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Valdosende, a aldeia que “passou” de católica a metodista

| 26/09/2021

Valdosende. Igreja Metodista

Celebração dos 50 anos da Igreja Metodista: “Valdosende não precisava só do apoio espiritual: precisava de tudo, de saber ler e escrever, do carinho das pessoas e de infraestruturas básicas.” Foto: Direitos Reservados.

 

Uma história curiosa quando, há 50 anos, um numeroso grupo de jovens, metodistas, lusitanos, católico-romanos e ateus, a solicitação do pastor metodista Abel Lopes e sua esposa Arminda Lopes, os acompanhou em Valdosende (Terras de Bouro). As pessoas de Valdosende estavam divididas: o pároco católico-romano pretendia erguer um novo templo fora do lugar de Valdosende, o que fez, mas a grande maioria da população não estava de acordo.

Depois de várias tentativas para falar com o arcebispo de Braga, frustradas, dirigiram-se à igreja metodista da cidade a pedir apoio espiritual. Abel Lopes era o pastor dessa igreja e comprometeu-se imediatamente a ir a Valdosende e aí fazer os seus cultos metodistas. Deparou-se com uma situação dramática: Valdosende não precisava só do apoio espiritual: precisava de tudo, de saber ler e escrever, do carinho das pessoas e de infraestruturas básicas.

Foi por isso que a “Aldeia de Valdosende passou de católica a protestante”, segundo título da então revista Vida Mundial. Esses jovens movidos pelo espírito ecuménico lá foram nas férias abrir os caboucos da igreja metodista, ensinar a ler e escrever e ajudar em vários trabalhos, como reparação de casas e telhados das mesmas e construir amizades, que ainda hoje se mantêm.

Abel Lopes, apesar de ser metodista e focalizar toda a sua atuação na Igreja Metodista, tinha uma dimensão mais “católica” ao jeito do anglicanismo, o que se pode dizer passados que foram 50 anos. Por isso foram muitos os pastores convidados a celebrarem lá.

Abel Lopes conseguiu passar esta mensagem ecuménica e, porventura, colocar acima de tudo o bem das pessoas. Por isso essa “multidão” de jovens que “invadiram” Valdosende – e apesar da polícia política, sempre atenta – passou uma mensagem solidária à população, sem nunca entrar em “guerra” com o senhor padre que construiu a igreja nova noutro local e que seria a matriz.

Neste mês de setembro, comemora-se o 50.º aniversário da Igreja Metodista no local, embora os contactos iniciais tivessem sido concretizados ainda antes. As pessoas não passaram propriamente de “católicos” a “protestantes”; naquele tempo, quem entrasse nas suas casas veria muitos sinais e costumes “católicos”, mas passaram a viver mais livres, com mais consistência na sua fé em Jesus.

Abel Lopes compreendeu isso – teria sido mal interpretado pelas suas hierarquias de então? –, mas assumiu uma posição de respeito por todos, mesmo aqueles que continuaram “católicos” e percebeu que Valdosende “passou” para o metodismo, porque a população não foi ouvida pelos “católicos” da altura.

Ao lembrar Valdosende uma história me vem sempre à mente. Havia uma família que não havia “passado” para a Igreja Metodista, mas precisava de ajuda no telhado da sua casa. Colocada a questão, pensou-se que talvez fosse inconveniente, tendo em consideração das pessoas agora “metodistas” e que arrostaram com malquerenças, saber qual seria o parecer do juiz de paz, homem considerado de uma sabedoria ímpar. Colocada a questão, disse ele: “Mais vale fazer bem do que mal.” Palavras sábias numa altura daquelas. E arranjou-se o telhado.

A Igreja Metodista Portuguesa pode ter orgulho no seu trabalho ao nível social – muito também ajudado pelo estrangeiro, principalmente ao nível monetário –, com creche, lar da terceira idade, cooperativa, dentista e, claro, também o trabalho religioso.

Ao comemorar o 50.º aniversário da Igreja Metodista de Valdosende é bom que não esqueçamos os tempos de Abel Lopes e Arminda Lopes, suas três filhas e o contributo da “invasão” de jovens de todas as confissões que ali passaram muito do seu tempo.

Valdosende . Festa das Colheitas. Igreja Metodista

Festa das colheitas de 2019, na paróquia metodista de Valdosende: “As pessoas não passaram propriamente de ‘católicos’ a ‘protestantes’; naquele tempo, quem entrasse nas suas casas veria muitos sinais e costumes ‘católicos’, mas passaram a viver mais livres, com mais consistência na sua fé em Jesus.” Foto: Direitos Reservados.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.

 

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