Vogal da CNJP

Vasco Mina (1962-2022): o “congregador”

| 4 Jul 2022

 

Vasco Mina numa celebração dos Leigos para o Desenvolvimento: “Foi um exemplo de confiança e fé até ao fim.” Foto: Direitos reservados.

Vasco Mina numa celebração dos Leigos para o Desenvolvimento: “Foi um exemplo de confiança e fé até ao fim.” Foto: Direitos reservados.

 

Vogal da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), membro do grupo Ao Terceiro Dia e um dos fundadores da organização não-governamental para o desenvolvimento Leigos para o Desenvolvimento, ligada aos jesuítas, Vasco Mina morreu neste domingo, 3 de Julho, em Lisboa, na sequência de uma leucemia. Com 59 anos, casado e três filhos, Mina era alguém que gostava de “congregar pessoas”, diz uma familiar. Organizava visitas guiadas a lugares significativos, estava sempre disponível para apoiar no que fosse preciso – na família, entre amigos ou noutras circunstâncias – e para festejar. O seu funeral é esta terça-feira, às 9h30, saindo da Basílica da Estrela para o cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

De Vasco Mina se poderá dizer que “nos ensinou a morrer”, comentou Pedro Vaz Patto, num depoimento enviado ao 7MARGENS, a propósito da morte do vogal da CNJP, a que presidia. “Não me recordo de outra pessoa dos meus conhecimentos mais próximos que tenha encarado a doença e a morte por esta provocada de uma forma tão corajosa, mas também tão natural e serena, e com uma tão autêntica fé́ no amor de Deus e na Ressurreição”, acrescentava.

Nascido em Lisboa em 6 de Outubro de 1962, Vasco Mina era formado em biologia, mas há anos que trabalhava como responsável de aprovisionamento num grupo de distribuição. Durante muito tempo, conta o presidente da Comissão Justiça e Paz, Vasco “partilhou com um grupo dos seus numerosos amigos a evolução da sua doença, descrevendo com minúcia os tratamentos, confiando plenamente na ciência médica e sem nunca perder a esperança de cura”.

Neste último período de vida, Vasco Mina ainda dinamizou o grupo “Ao Terceiro Dia”, de interajuda e partilha de experiências entre pessoas atingidas por doenças graves, que procura, como afirmou, “encontrar uma luz e um sentido” para esses males, recorda a Ecclesia.

Quando Vasco Mina chegou a esta última etapa, “disse a todos os seus amigos que nada mais lhe restava do que preparar-se para morrer cristãmente”, refere ainda Pedro Vaz Patto. “E assim fez. Convidou todos os seus amigos para uma missa de acção de graças pela sua vida. Perante uma igreja repleta, enumerou todos os dons que havia recebido de Deus ao longo da sua vida, a começar pela família, a esposa e os filhos, e também as riquezas que lhe proporcionaram os seus múltiplos empenhos na Igreja e na sociedade.”

Percebera antes que tinha perdido a batalha: “uma recaída (um ‘balde de água gelada’, disse ele) não o fez perder nem a coragem, nem a esperança”, acrescenta Vaz Patto no seu testemunho. “Mas depois de esgotados todos os esforços, dele e dos seus médicos, verificou que nada mais havia a esperar da ciência e comunicou a todos os seus amigos que se aproximava da ‘última estação do comboio’.”

A imagem do comboio esteve presente no último momento: no cartão com que a família o quis recordar, lê-se, num texto de Jean d’Ormesson: “Esta viagem de comboio será cheia de alegrias, tristezas, expectativas, encontros, despedidas e aDeus. O sucesso é ter uma boa relação com todos os passageiros, dando o melhor de si. Não sabemos em que estação vamos sair, por isso vivamos felizes, amemos e perdoemos.”

 

“Disse que se aguentava e assim aconteceu”
Vasco Mina a orientar uma visita cultural. Foto: Direitos reservados

Vasco Mina a orientar uma visita cultural. Foto: Direitos reservados

 

Assim era Vasco Mina, como testemunham as centenas de pessoas que, na noite de segunda-feira, encheram a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Rato, em Lisboa, para uma celebração de despedida.  Num testemunho lido no final, uma das filhas disse: “Teve tempo para se despedir da sua família e do seu grupo de amigos mais próximo. Disse que se aguentava até o tio Carlos chegar do Brasil. E assim aconteceu.”

Comenta ainda Vaz Patto: “Quando poderia ser tentado (como qualquer um de nós no seu lugar) a revoltar- se pela sua morte precoce e por parecer inútil toda a sua árdua luta conta a doença, esqueceu tudo isso e não fez senão agradecer a Deus pela sua vida.”

Pedro Vaz Patto acrescenta, em jeito de lição de vida: “Nem sempre é fácil encontrar um sentido para a doença e para o sofrimento. Quando há quem pense em responder com a antecipação da morte para a suposta falta de sentido da doença, o Vasco mostrou-nos que a vida tem sentido e valor até ao último momento. Pela forma como viveu a sua doença e os últimos momentos da sua vida, deu-nos um testemunho talvez mais eloquente e frutuoso do que muitas outras meritórias facetas da sua vida, sempre marcadas pelo amor a Deus e ao próximo”.

Também os Leigos para o Desenvolvimento, onde Vasco Mina assumia agora o cargo de presidente da mesa da assembleia geral recordaram o seu fundador como alguém que, ao longo dos 36 anos da história da instituição foi “uma presença constante, acompanhando sempre com uma dedicação, entrega e amor, verdadeiramente inspiradores, o caminho dos LD”.

Tendo estado no início da organização, com o padre Vaz Pinto, que morreu sexta-feira, dia 1, e cujo funeral se realizou nesta segunda-feira, Vasco Mina desempenhou vários cargos nos LD e esteve na equipa que organizou as comemorações dos 35 anos. “Cuidou sempre da nossa missão com enorme fidelidade, mesmo nos momentos de maior fragilidade da sua saúde. Foi um exemplo de confiança e fé até ao fim”, lê-se na página da organização no Facebook.

 

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