O livro e a personalidade de Bruto da Costa

Uma vida feita dom que nunca baixou os braços (documentos)

| 18 Out 2021

Decorreu neste domingo a apresentação do livro Que Fizeste do Teu Irmão? – Um olhar de fé sobre a pobreza no mundo, obra póstuma de Alfredo Bruto da Costa. A primeira leitura da obra do antigo ministro dos Assuntos Sociais e um dos criadores que levou à criação, há 25 anos, do atual Rendimento Social de Inserção, foi feita por Guilherme d’Oliveira Martins. Uma evocação do autor foi feita depois pelas filhas, Margarida e Madalena Bruto da Costa. Pela importância de ambos os textos, o 7MARGENS reprodu-los a seguir, com subtítulos da responsabilidade da Redação.

 

“Que Fizeste do Teu Irmão?”

(Intervenção de Guilherme de Oliveira Martins, de apresentação do livro de Alfredo Bruto da Costa)

Alfredo Bruto da Costa. Foto: Direitos reservados.

 

Que Fizeste do Teu Irmão? – Um Olhar de Fé sobre a pobreza do mundo de Alfredo Bruto da Costa (Cáritas, Forum Abel Varzim, 2020) constitui um testemunho fundamental do autor sobre o momentoso problema da pobreza.

Quando a engª Vera Bruto da Costa me mostrou o texto que o marido deixara incompleto, quando partiu, não tive dúvidas em dizer que se tratava de um documento precioso e original, sobre um tema que ocupou intensamente o autor. É um conjunto indispensável de temas, no qual se unem o rigor da análise e o alerta atualíssimo relativamente a uma situação dramática da pobreza na atualidade. Seguindo passo a passo o livro, começamos pela referência ao “maior equívoco da história da Humanidade”, a contradição entre a espera de um libertador e a recusa do mesmo, como vemos na atitude do Grande Inquisidor em Os Irmãos Karamazov, de Dostoievsky, a dizer a Jesus Cristo, regressado inesperadamente, que deveria desaparecer rapidamente por ser indesejado. É verdade que não era a pobreza o tema do grande equívoco, mas a partilha e a exigência do cuidado dos outros e da não indiferença, marcantes na essência da novidade cristã. E, refletindo sobre o Amor de Deus, o autor pergunta: “quem pode ousar falar do Amor de Deus”, realidade tão complexa e indefinível, não suscetível de simplificações humanas? E então a pobreza surge como exigência de disponibilidade, como obrigação de compreender o outro e de ter respostas.

Assim, os pobres de que fala a Bíblia são aqueles que o são no seu íntimo, como afirma a primeira Bem-Aventurança. É de disponibilidade que se fala, como scolè é a origem etimológica da palavra escola como lugar do ócio, enquanto disponibilidade plena para saber e compreender. Não há, contudo, não pode haver, elogio da pobreza sociológica. E lembre-se o que dizem os Atos dos Apóstolos relativamente à vida na comunidade cristã. “Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum.” Estamos perante a relação do ser humano com os bens materiais. Não está em causa o reconhecimento do direito de propriedade, mas a compreensão do princípio do destino universal dos bens da terra. E assim temos de compreender o sentido e o alcance do direito de uso e do direito de posse. Como afirma a encíclica Laborem Exercens de João Paulo II, “a propriedade adquire-se primeiro que tudo pelo trabalho e para servir ao trabalho”. Eis a importância do desapego ao material, para que dele não nos tornemos servos. A necessidade do outro, como outra metade de nós, para usar a expressão do padre Mateo Ricci, significa a possibilidade de ter resposta ao outro, não nos fechando sobre nós mesmos.

 

As disparidades agravam-se 
Pobreza, sem-abrigo, Lisboa, rua,

Pessoa sem-abrigo em Lisboa. Foto © Miguel Veiga

 

Contudo, a distribuição de bens da terra no mundo de hoje é cada vez mais desigual. As disparidades agravam-se. Em 1960 o rendimento dos 20 % mais ricos da população mundial era 30 vezes o rendimento dos 20 % mais pobres. Mas no ano 2000 essa relação passara a 75 vezes. Por outro lado, “as desigualdades no domínio das capacidades avançadas estão a agravar-se. Por exemplo, apesar dos desafios no tocante aos dados, as estimativas apontam para ganhos ao nível da esperança média de vida aos 70 anos, entre 1995 e 2015, dez vezes superiores nos países com um nível muito elevado de desenvolvimento humano, em relação aos países com um baixo nível de desenvolvimento humano. Existem elementos que demonstram a presença do mesmo padrão de divergência num vasto leque de capacidades avançadas. De facto, as divergências no acesso a um conhecimento mais avançado e à tecnologia são ainda mais vincadas” (p. 107).

