Uma vida muito confortável

| 2 Abr 2024

“É desesperante constatar que, em 2024, os portugueses têm horror à liberdade. Não sei se a odiamos, se a tememos ou se rejeitamos visceralmente a imensa responsabilidade e o confronto consigo próprio que a liberdade individual necessariamente implica.” Foto: Carcavelos © Marta Saraiva

 

Um exercício do direito fundamental à asneira, o mais sagrado dos direitos não inscritos na Constituição, precisa sempre de uns pontos prévios, a saber: (i) não pretendo convencer seja quem for de que tenho razão e,  por favor, apontem-me os disparates (ii) não quero fazer futurologia ou “análise” política, deixo esse divertimento supimpa e inútil para os grupos de whatsapp iii) a quem, e se alguém, se sentir ofendido, digo apenas que é da sua única e exclusiva responsabilidade enquanto adulto funcional lidar com esse sentimento, não minha.

Talvez asneire sobre as eleições, os resultados das eleições ou as reacções a esses resultados. Talvez divague, ventile ou ressaque muito ao retardatário. Não escolhi ser portuguesa, e vejo nos desbragados ódios, orgulhos e lealdades nacionais inúteis coreografias de medo. Seria, no entanto, ingénuo até à idiotia negar que o sítio onde nascemos nos molda, e é demasiado evidente quanto o estado actual desse sítio nos prejudica a todos. Ou o quanto nos prejudicamos colectivamente.

Dir-se-ia que os portugueses hoje acreditam no Estado e na Política como os meus trisavós acreditavam em Deus e em Nossa Senhora. É fascinante, para um país tantas vezes criticado pelo fraco envolvimento político dos seus cidadãos. Não há globalização, guerra, integração europeia, ou variações das taxas de juro que nos abale a crença. Muito menos o acaso ou a desordem. O mundo explica-se por aquilo que o Governo faz e dá, e por aquilo que se não faz ou dá, devia. Sei bem que todos temos de fazer o nosso regateio, que as campanhas têm muito folclore, e que os debates foram pouco substantivos. Ainda assim, surpreendeu-me e divertiu-me a indignação de “nem se falou ontem da falta de diversidade das cores das meias que se usam em Portugal” ou “É inacreditável a ausência de propostas no programa de Governo para uma Estratégia Nacional para a preservação das Asas de Borboleta”. Tem imensa graça, parece que a melhor demonstração de empenho e preocupação sobre seja o que for em Portugal é apontar falhas à actuação do Governo e, obviamente, seríamos todos tão melhores se o Governo fizesse tudo o que devia fazer e não faz. Ao mesmo tempo, parece que todo e qualquer movimento privado precisa do selinho público – seja o beneplácito do PR ou de um Senhor Ministro –  para mostrar ao mundo que é medianamente sério, o que talvez faça sentido dada a nossa paranóia regulatória e a obsessão freudiana com rótulos e certificações. Aliás, o supremo acto de rebeldia político-partidária em Portugal seria responder muito placidamente à indignação de turno “O nosso programa de Governo não apresenta qualquer proposta relativamente a essa matéria, por considerarmos que é uma área cuja responsabilidade repousa nos cidadãos, nas comunidades locais e no poder local.”

Sem sarcasmo, duvido seriamente que tenhamos real consciência da profundidade da intrusão do Estado e do sector público na sociedade portuguesa e na vida de cada um, e do quanto isso contribui para a anomia colectiva. No princípio, é mesmo o Estado Português. Não é o Homem, muito menos o Verbo, de quem já quase ninguém se lembra.

É desesperante constatar que, em 2024, os portugueses têm horror à liberdade. Não sei se a odiamos, se a tememos ou se rejeitamos visceralmente a imensa responsabilidade e o confronto consigo próprio que a liberdade individual necessariamente implica. Há, tem de haver, eu preciso que haja uma explicação metafísica ou literária para o fenómeno, mas que lhe temos colectivamente horror, isso temos.

É extraordinário. Do que fui apanhando no discurso público nestas semanas, do que fui lendo nos jornais, e até da simples conversa de rua que oiço à descarada, há quem queira Governos inspiradores, que dêem o exemplo, e que nos façam sonhar, que tenham a felicidade das pessoas como prioridade… também há os que só querem estar na sua, o que é compreensível. Para além desta ideia de um Governo guardião do recreio, parece – e ênfase no parece – estar a instalar-se uma outra muito mais perniciosa e difícil de reverter.

Parece ser cada vez mais consensual em Portugal que o espaço da liberdade individual existe se, quando e como definido pelo poder político, e pelo omnipresente Estado. E que precisa dessa intervenção estadual para ser reconhecido e para existir. Parece também ser consensual que é isso que exigimos colectivamente ao Estado e ao poder político, que nos digam o que podemos ou não fazer, para que possamos existir seguros, quentinhos e confortáveis, sem que nada nos atormente. Parece ainda que todas as áreas a salvo da intervenção pública são perigosas terras de ninguém, que aguardam ansiosamente o regresso paternal.

O país em que a pessoa antecede o Estado e o limita, em que as pessoas se organizam segundo interesses comuns, e em que o Estado tem de justificar as restrições à liberdade e aos direitos fundamentais dos seus cidadãos, é cada vez mais uma miragem. Os tempos e o delirium tremens regulatório da UE não ajudam, mas estão longe de explicar tudo. Para os crentes na liberdade e na pluralidade de ideias, o cenário é desolador.

Escavada toda a excitação de turno, vai ficando a descoberto uma sociedade infantil, que deseja ardentemente a servidão inconsciente de uma vida muito confortável, em vez de assumir o risco de ser co-autor da sua vida, rezando até à neurastenia o velhinho mantra “as coisas são o que são”. Dito de outra forma, assumir o risco de crescer. Infelizmente, e seria obtusa se o ignorasse, há uma fatia cada vez maior de nós que não tem escolha, nem tempo mental para decidir que país quer, e que vida quer para si e para os seus. E uma outra fatia que, tendo todos ou nenhum, escolhe sair.

Talvez os resultados das eleições não sejam tão surpreendentes ou relevantes assim. E talvez não seja assim tão asneira aventar que é muito mais urgente cada um de nós repensar-se na relação que tem e quer ter com a Política do que escandalizar-se em autópsias eleitorais. Não gosto do tom levemente pessimista que acabou por me invadir, mas não creio que a positividade tóxica autoimposta ajude seja no que for. Há de passar.

 

Marta Saraiva é diplomata.

 

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