Ungir de antemão

| 25 Mar 2024

[domingo de ramos na paixão do Senhor – b – 2024]

Planta. Domingo de Ramos. Joaquim Félix

[do jardim tão secreto / abre portas ó nuvem ― / vem ungir de antemão © Joaquim Félix]

 

1. Estes dias de sol com altas poeiras do norte de África
não anulam a nuvem envolvente que nos cuida.
Caminhando ainda em deserto quaresmal,
sentimos que a paisagem à volta dos olhos nos faz sorrir.
É algo que me faz reler um azulejo, manuscrito a azul
pela mão do poeta italiano Tonino Guerra,
por ele oferecido, há anos, na sua casa em Pennabilli:
«O ar é aquela coisa leve
que gira à volta da tua cabeça
e se torna mais clara quando ris».
A nuvem outra, já veremos qual será, alegra-nos.
Por nada gostaria que ela fosse desvalorizada.

2. Entramos na Semana Santa com temperaturas anormais
― na sexta-feira passada, vi o mostrador de uma farmácia,
junto ao Jardim da Senhora A Branca, a marcar 32 Cº.
Porém, dentro de dias, isto é, na próxima terça e na quarta-feira,
pode inclusive nevar a uma cota de 600 metros de altitude.
Nem dá para acreditar na prevista mudança meteorológica.
Seja como for, saliento esta alteração climática
porque ela nos pode servir de parábola para a liturgia deste dia.

Planta. Domingo de Ramos. Joaquim Félix

«Domingo de Ramos na Paixão do Senhor». Foto © Joaquim Félix

 

3. Hoje celebramos o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.
Trata-se de uma liturgia híbrida, misturada digamos assim,
porque a primeira parte, a procissão dos ramos,
é uma tradição da Igreja de Jerusalém,
e a segunda, relativa à Paixão do Senhor, é da liturgia de Roma.
É bom saber disto, para não atropelar os sentimentos da fé.

4. Em Jerusalém, no domingo de abertura da Semana Santa,
depois de se celebrar a eucaristia pela manhã,
fazia-se a procissão dos ramos, de estação em estação,
desde as treze horas até ao final da tarde,
quando se acendiam as lâmpadas, no designado ‘lucernário’.
Impressiona a forma como uma mulher, de nome Egéria,
― que, provavelmente, seria da Galécia ―,
descreve esta longa e demorada procissão,
no seu Diário de Viagem a Jerusalém entre os anos 381 e 384.
Às treze horas, juntamente com o Bispo,
todos subiam ao monte das Oliveiras,
e, desde aí, ao lugar onde Jesus subiu aos Céus.
Liam e cantavam antífonas e hinos apropriados ao lugar e ao dia.

5.  Aproximando-se as quinze horas, relata Egéria,
«lê-se aquele passo do Evangelho
onde as crianças vieram ao encontro do Senhor
com ramos e palmas, dizendo:
Bendito O que vem em nome do Senhor».
Dali subiam ao alto do Monte das Oliveiras,
com hinos e antífonas nos lábios, repetindo como as crianças.
Já agora, leio o que Egéria anota acerca das crianças
― porque, como mulher, estava atenta a certos detalhes ―:
«E todas as crianças destes lugares,
mesmo aquelas que não podem caminhar,
porque são muito pequenas, e que os seus pais levam ao colo,
todas trazem ramos, uns de palmeiras, outros de oliveiras;
e assim acompanham o bispo, do mesmo modo que, então,
o Senhor foi acompanhado».

Planta. Domingo de Ramos. Joaquim Félix. Ramo Palmeira

«Todas trazem ramos, uns de palmeiras, outros de oliveiras». Foto © Joaquim Félix

 

Da sua descrição pressente-se até o ritmo do caminhar:
«Do cimo do monte até à cidade e dali até à Anástasis,
atravessando toda a cidade, toda a gente faz todo o caminho a pé,
mesmo as senhoras e os notáveis;
assim acompanham o bispo, cantando, e vai-se lentamente, lentamente,
para que o povo não se fatigue».
De seguida, e porque já se ia fazendo tarde,
faziam o lucernário (acender das lâmpadas),
e despedia-se o povo, após uma oração junto à cruz.

6. Também nós fizemos sobriamente a procissão dos ramos,
com a proclamação do Evangelho referido por Egéria.
De manhã, porém, juntamente com o arcebispo e o bispo auxiliar,
observámos o mesmo cantando as antífonas e os hinos apropriados,
desde esta igreja até à abertura das portas da catedral.
Que alegria a nossa, devo confessar-vos,
com a porta da Sé abrindo-se, depois das três pancadas com a cruz!
Efetivamente, ela é a chave que abre as portas fechadas
e inaugura, na alegria, a hospitalidade do Humilde.
Do seu cimo, Ele alteia os pórticos antigos (cf Sl 24) à liberdade.
Hoje é o dia em que, na alegria e só na alegria ― repitamo-lo ―,
se abrem as portas de Jerusalém ao Messias incarnado, Jesus, o Cristo,
montado sobre o jumentinho, que antes estava preso junto a uma porta.