Daí a exigência, para Alfredo Bruto da Costa, de uma leitura evangélica da pobreza no mundo. A noção de cidadania mundial, de que falou o Papa João Paulo II e de que fala o Papa Francisco, vem reforçar a urgência de alargarmos o horizonte do nosso pensamento para além das fronteiras nacionais. Trata-se de assumir o princípio da subsidiariedade, que significa, a um tempo, tratar e solucionar os problemas o mais próximo possível das pessoas, mas sempre a um nível adequado. O pensamento “glocal” é a um tempo global e local, centrífugo e centrípeto. Se as questões do ambiente ou das pandemias, do aquecimento global ou da cultura da paz têm de ser tratadas acima das fronteiras nacionais, as opções ligadas à organização local ou aos cuidados das pessoas concretas têm de ter dimensão local e comunitária. Como lembra Bruto da Costa: “a globalização é demasiado importante para ser deixada ingovernada, como acontece presentemente, porque tem capacidade de fazer extraordinário mal como bem”. Exige-se, assim, coesão social, sustentabilidade cultural, económica, social e ambiental, conhecimento e aprendizagem.

 

Libertar os pobres de hoje
Pobreza. Covid-19

Uma mulher sem abrigo. Foto © Russ Allison Loar/Wikimedia Commons

 

O que é libertar os pobres de hoje? É combater e resolver a privação (fome, sede, nudez, falta de abrigo) e a falta de recursos, de modo a garantir autosuficiência, autonomia e defesa do bem comum. “A definição de pobreza que adoptámos (diz ABC) conduz-nos a duas conclusões da maior relevância teórica e prática. A primeira reside no facto de ser possível resolver a privação, sem resolver a pobreza. Para tanto, basta que o pobre tenha acesso aos bens e serviços básicos por via de apoios extraordinários (por exemplo, o acesso aos alimentos do Banco Alimentar, a algum ‘roupeiro’ gratuito, a uma residência social para indivíduos e famílias sem habitação, etc.). Apoios deste tipo têm duas características importantes: resolvem a privação, mas mantêm o pobre numa situação de dependência. Isto acontece porque, apesar de sair da privação, o pobre continua sem os recursos necessários para satisfazer as necessidades básicas como o comum dos cidadãos. Matar a fome, sendo indispensável, não conduz, só por si, à autonomia. Daí a segunda conclusão, a de que a pobreza só é vencida quando o pobre sai da situação de privação por seus próprios meios… Por outras palavras o pobre só vence a pobreza quando já não precisa de recorrer a medidas e políticas de luta contra a pobreza” (p. 131).

O que fazer? Agir em vários tabuleiros: na igualdade de oportunidades, na correção das desigualdades, na justiça distributiva, na equidade integeracional, no desenvolvimento sustentável. Não é por acaso que o primeiro dos objetivos das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável é a erradicação da pobreza. Partindo do destino universal dos bens da terra e da exigência de sobriedade, o combate à pobreza obriga a haver metas claras e uma definição de meios que nos permitam superar as condicionantes que nos afetam, sobretudo depois da pandemia, que agravou as disparidades e tornou mais difíceis os objetivos anteriormente definidos. E Alfredo Bruto da Costa deixou-nos o desafio de não baixarmos os braços nesse caminho no sentido da cidadania e da dignidade da pessoa humana.

 

 

Uma vida feita dom

(Evocação de Alfredo Bruto da Costa pelas filhas, Madalena e Margarida Bruto da Costa)

Margarida (à esquerda) e Madalena (dirª), com a mãe, vera, ao centro, depois de receberem a Ordem da Liberdade entregue postumamente a Alfredo Bruto da Costa. Foto © Cáritas Portuguesa.

 

É com o coração cheio de alegria, um sentimento de grande privilégio, e com uma enorme gratidão que proferimos estas palavras.

No início de maio de 2020 a dra. Eduarda Ribeiro e o António Silva Soares, como membros da Comissão Nacional Justiça e Paz, contactaram-nos, pois a Cáritas Portuguesa e o Fórum Abel Varzim propunham apoiar a publicação de um texto do nosso Pai.

Havia este texto praticamente terminado – no qual ele terá indo trabalhando ao longo de alguns anos, possivelmente entre os anos 2009 e 2013.

No primeiro capítulo intitulado “À guisa de justificação” ele explica:

“Não é sem alguma hesitação que decido publicar este texto. Sou um cristão comum, que como os demais cristãos comuns, vive no meio do mundo. Cursei engenharia, tenho trabalhado em assuntos económicos e sociais, tenho exercido alguma docência universitária e investigado sobretudo em domínios relacionados com a pobreza”.

E um pouco mais à frente diz:

No que fica dito, encontrará o leitor uma ideia aproximada do que me levou a admitir que o facto de ter passado por essa experiência profissional diversificada suscite um certo sentimento de dever de registar a reflexão que tive a oportunidade de realizar e que no desenvolvimento deste livro tive de aprofundar.”

