Numa sociedade cada vez mais inquieta e dividida, a política assume-se como terreno fértil para promessas de transformação. No atual cenário político, cada vez mais polarizado, a fé cristã é convocada a assumir uma posição crítica e consciente. Em Portugal, o partido Chega apresenta-se como força disruptiva, prometendo restaurar a ordem, a autoridade e a identidade nacional. No entanto, essa proposta política levanta questões éticas e espirituais quando comparada com os valores das Bem-aventuranças – ensinamento de Jesus que há mais de dois mil anos aponta um caminho radicalmente diferente: o da felicidade que nasce da humildade, da misericórdia e da paz.
O Chega promove políticas que apelam à ordem e ao rigor: propõe medidas duras no combate à criminalidade, defende uma política migratória restritiva, pretende limitar os apoios sociais e exalta a soberania nacional. A retórica é inflamável, diria mesmo agressiva, construída numa lógica de “nós contra eles”, apelando à indignação e ao sentimento de “resgate da pátria”. Muitos dos seus apoiantes justificam este tom como necessário para restaurar os valores perdidos. Para alguns cristãos, esse discurso parece coincidir com a ideia de uma justiça meramente retributiva. Contudo, as Bem-aventuranças apresentam uma perspetiva quase oposta, vêm para subverter a lógica mundana, são uma ode à vulnerabilidade e à esperança. Jesus não exalta os fortes, mas os fracos. Fala da paz, da pobreza de espírito, da fome e sede de justiça, mas tudo numa perspetiva divina: a justiça que ultrapassa os tribunais terrenos.
– Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
-Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
– Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
– Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus…
Estas palavras não são apenas consolo para os marginalizados, são um chamamento a uma revolução interior, sugerindo que a verdadeira felicidade está em abrir mão do orgulho para acolher o outro — mesmo o estrangeiro, mesmo o inimigo — e confiar que a justiça de Deus se realiza através do amor.
Em tempos, na minha paróquia, num encontro de grupos de jovens alguém perguntou: quem tem fé não pode votar em qualquer partido político? Gerou-se a discussão e lá pelo meio alguém pergunta: “Se Jesus se candidatasse, de que partido seria? Não houve resposta unânime, mas valeu pela reflexão: Jesus nunca governou, transformou vidas. Não teve exército, venceu pelo amor. Não se sentou em tronos, lavou pés. E esta imagem vem contrastar com qualquer política baseada na exclusão, no medo ou na superioridade.
A fé cristã não exige perfeição política, mas exige coerência. Implica questionar se o discurso político que se apoia vem fomentar pontes ou erguer muros. Promove dignidade ou estigmatiza? Inspira compaixão ou incita ao rancor?
Votar é um exercício de liberdade democrática, mas a liberdade cristã é diferente: é liberdade para servir, para amar, para perdoar. No Evangelho, os estrangeiros não são ameaças — são samaritanos que nos ensinam o que é amar. Os presos não são descartados — são visitados como se fossem o próprio Cristo. Os pobres não são um problema do Estado — são presença de Deus entre nós e, por conseguinte, da responsabilidade de cada um. A ação política deve ser coerente com esta visão porque o cristão não vota apenas com a cabeça, vota por inteiro, em corpo, espírito e alma.
Posto isto, surge a inevitável pergunta: estarei eu a ser um bom cristão enquanto votante do Chega?
A resposta não se encerra num sim ou não, mas convida cada cristão a uma autoanálise honesta. Ser cristão é escolher, todos os dias, viver o Evangelho. Se o nosso voto é coerente com os valores de Cristo — com o amor, a justiça, a inclusão e a paz — então estamos no caminho certo. Mas se o voto reforça o oposto, talvez a nossa fé esteja a pedir-nos outra direção.
O voto é um ato livre, mas também é um ato ético. E para quem se afirma cristão, essa ética é moldada por um Carpinteiro que escolheu morrer por amor, não por poder. Que a pergunta fique a ecoar — não como acusação, mas como oportunidade de conversão.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