7. A proclamação do longo relato da Paixão,
este ano a partir do Evangelho segundo S. Marcos (Mc 14,1-15,47),
pode esmaecer o tom da exuberante entrada de Jesus em Jerusalém.
Porque em anos anteriores me devotei a explorar todas as leituras,
hoje gostaria de acentuar uma «palavra de alento» (Is 50,4),
gerada na alegria do Senhor, transbordante e abridor de portas.
Acentuo a alegria, não por irresponsável ingenuidade,
mas porque, infelizmente, não faltam motivos para andarmos abatidos,
com o alastrar de guerras e atentados, como o de ontem em Moscovo.
E podeis crer que fiz esforço por me concentrar nela, na alegria.
Refiro isto, porque, à hora que cuidava destas palavras,
ouvia a banda de música numa ‘tonalidade-de-paixão’,
durante a ‘Procissão dos Passos’; tão pesarosamente, sim,
que nem as palmas ao pregador do ‘Sermão do Encontro’
me ajudavam a perseverar no júbilo da manhã deste domingo.
Aliás, o pensamento fugia-me para o que Alfredo Teixeira
partilhou neste Domingo de Ramos, isto é,
«um gesto musical entre a inquietude e a planura do silêncio»,
remetendo-me para excertos da «Missa Sylabica
& Seis gestos para uma liturgia sem palavras»:

 

8. Oh, sim, de gesto em gesto, salto para o Evangelho!
Oxalá o tenhamos escutado com ouvidos de discípulos,
a quem o Senhor abre todas as manhãs (cf Is 50,4).
De facto, nele, solta-se um generoso gesto feminino,
que, de modo profético, recapitula os mistérios deste dia.
Isso mesmo: o gesto da mulher, por sinal inominada.
Quebrando o vaso de alabastro, ela cria uma atmosfera
«com perfume de nardo puro de alto preço» (Mc 14,3),
a partir da cabeça ungida de Jesus.
Sabemos como Jesus louvou e protegeu tal mulher,
pois alguns estavam a importuná-la e a discutir o desperdício.
Jesus garante que ela fez «uma boa ação»,
sublinhando que «estava ao seu alcance» (Mc 14,6 e 8).
E quão longo era o seu alcance:
ungir de antemão o corpo de Jesus para a sepultura (cf Mc 14,8)!
Este gesto ficou para sempre agrafado ao Evangelho (cf. Mc 14,9).

9. Faremos nós o que está ao nosso alcance?
Estando agora à mesa, com Jesus sentado no meio de nós,
que podemos praticar de antemão, até para memória futura?
Agitemos a nossa alegria como os ramos de palmeiras e oliveiras,
que trazemos em nossas mãos, como gesto de júbilo perfumado.
Cuidemos da alegria, sim, ― e hoje é um dia favorável ―
porque quem dela não cuida poderá ficar refém da tristeza,
como um leproso incurável ou um enfermo dentro de casa.
Parafraseando o artigo de Manuel Pinto,
intitulado «Se queres a guerra, despreza a paz»,
poderíamos dizer: «Se queres a tristeza, despreza a alegria».
Tudo à nossa volta, canta e grita de alegria,
com as laranjeiras, as glicínias e demais árvores e plantas em floração.
Virão o frio e a chuva, como assim preveem,
e celebraremos a Paixão e Morte de Jesus, durante o tríduo Pascal,
meditando no mistério do seu despojamento e glorificação (cf Filip 2,6-11),
mas agora é a Hora-dos-gestos-de-antemão,
da alegria que Jesus nos dá como reverberação da notícia da sua Páscoa,
a fim de atravessarmos, com Ele e n’Ele, as portas da morte para a vida.

10. Que a atmosfera deste dia quente, tomando os nossos sentidos,
proporcione a saída da assombrada casa-das-tristezas
e nos faça caminhar pelo «Jardim secreto» (nome de filme),
que cura, olorosamente, as nossas alergias e vontades:

Sim, com a ajuda das crianças,
a quem lhes foi revelada a porta dos jardins-que-curam.
A nós não será um pisco-de-peito-ruivo a revelar o lugar da chave,
mas o Evangelho, que não abdica sequer das fragâncias do tempo,
nem dos gestos com que podemos perfumar o corpo de Jesus.

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais VERNA. Este texto corresponde à homilia de Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, 24 de março, proferida na  igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga. 

 

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