O nosso Pai sempre sentiu uma necessidade de não calar sobre os temas que o preocupavam a sério. Fazia-o com muita naturalidade e entusiasmo.

A reação da Dra. Eduarda Ribeiro depois de uma primeira leitura foi muito carinhosa: “Parece que estou a ouvir o pai a falar!”.

O eng. António Lage Raposo assistido pela D. Luísa Correia convocou um grupo de trabalho que se dedicou entre julho e outubro de 2020 a este projeto.

Cada detalhe foi preparado com um enorme carinho e amizade pelo nosso pai, incluindo os pedidos enviados ao cardeal José Tolentino de Mendonça e ao engenheiro António Guterres para a redação dos prefácios.

À família foram pedidas duas contribuições:

– o posfácio e

– a biografia do nosso pai, que foi redigida pelo nosso amigo dr. Adelino Rodrigues da Costa.

No posfácio tentámos descrever o nosso Pai nas suas diferentes facetas que enriquecem as vidas de cada um de nós, esposa, filhas e netos. Somos privilegiados!

 

Homem feliz, olhar vivo, sorriso aberto

Diz-nos o poeta e nosso amigo D. Tolentino Mendonça, perante a interpelação Qual será o meu legado?, o seguinte:

“Não há maior legado do que o de uma vida feita dom; e quando isso acontece a vida revela-se no que tem de fundo e flagrante, de grácil e arrebatador, de esperançoso e possível. Não há maior legado do que transmitir uma dessas centelhas, quaisquer que elas sejam, onde o infinito reluza. (…) um fragmento de infinito é a única coisa sem preço que nos pode ligar para lá do espaço e do tempo”. (in O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas)

Não há maior legado do que a vida feita dom. O nosso Pai viveu a vida como dom. É assim que o lembramos.

Recordamos desde cedo um homem feliz, olhar vivo, sorriso aberto. A casa onde vivemos sempre foi uma casa sem paredes. Mobilada ao pormenor pelos seus grandes amigos, Bárbara e Filipe, prepararam cada detalhe para que fosse uma casa acolhedora, simples, onde todos pudessem entrar e sentir-se bem. E assim, aconteceu. Inúmeros encontros onde se construía a amizade, entre conhecidos e menos conhecidos, regados com boas iguarias preparadas pela nossa Mãe e serões animados por violas e violinos até as tantas. Deixa-nos a semente da simplicidade desconcertante, da casa de braços abertos, da alegria do encontro.

Recordamos um colo seguro, não só relativamente às nossas vidas, mas em relação à humanidade. Fragmento de luz, sinal de esperança, certeza de que vale a pena nos empenharmos na construção de um mundo mais justo e mais fraterno. Lembramos tantas conversas, na nossa juventude, com o nosso grupo de amigos, em que o nosso Pai nos apresentava com entusiasmo os fundamentos da Doutrina Social da Igreja e outros documentos de referência. Falava-nos sobre o destino universal dos bens e as suas implicações profundas na organização da sociedade, mas também nas opções de vida de cada um.  Deixa-nos a semente para que germinasse em nós o desejo de ir ao encontro do outro, principalmente dos mais frágeis, e o empenho em construir a “forma justa” de que nos fala tão bem Sophia de Mello Breyner.

 

Um avô apaixonado 

Alfredo Bruto da Costa com a mulher, filhas, genros e netos. Foto: Direitos reservados.

 

Recordamos um avô apaixonado. Era cativante a forma como se deixava interpelar pela infância e o amor que pudemos testemunhar por cada um dos seus cinco netos. Passava o tempo a contemplá-los acordados ou a dormir, e era surpreendente a forma como chegava até eles. Nos primeiros meses deitava-se no chão para brincar, mais tarde acompanhava a par e passo as suas conquistas, os primeiros amigos, as suas peripécias aqui em Lisboa e em Dusseldorf. Sempre tiveram o privilégio de conversar muito com o Avô. Deliciavam-se a ouvir as suas histórias, anedotas, experiências, opiniões que os punham a pensar. Deixa-lhes a semente “do grande que se faz pequeno” para chegar ao outro.

Recordamos um homem de fé, um profeta, um homem livre, uma voz incansável na luta contra a pobreza e a injustiça social e na defesa dos direitos dos mais pobres e dos excluídos. Lutava por um presente e por um futuro mais justos e mais transparentes com enorme fidelidade e firmeza. Viveu sempre uma simplicidade interpeladora e uma coerência desconcertante e encantadora. Deixa-nos a todos as sementes do seu pensamento, da coerência de vida, da sua voz inconformada que nos convida a ampliar o nosso olhar e alargar a nossa tenda.

Não há maior legado do que transmitir uma dessas centelhas, quaisquer que elas sejam, onde o infinito reluza. (…) um fragmento de infinito é a única coisa sem preço que nos pode ligar para lá do espaço e do tempo”.

 

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