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Assembleia do Sínodo 2023
Assembleia Geral do Sínodo de Outubro de 2023. Há "um cansaço de quem, desde o início, nunca acreditou no projeto sinodal para a Igreja". Foto © Vatican Media

“Mais latim e menos sinodalidade”

Vários cardeais querem travar o Sínodo da Igreja Católica

| 21/08/2026

Pelo menos três cardeais e alguns bispos têm vindo a aproveitar estes meses de calor para lançar dúvidas e intoxicar a opinião pública eclesial sobre a construção de uma Igreja Católica mais sinodal. Não se podendo objetivamente falar de uma campanha organizada, a coincidência temporal faz pensar estar-se, no mínimo, perante uma ação concertada.

As observações críticas começaram logo no consistório extraordinário que o Papa Leão XIV promoveu no final de junho último [ver 7MARGENS]. Aí, houve três aspetos marcantes que evidenciaram a aposta do sucessor do Papa Francisco na sinodalidade: o tema integrou a ordem de trabalhos, ocupando uma das sessões; o método seguido para o debate dos vários assuntos foi em pequenos grupos, para que todos os purpurados se pudessem expressar e debater; e, finalmente, o Papa quis de forma explícita apelar a que os cardeais se envolvam no percurso da implementação do Sínodo. “Peço-vos que o acompanhem com convicção nas Igrejas a que servem, fomentando uma compreensão autêntica e encorajando a participação de todos: trata-se de ajudar as nossas Igrejas a crescerem de uma forma cada vez mais evangélica”, fez notar Leão XIV.

Logo aí pelo menos dois cardeais – Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong, e Raymond Burke, norte-americano, se insurgiram de forma contundente a respeito do processo sinodal e do método de trabalho adotado nos trabalhos consistoriais.

Burke deu, logo a seguir ao encontro no Vaticano, uma entrevista na qual pôs em causa os fundamentos teológicos e históricos da sinodalidade, considerando que “não existe uma definição de sinodalidade” nem “um histórico disso na Igreja”. O que existiu ao logo dos séculos foram sínodos ocasionais, de natureza consultiva, “não constitutivos da natureza da Igreja”.

 

Burke: “essa questão da sinodalidade deve ser interrompida”

Este purpurado norte-americano disse, na entrevista, que a Igreja “não tem mudanças de paradigma”, rejeitando a linguagem e alegadas sugestões de “mudança radical na direção do ensino ou da missão da Igreja”. Nesta linha, concluiu insistindo para que “toda essa questão da sinodalidade seja interrompida e que seja feito um estudo muito sério sobre o assunto, porque estamos a falar da própria vida da Igreja e da salvação das almas”. “Tenho a certeza de que nosso Senhor protegerá a Igreja”, acrescentou.

Uma outra figura cardinalícia que se pronunciou foi o cardeal alemão e ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard L. Müller, reconhecido crítico do processo sinodal (e expressamente convidado pelo Papa Francisco para participar nas assembleias sinodais, em Roma. Müller reconheceu que o Consistório voltou a ter algumas caraterísticas de antigamente, nomeadamente quando os cardeais se puderam pronunciar numa sessão plenária. Mas manifestou-se desolado com o trabalho de grupos (que não permite, segundo ele, que vozes minoritárias sejam valorizadas nas sínteses). E sintomaticamente elencou vários dos temas que foram tratados na reunião, mas nunca referiu a sinodalidade, a avaliar por uma entrevista dada no final de junho ao jornal The Catholic Herald.

Em meados de julho, o cardeal Robert Sarah disse por seu lado, numa entrevista à jornalista italiana Diane Montagna, que a sinodalidade é “um termo abstrato, intraduzível para nossas línguas africanas”, sem qualquer fundamento nas Escrituras, na história ou na Tradição da Igreja”, considerando necessário e urgente clarificar o “significado exato, das competências, dos limites e da missão” da sinodalidade — que “deixe intactos a doutrina, a moral, a natureza e a estrutura da Igreja”. Para este antigo responsável pelo culto divino, no tempo de Bento XVI e de Francisco, é impróprio chamar à Igreja “sinodal”.

