Quase 50 países, entre membros e observadores, estiveram presentes esta quinta-feira, 19, no Instituto da Paz Donald J. Trump, em Washington, para a reunião inaugural do Conselho da Paz. O grupo não incluía a Santa Sé, que recebeu o convite em janeiro para participar, mas fez saber na terça-feira que o recusara. A Casa Branca reagiu à decisão, considerando-a “profundamente lamentável”.
As razões para a recusa foram explicadas pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, aos jornalistas. “A Santa Sé não participará no Conselho de Paz devido à sua natureza particular, que evidentemente não é a dos outros Estados”, declarou, manifestando algumas reservas quanto ao funcionamento desta nova estrutura internacional liderada pelo presidente dos EUA, e reforçando a necessidade de centralizar a gestão de conflitos nas instâncias globais já existentes. “Uma preocupação é que, a nível internacional, seja sobretudo a ONU a gerir estas situações de crise. Este é um dos pontos em que insistimos”, sublinhou Parolin.
O cardeal já havia referido anteriormente que estava fora de questão para a Santa Sé pagar 854,3 mil milhões de euros para aderir ao organismo, a quantia exigida por Trump a todos os Estados que queiram ser membros do mesmo.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, classificou a decisão como “profundamente lamentável”. “O Conselho é uma organização legítima; a paz não deve ser uma questão partidária, política ou controversa”, afirmou.
Foi precisamente a extensão das competências do Conselho de Paz muito além da questão de Gaza, configurando-se como uma alternativa às Nações Unidas, que levou a grande maioria das nações europeias a também não aderir. As exceções são a Hungria e a Bulgária, esta última a aguardar ainda a aprovação formal do parlamento.
De resto, nesta primeira reunião, Donald Trump afirmou que o organismo por si criado e presidido por tempo indefinido irá “supervisionar” as Nações Unidas e, se for preciso, até financiá-la. Isto depois de o seu secretário de Estado, Marco Rubio, ter referido que o organismo foi criado porque a questão de Gaza não era passível de ser solucionada no quadro da ONU.
O Presidente dos Estados Unidos acrescentou, no entanto, que irá trabalhar “de perto” com a organização e que a ONU ficará “mais forte” com a existência do Conselho da Paz.
Entre os países membros do Conselho da Paz figuram atualmente a Albânia, Argentina, Arménia, Azerbaijão, Bahrein, Bulgária, Camboja, Egito, El Salvador, Hungria, Indonésia, Israel, Jordânia, Cazaquistão, Kosovo, Kuwait, Mongólia, Marrocos, Paquistão, Paraguai, Qatar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos, Uzbequistão e Vietname.
Participaram na reunião como observadores a Áustria, Croácia, Chipre, República Checa, UE, Finlândia, Alemanha, Grécia, Índia, Itália, Japão, México, Países Baixos, Noruega, Omã, Polónia, Coreia do Sul, Roménia, Eslováquia, Suíça, Tailândia e Reino Unido.
“Quase todos aceitaram [o convite] e os que ainda não o fizeram, fá-lo-ão”, acredita Trump, acusando alguns países de se “armarem em espertos”.
O presidente norte-americano anunciou, para já, que nove membros do Conselho prometeram um total de sete mil milhões de dólares (cerca de cinco mil milhões de euros) para ajuda à Faixa de Gaza.
Recentemente questionado sobre a criação deste Conselho da Paz, o Patriarca Latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa expressou a sua preocupação com qualquer iniciativa que pareça ter como objetivo principal proteger os interesses das grandes potências, sem um reconhecimento real do povo palestiniano e dos seus direitos. “Acho que é uma operação colonialista: outros a tomar decisões pelos palestinianos”, afirmou, acrescentando: “Eles convidaram-nos a participar. Nunca tive mil milhões [de dólares], mas, acima de tudo, essa não é a tarefa da Igreja: são os sacramentos, a dignidade da pessoa.”










