“Vamos decorar a rua da Páscoa para o Natal!”

| 25 Set 19

Na continuação das duas crónicas anteriores sobre projetos de vizinhança na Rua da Páscoa em Lisboa, apresento outro que ganhou vida há um ano e pode ser o mote para outros projetos locais.

Desta vez vou contar como uma ideia que valorizou o coletivo e a beleza ajudou a desbloquear medos, ansiedades e sofrimentos.

Em outubro de 2018, tentando perceber se, depois da exposição do Belo na Rua da Páscoa, conseguíamos organizar vontades para outros projetos, relembrei, a um grupo de moradores que mostrou maior interesse em avançar para fazer alguma coisa, algumas das ideias e propostas contidas nas respostas ao questionário de avaliação da dita exposição.

As propostas passavam por: nova exposição – desta vez de fotografias antigas e recentes da rua; um jornal da rua onde de contassem as memórias e se apresentasse a rua hoje a quem nos visita e mais ateliers de pintura na rua.

Estávamos a conversar no café, ponto de encontro dos vizinhos, e inesperadamente, surgiu uma nova ideia de uma vizinha meio tímida… decorar a Rua da Páscoa para a época do Natal

De início não reagi muito favoravelmente. A proposta assustou-me um pouco. Apanhada de surpresa encarei a ideia como mais uma daquelas normalmente associadas a gastos elevados, luzes e balões e, ainda por cima, obrigando a trâmites legais demorados. Mas fui tocada pelo entusiasmo com que a ideia foi recebida pelos outros vizinhos e… decidimos procurar ideias e meios para realizar tal projeto com a participação de todos.

Voltaríamos a falar…

A verdade é que estávamos a dois meses do Natal e havia que decidir.

Não seria um projeto de iluminação, pois não havia dinheiro nem tempo para as habituais burocracias que adivinhávamos ser necessárias para nos autorizarem. Queríamos que o projeto fosse também o mais participado possível e com custos baixos…

Numa conversa de troca de ideias surgiu uma proposta magnífica! Pela mão de uma criança de 8 anos, filho de uma amiga! Na escola dele tinham feito, no ano anterior, coroas de Natal a partir dos cabides de roupa usados na limpeza a seco enfeitados com pequenos restos de tecidos coloridos e fitas de embrulho.

Quando levei a ideia de novo a encontro de moradores no café, foi muito bem acolhida por todos e começaram-se logo a reunir materiais que se levaram para fazer em conjunto no meu atelier, no restaurante, nas casas de vizinhas que se juntavam e de novo no Colégio Alegria os meninos fizeram um bom número de coroas para oferecer aos moradores.

Durante estes dois meses de trabalho soubemos de dificuldades que alguns de nós estavam a passar e descobrimos como este projeto nos ajudou a criar laços que nos uniram ainda mais e ajudou a vencer medos e acreditar no melhor da vida.

No início de dezembro colocámos 35 coroas por cima de portas e janelas de entrada de muitas das casas. Depois outras foram-se juntando por iniciativa dos moradores.

E como eram diferentes e criativas as coroas de Natal!

Que emoção passear na rua e descobrir novas coroas. A maior parte estava pendurada da parte de fora das portas e janelas, bem perto de quem passava na rua.

Estiveram penduradas durante quase dois meses! E apenas uma foi substituída porque tinha desaparecido.

Ao retirarmos as coroas, dois dos moradores quiseram continuar com elas penduradas. Até hoje enfeitam a rua de um modo diverso e bem colorido.

Deste caminho ficam sobretudo as emoções vividas e cadeias de relação que se ganharam.

Saibamos nós cuidar do que se plantou.

 Lisboa, 19 de setembro 2019

 

Ana Cordovil é pintora

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