
Nurjaha Tarmahomed fundou a associação Noor’Fatima há dez anos, para distribuir alimentos às pessoas em situação de sem-abrigo na região de Lisboa. Foto: Direitos reservados
Tem origens indianas, nasceu em Moçambique e é muçulmana. Nurjaha Mahomed Tarmahomed, 64 anos, não festeja o Natal, mas está em Portugal há quase 50, tempo mais do que suficiente para saber o quão significativa é esta a celebração para a maioria das famílias. Por isso, na associação de solidariedade que fundou faz agora uma década, há uma missão importante a cumprir por esta altura: assegurar que as pessoas que semanalmente já são apoiadas (e outras mais que possam precisar) têm uma consoada com as iguarias típicas da época e alguns presentes para as crianças.
A iniciativa partiu de Nurjaha, mas surgiu do apelo de uma pessoa em situação de sem-abrigo, poucos dias antes do Natal de 2014. A então empresária tinha acabado de fundar a associação Noor’Fatima, para distribuir comida àqueles que viviam na rua na região de Lisboa. “Um deles veio ter comigo e disse-me: ‘no Natal, ficamos sozinhos… Não vai fazer o Natal para nós?”, conta ao 7MARGENS. “Então, fez-se luz no meu coração e fui falar com os voluntários… E muitos deles alinharam: os que, como eu, não festejam o Natal, os que festejam, os que não têm credos… porque o amor não tem cultura, nem religião”, explica.
Assim, além de distribuir refeições diariamente às pessoas em situação de sem-abrigo, a associação Noor’Fatima tem assegurado sempre, ao longo dos últimos dez anos, que essas pessoas tenham uma consoada. Com a ajuda de cerca de uma centena de voluntários, a iniciativa já teve lugar em diferentes espaços, desde uma rua fechada para esse efeito no bairro de Santos até à Mesquita Central de Lisboa, passando por um hotel ou por tendas no Martim Moniz.
Este ano, o modelo será diferente e pensado especialmente para o cada vez maior número de famílias que a associação tem também apoiado semanalmente, desde que a sua sede – cedida pela Fundação Islâmica de Palmela – passou a ser em Alfornelos e Nurjaha se apercebeu da situação de carência em que muitas delas viviam. Essas famílias poderão ir buscar as iguarias de Natal e os presentes à sede da associação, em Alfornelos, e fazer a consoada em sua casa. “Vamos oferecer tudo que uma mesa tradicional portuguesa tem e não só. Desde refeições prontas, bebidas, sobremesa, bolos típicos, chocolates, pão rústico e muito mais… Teremos também presentes para adultos e crianças”, detalha a mentora da iniciativa. Paralelamente, haverá equipas de voluntários da Noor’Fatima a distribuir alimentos às pessoas em situação de sem-abrigo quer na véspera, quer no dia de Natal.

Um grupo de voluntários prepara os cabazes de alimentos a distribuir às famílias carenciadas, no armazém da associação, na Pontinha. Foto: Direitos reservados
“Todas as semanas, temos cerca de 160 famílias que vêm buscar alimentos à sede da associação. São pessoas idosas, mais novas, grávidas, com crianças… Porque o seu vencimento não é suficiente para porem comida na mesa. E esse número tem vindo a aumentar… Inicialmente, pensámos em apoiar apenas famílias na zona de Alfornelos e Brandoa, e agora – palavra passa palavra – têm chegado pessoas de outras zonas também. Vamos ver até quando conseguimos ajudar”, confidencia Nurjaha ao 7MARGENS. No âmbito desta iniciativa de Natal, a instituição conta apoiar “300 a 400 famílias”.
Fundada como forma de homenagear a sua mãe, que se chamava Fátima e fazia da solidariedade um modo de vida, a associação “não tem credos, nem religião, nem raça… é baseada no amor incondicional e é esse amor que temos de passar porque somos todos filhos de Deus, somos todos criação de Deus”, assinala a ex-empresária, que agora se dedica a 100% à instituição.
O nome da associação pretende refletir isso mesmo: “Fátima” era o nome da mãe de Nurjaha, mas é também o nome da filha mais nova de Maomé, profeta do Islão, e em Portugal muito associado a Nossa Senhora. Já “noor” significa “luz”, palavra relevante nas diferentes religiões. Porque “a religião é feita por nós, seres humanos, mas todos devemos amar-nos uns aos outros, independentemente da religião”, defende. “E fazer com que o Natal, o Eid-al-Fitr, o Diwali e outras festas religiosas sejam festas de paz, de amor e de fraternidade. É assim que eu vejo e é isso que eu desejo ao mundo inteiro”, conclui.

Voluntários da Noor’Fatima preparam os presentes a entregar aos mais carenciados, dezembro de 2023. Foto: Direitos reservados
Não será certamente assim no mundo inteiro, nem em todas as festividades religiosas, mas pelo menos vai ser assim este Natal, em Alfornelos. A todas as famílias carenciadas que não tenham como pôr comida na mesa nem dar presentes às crianças, Nurjaha Tarmahomed deixa o convite: “Venham ter connosco, no Lago Ana de Castro Osório, número 3. Estamos preparados para vos acarinhar”.
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