Valores, religiosidade e idade secular

| 22 Nov 2022

 

A publicação de Valores e Religiosidade em Portugal – Comportamentos e Atitudes Geracionais (Afrontamento, 2022) do cónego Eduardo Duque constitui oportunidade para refletirmos sobre a necessidade de compreender a importância dos valores éticos e religiosos na sociedade contemporânea. Importa recordar o que Hermann Broch (1886-1951) afirmou sobre o “vazio de valores”, que afeta a sociedade contemporânea e os seus efeitos na fragilização comunitária. Por outro lado, Charles Taylor (1931) na sua análise sobre a Era Secular (2007) distingue três formas de secularização: a religião como questão privada e a sua ausência nos espaços públicos, o abandono das convicções e práticas religiosas e a ocorrência redutora de um humanismo antropocêntrico. Esta tripla dimensão leva a uma alteração na afirmação do fenómeno religioso, interna e externamente – centrando-se Taylor numa perspetiva intrarreligiosa. Neste sentido, a intensidade da secularização está ligada ao modo como a religião se manifesta na sociedade, sendo um fenómeno complexo.

Há, assim, novas condições para a afirmação das crenças e convicções religiosas, para a ocorrência de novas considerações e contextos religiosos, bem como para novos questionamentos morais e espirituais, muitas vezes contraditórios. Deste modo, importa dar ênfase a questões como o “contexto de compreensão”, a perceção da “plenitude” e o sentido da própria noção de “religião”. Neste último termo, temos de recordar a dupla etimologia da palavra: como elemento de ligação (religare), essencial à coesão, por contraponto ao “vazio”, de que fala Broch, ou ao “egoísmo possessivo”, que constitui para Taylor um dos fatores do “mal-estar da modernidade”, e como fator de reflexão e de conhecimento (relegere), para que a sociedade possa pensar-se, no sentido de uma ética de realização pessoal e de partilha comunitária.

Na obra de Eduardo Duque, encontramos a preocupação de considerar um tempo de crescente complexidade, com importância significativa dada ao papel desempenhado pela educação, como modo de reduzir resistências de integração e de respeito plural, com atenção à racionalidade funcional e ao reconhecimento de valores como a utilidade, a eficácia e o pragmatismo,  mas também ao desencanto da modernidade e à ocorrência de um pensamento aberto à multiplicidade de perspetivas, capaz de integrar e de dialogar. Contudo, essa pós-modernidade em sido caracterizada por uma deificação do consumo, como se o poder da imagem se tornasse uma continuidade da cegueira do positivismo.

Paralelamente, a dimensão religiosa abre novas perspetivas para o elemento espiritual, como resposta ao exclusivo da sociedade da racionalidade instrumental, à margem das religiões tradicionais, apenas como experiência emocional, que abre caminho à credulidade ingénua e ao universo das seitas. Ora, uma sociedade dotada de processos ativos de aprendizagem tem de saber ligar a consciência dos limites e a compreensão da complexidade – sendo que “o saber decisivo da sociedade contemporânea é a capacidade de gerar e organizar um conhecimento especialmente ativo e reflexivo” – na expressão de Giddens. Eis por que razão a fragmentação social e o salve-se quem puder têm de ceder lugar a uma verdadeira partilha de responsabilidades. É neste contexto que se coloca o problema do papel da Igreja Católica na sociedade contemporânea, como uma Igreja aberta, que não receia o presente e o futuro, com procedimentos inteligentes e em diálogo com a ciência. Daí a exigência de compreensão do papel crucial da dignidade humana, do lugar do outro, do exemplo, do cuidado e da atenção.

“O cristão está desafiado a sentir a presença de Deus na vida, a fazer a experiência da sua bondade e a oferecer um novo modo de falar de Deus aos homens contemporâneos”. Isto mesmo obriga a ligar a incerteza e a diversidade, a inovação e a criatividade. A sociedade oscila entre o egoísmo e o medo, e esse medo torna-se muitas vezes medo do outro e tentação da autossuficiência e do egoísmo, que levam à cegueira sobre a responsabilidade quer contemporânea quer perante as gerações futuras. E a resistência à tomada de medidas sobre a destruição da natureza e o aquecimento global ou sobre as emissões de CO2 torna-se suicida. Quando o Papa Francisco nos faz um apelo dramático na encíclica Laudato Si’ é estranho que haja indiferença. É o “vazio de valores” que se manifesta, é a secularização sem compreensão da dignidade humana que se desenvolve. E Boaventura de Sousa Santos alerta oportunamente para a necessidade de atenção ao “sofrimento injusto a que tanta gente é submetida pela desigualdade e pela discriminação, gente digna a viver em condições tão indignas de fome, de guerra, de abandono”.

