Vagner Diniz e Helena Taliberti: “A vida é o bem mais precioso que temos”

| 17 Out 19

Helena Taliverti e Vagner Diniz com o secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas, Olav Fykse Tveit. Foto © Odair Pedroso Mateus/WCC

 

Helena Taliberti e Vagner Diniz ainda não esqueceram que perderam os dois filhos, uma nora e aquele que seria o seu primeiro neto na tragédia da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho (Minas Gerais, Brasil), no final de Janeiro. Mas agora, nesta viagem a Genebra, para procurar apoio do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e de outras organizações, querem sobretudo evitar que mais vidas se venham a perder por razões semelhantes às que provocaram o desastre de há nove meses.

O casal quer convencer os investidores que detêm a companhia mineira Vale, proprietária da mina e o maior produtor de ferro e níquel no mundo, no sentido de haver mais protecção laboral e ambiental. Mesmo com indemnizações, o pior é que nada trará os seus filhos de volta: “Os nossos corações estão partidos. As nossas vidas foram interrompidas. Não há futuro para nós, porque perdemos tudo. Agora, a razão para existirmos é tentar que não haja mais vidas perdidas novamente”, dizem, em entrevista ao serviço de notícias do CMI (Conselho Mundial de Igrejas). Afirmam que “a indústria do minério mata pessoas” e “compromete o ambiente”.

Uma memória ainda presente

No dia 25 de janeiro de 2019, a barragem da mina do Córrego do Feijão em Brumadinho (estado de Mina Gerais), colapsou, drenando um mar de lama que destruiu as casas e vegetação da região. O desastre causou 241 mortos, 30 desaparecidos e centenas de desalojados.

Entre as vítimas da tragédia, ficaram os filhos do casal (Luiz, 31 e Camila, 33), bem como a nora, que estava grávida de cinco meses daquele que seria o seu primeiro e único neto. Os familiares de Helena e Vagner, que estavam próximos da barragem quando ela rebentou, estavam a visitar um museu nas proximidades.

“Ainda procuramos um significado”, refere Vagner, falando com uma tristeza visível nos seus curtos silêncios entre as palavras. “Ainda estamos à procura de uma razão para o que aconteceu – e só sabemos que aconteceu porque havia falta de fiscalização da barragem, uma negligência por parte da empresa de mineração, e não queremos que esse tipo de coisa aconteça novamente. É por isso que estamos aqui. ”

Um plano para o futuro

Neste mês de outubro, Helena e Vagner, que pertencem à primeira igreja independente presbiteriana de São Paulo, deslocaram-se até Genebra com o intuito de procurar solidariedade junto ao CMI e de outras organizações mundiais, que estejam envolvidas em trabalho humanitário e em defender um trabalho mineiro que proteja as pessoas e o ambiente.

Durante a conversa, afirmaram que, apesar de terem perdido os seus familiares, isso não os impede de proteger outras vidas. Por essa razão decidiram criar o Instituto Camila e Luiz Taliberti (com o nome dos seus filhos), como uma forma de defender as vítimas e chamar a atenção sobre os riscos humanos e ambientais da indústria mineira.

“As suas vidas não podem ter sido tiradas em vão”, refere Vagner. “Nós não queremos que a morte dos nossos filhos tenha sido em vão. Vir aqui faz parte de juntar as pessoas, fazer contactos e pedir também ao CMI que divulgue a mensagem connosco e desenvolva a consciência [destes problemas] entre as igrejas.” E acrescenta: “Se queremos mudar o comportamento da indústria de mineração, se queremos respeitar os direitos humanos e o meio ambiente, temos que começar pelos investidores”.

A ganância corrompe a humanidade

Três dias depois da tragédia da barragem, o cardeal Cláudio Hummes, presidente da REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazónica), divulgou um comunicado em que lamentava o sucedido e alertava para as consequências da exploração mineira na região. Esta, sublinhava, “carece de regulação que deixe de sobrepor o lucro exorbitante das empresas mineiras ao preço do sacrifício humano e da depredação do meio ambiente com a consequente destruição da biodiversidade.”

Na mesma altura, numa carta pastoral publicada pelo Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano), denunciava-se a tendência de empresas mineiras usurparem terrenos de populações tradicionais da Amazónia, limitando o seu acesso a meios de subsistência e destruindo as suas culturas. Meses depois do sucedido, a 21 de maio, o Papa Francisco entregou a sua cruz peitoral às comunidades brasileiras do Brumadinho. A cruz ficou exposta no memorial construído pela arquidiocese de Belo Horizonte.

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