A relação de Momo com um rapazinho hebreu que também habitava a casa de Rosa (a mãe prostituía-se porque era imigrante ilegal e não podia sequer enviar o filho à escola), uma relação que passa da agressividade ciumenta e prepotente (porque Momo era mais velho) a uma amizade cúmplice, em que os dois se implicam no cuidado de uma criança bem mais pequenina, filha da transexual. Estas crianças não “perde[ram] o gosto da fraternidade” (FT, n. 33).

Existe ainda uma figura aparentemente irrelevante no filme: trata-se de uma leoa de fantasia, mãe imaginária de Momo, uma espécie de figura transacional que o enche de carícias quando está mais carente – é comovente a cena em que Momo, meio a dormir meio acordado, se deixa “envolver” pelas “carícias” e brincadeiras da mãe-leoa. Madame Rosa aparece na parte final do filme como uma “leoa” bem maternal.

O filme Uma Vida à sua Frente procura “dar voz a tantos percursos de esperança” (FT, n. 54), frequentemente desconhecidos. A amizade social ultrapassa barreiras geracionais, culturais, económicas, de países ou de preconceitos mútuos. Vai para além de um conceito tradicional de família (de que família falará o filme?), de orientação sexual e de género, entre crianças vivendo realidades bem diversas e eventualmente opostas, de fantasia/sonho (a mãe-leoa). Ajuda a fazer “convergir todas as periferias rumo a um sentido pleno de mútua pertença” (FT, n. 95).

A amizade social entre os “descartados” revela-se em tudo isto: na forma como o amor e a solidariedade ultrapassam barreiras, na forma como se encara a solidariedade e o serviço aos outros: não há “caridadezinhas”, há gestos solidários que trazem sentido a vidas, muitas delas (a maior parte) trespassadas por feridas e privações. Há o “dar” como dom gratuito, sem esperar retorno e, se esse retorno vem, é saboreado como dádiva da vida, como riqueza não esperada, como paz que se semeou.

Lembro no filme o momento tão belo em que uma mão negra de menino agarra e acaricia a mão encarquilhada de alguém que está prestes a partir para sempre. Rosa, a Madame, ensinou Momo a viver aquilo que é a amizade social. Não é em vão que o filme se chama “Uma Vida à sua Frente”. Por isso, no momento final do filme, Momo coloca o postal das mimosas na campa de Rosa e… pisca o olho à leoa que, ao fundo, se vai afastando.

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