Quando lemos a análise e interpretação dos dados sociológicos apresentados por Eduardo Duque percebemos que a evolução é semelhante à de outras sociedades, quer no papel e dimensão das religiões, quer na atitude das pessoas. Importa, porém, não ceder a conclusões imediatistas ou precipitadas. A complexidade social leva-nos a lembrar o que Taylor refere relativamente à idade secular. Há fatores com consequências diversas. Os excessos relativamente à racionalidade funcional geram reações como o crescimento das seitas ou a coexistência de absolutismo e relativismo, com agravamento da indiferença e da intolerância. A consciência dos limites obriga, pelo exemplo e pelo cuidado, a novas formas de respeito e salvaguarda da dignidade humana, em nome da responsabilidade para com os outros e do cuidado do futuro. Daí a necessidade da recusa do fatalismo neste domínio. E, como afirma José Durán Vasquez da Universidade de Vigo, os inúmeros dados apresentados pelo autor “mostram que a religião não está em retrocesso, mas em processo de constante reconfiguração, como o presente livro ilustrou de uma forma profunda, brilhante e clara”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian. Contacto: gom@cnc.pt 

 

ONG israelita já salvou a vida a 3.000 crianças palestinianas

Uma forma de "construir pontes"

ONG israelita já salvou a vida a 3.000 crianças palestinianas novidade

Amir tem cinco anos e, até agora, não podia correr nem brincar como a maioria das crianças da sua idade. Quando tinha apenas 24 meses, apanhou um vírus que resultou no bloqueio de uma das suas artérias coronárias, pelo que qualquer esforço físico passou a ser potencialmente fatal. Mas, muito em breve, este menino palestiniano poderá recuperar o tempo perdido. Com o apoio da organização humanitária israelita Save a Child’s Heart, Amir acaba de ser operado num hospital em Tel Aviv e está fora de perigo.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Bahrein

Descoberto mosteiro cristão sob as ruínas de uma mesquita

Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

Manhã desta quinta-feira, 24

“As piores formas de trabalho infantil” em conferência

Uma conferência sobre “As piores formas de trabalho infantil” decorre na manhã desta quinta-feira, 24 de Novembro (entre as 9h30-13h), no auditório da Polícia Judiciária (Rua Gomes Freire 174, na zona das Picoas, em Lisboa), podendo assistir-se também por videoconferência. Iniciativa da Confederação Nacional de Ação Sobre o Trabalho Infantil (CNASTI), em parceria com o Instituto de Apoio à Criança (IAC), a conferência pretende “ter uma noção do que acontece não só em Portugal, mas também no mundo acerca deste tipo de exploração de crianças”.

Francisco contra o divisionismo e a ordenação de mulheres

Entrevista à revista America

Francisco contra o divisionismo e a ordenação de mulheres novidade

“O divisionismo não é católico. Um católico não pode pensar ‘ou, ou’ e reduzir tudo a posições irreconciliáveis. A essência do católico é “e, e”. O católico une o bem e o não tão bom. O povo de Deus é um” – afirmou o Papa Francisco, a propósito das divisões na Igreja americana, na entrevista concedida no dia 22 de novembro a um conjunto de editores jesuítas e publicada na edição da revista America – The Jesuit Review desta segunda-feira, 28 de novembro.

Terra de pobreza e de milagres

[Crónicas da Guiné – 1]

Terra de pobreza e de milagres novidade

A Guiné-Bissau, como país, é um bom exportador de más notícias. E quando se chega ao território, o que imediato se faz notar é a pobreza e o lixo. Mas quando nos dizem “Tenho orgulho em Bissau ser uma cidade limpa… em comparação com outras capitais desta região de África”, percebemos que tudo é relativo – relativo aos padrões que adoptamos. Ou às notícias que procuramos. Porque há notícias que vêm ter connosco, pois sabem que serão bem acolhidas, e outras que se deixam ficar no seu cantinho, silenciosas, porque se reconhecem sem interesse.

Nasce uma nova rede eclesial para o cuidado da casa comum

América Latina

Nasce uma nova rede eclesial para o cuidado da casa comum novidade

Depois da Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM) e da Rede Eclesial Ecológica Mesoamericana (REGCHAG), nasce agora a Rede Eclesial Gran Chaco e Aquífero Guarani (REGCHAG), com o objetivo de proteger os territórios que lhe dão nome e as respetivas comunidades, face a ameaças como o desmatamento, a contaminação e o desrespeito pelos modos de vida.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This