Houve ainda vários bispos a manifestar reticências e dúvidas relativamente ao processo sinodal, nos últimos meses. Exemplar dessas resistências é uma carta aberta recentemente dirigida ao Papa, através de um blogue, cujo conteúdo foi de imediato propagado por uma série de sites conservadores. Trata-se do bispo auxiliar Rob Mutsaerts, que exerce o seu múnus na diocese de ‘s-Hertogenbosch e que questiona o Papa sobre se o Sínodo sobre a Sinodalidade está a atingir o seu objetivo central de “conduzir as almas à salvação”.

Aparentemente, ele parece estar preocupado por as assembleias sinodais em Roma terem já terminado há dois anos e continuar a exigir-se a sua implementação até 2028. Ele gostaria que houvesse já resultados e, por isso, pergunta a Leão XIV “se a frequência à missa dominical aumentou, se as vocações sacerdotais cresceram, se a catequese se intensificou e se surgiu uma maior devoção pela Eucaristia”.

“Estamos tão ocupados a discutir como é que devemos caminhar juntos em Igreja, que às vezes nos esquecemos para onde ela está a ir”, lamenta o bispo Mutsaerts. Para ele, a Igreja “já possui aquilo de que precisa para sua missão: o Evangelho, os sacramentos, a Eucaristia, as Escrituras, a sabedoria da tradição da Igreja e, acima de tudo, Jesus Cristo”. Assim sendo, e porque “o mundo não está à espera de mais uma organização que o ouça”, mas de quem o evangelize, pede ao Papa que “impeça que os processos eclesiais se desvinculem da evangelização e da salvação das almas”.

 

Setores conservadores inquietos com Leão XIV

Nos últimos meses multiplicaram-se as tomadas de posição de crítica aberta do processo sinodal, de alguns cardeais da linha mais conservadora da Igreja Católica (imagem construída por IA, a partir de títulos de imprensa reais).

Nos últimos meses multiplicaram-se as tomadas de posição de crítica aberta do processo sinodal, de alguns cardeais da linha mais conservadora da Igreja Católica (imagem construída por IA, a partir de títulos de imprensa reais).

É provável que algumas destas reações decorram de um cansaço de quem, desde o início, nunca acreditou no projeto sinodal para a Igreja e resistiu quanto pôde, fazendo os mínimos. A mudança na cadeira de Pedro deu-lhes expetativas de que a onda sinodal serenasse e que Leão XIV concedesse a ‘reforma’ ao cardeal Grech e à sua equipa.

O Papa não foi por aí. E, num estilo próprio, confirmou o caminho e tem vindo a insistir que a sinodalidade é para avançar. Desse ponto de vista, o consistório de junho foi uma prova, já que os cardeais foram chamados a comprometer-se no caminho sinodal, acompanhando nessa direção as igrejas locais.

Mas esta seria uma leitura incompleta. Algumas das figuras do conservadorismo católico, como os cardeais Burke, Müller e Sarah, aproveitaram a onda originada pelo cisma da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, em 1 de julho último, para pressionar em duplo sentido: cavalgar o cansaço e a resistência de muito clero, alto e baixo, ao caminho sinodal, e, ao mesmo tempo, reivindicar mais espaço para a missa em latim e para o Vetus Ordo, na esperança de que Leão XIV alivie as normas do decreto de Francisco, Traditionis Custodes, e vá ao encontro, pelo menos em parte, do decreto Summorum Pontificum, de Bento XVI.

O momento tem o seu dramatismo, já que o atual Papa já deu sinais de não se sentir condicionado pela alternativa entre os dois pontífices que o precederam.

No que ao processo sinodal diz respeito, os cardeais apresentaram as objeções, mas não questionaram diretamente o Papa. Mas já perceberam que é ele o interlocutor. E parar o processo, como quer Burke, não está sobre a mesa. “Mais missa em latim e menos sinodalidade” é slogan que, com este Papa, “não pega”.

 

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