Vamos chamar os bois pelos nomes?

| 20 Mai 20

O vírus toca a todos. Dizem que é democrático e que para ele todos somos iguais, mas também nesta matéria se verifica o velho princípio orwelliano de que existem uns cidadãos mais iguais do que outros.

 

Helena Roseta diz que “a covid-19 é um grande revelador das desigualdades económicas, sociais, ambientais e até geracionais”. Está provado que as camadas mais pobres e excluídas da população são os mais vulneráveis à pandemia da covid-19. Os Estados Unidos atestam esta ideia de forma gritante.

No Michigan as disparidades sociais geram também desigualdades na pandemia, tornando as comunidades afro-americanas – com taxas superiores de diabetes e pressão arterial elevada – mais vulneráveis. De acordo com a revista New Yorker: “Apesar de apenas 14% das pessoas neste estado serem afro-americanas, representam 40% dos infetados com o novo coronavírus. Em Detroit, onde 79% da população é negra e 36% está abaixo do limiar da pobreza, a taxa de incidência da diabetes é o dobro da média nacional.” Os números não enganam: “No Illinois 43% das pessoas que morreram com a covid-19 e 28% dos que testaram positivo são afro-americanas; no Louisiana, 70% dos que morreram são negros (apesar de serem apenas um terço da população); e mesmo a Carolina do Norte e do Sul reportaram uma maior taxa de residentes negros infetados do que de brancos.” Em Detroit há doentes a morrer nos corredores dos hospitais, faltam profissionais de saúde, ventiladores, monitores cardíacos e outros instrumentos e materiais médicos.

A explicação é simples: os afro-americanos são trabalhadores que não conseguem trabalhar a partir de casa, ficando assim em maior risco de infecção. Mas a maior pobreza desta população torna-a mais propícia à doença crónica, além de dispor de menos seguros de saúde, ser mais discriminada, ter hábitos alimentares menos saudáveis, estar mais sujeita ao stresse, ter menos esperança média de vida, e ser menos referenciada para a realização de testes à covid-19. O médico e académico Peter Hotez, afirma mesmo que este surto se tornou uma “doença de desigualdades”, que segue os padrões da pobreza, raça e comorbidade.

Também na Índia o primeiro-ministro Norendra Modri avisou que o país iria entrar em quarentena obrigatória apenas quatro horas antes do seu início, condenado assim à subnutrição e à fome (talvez até à morte) as populações mais pobres, por nem sequer ter dado tempo para as famílias se abastecerem de bens essenciais e alimentares.

Segundo Henrique Barros, presidente do Conselho Nacional de Saúde, em entrevista ao Expresso: “A pobreza é o principal determinante de doença. Podemos não saber muito sobre o vírus, mas sobre a relação da pobreza com a saúde temos conhecimento inequívoco. Podemos não gostar de falar disto, podemos sentir-nos impotentes para mudar a situação, mas não vale a pena fazermos de conta que não o sabemos.”

Por outro lado temos a atitude criminosa de alguns pequenos poderes domésticos. Vários lares de idosos no norte do país organizaram acções na linha da tradição pascal católica do “beijar da cruz” entre os utentes, tradicional no domingo de Páscoa, mesmo contra as recomendações da Direção-Geral da Saúde e da própria Igreja. Esses irresponsáveis usaram máscara mas levaram os idosos a incorrer em perigo de contágio pelo coronavírus, sendo os idosos o principal grupo de risco desta doença. Como alguém disse: “Isto não é religião, é crime organizado”, pelo que não se entende a passividade das autoridades ao não deter tais criminosos. Dizia D. Januário Torgal Ferreira, bispo emérito das Forças Armadas e Segurança, à Visão: “Quando isto terminar, Deus Nosso Senhor não virá perguntar-me, certamente, se participei na Eucaristia. Ele perguntar-me-á, sim, se celebrei a justiça e a fraternidade junto dos doentes, dos pobres, dos desnudados, dos imigrantes e dos refugiados. A Igreja não deve exilar-se da cidadania.”

Em abril Trump mandou cortar o apoio financeiro à Organização Mundial de Saúde (OMS). Só a uma mente doentia poderia ocorrer tão peregrina ideia, em pleno desenvolvimento da pandemia do novo coronavírus. Mas de Trump pode-se esperar tudo e mais alguma coisa.

Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública demonstra que a pandemia ataca mais a saúde e o rendimento dos desfavorecidos.

São os trabalhadores com o salário mínimo e os informais que viram os seus rendimentos reduzidos a zero, em muitos casos. É isto que deve preocupar quem tem alguma sensibilidade social porque traduzem a dura realidade da fome. Mas não é tudo. A UNICEF diz que nos próximos seis meses poderão morrer até 1,2 milhões de crianças em 118 países pobres, como vítimas colaterais da sobrecarga dos sistemas de saúde, provocada pela luta contra a covid-19.

O mundo está cada vez mais desigual.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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