Tratamento sigiloso de casos de abusos

Vaticano e Francisco alvos de fortes críticas

| 18 Out 2022

papa francisco foto vatican media

O Papa Francisco está no centro de várias críticas no que diz respeito à forma como o Vaticano tem tratado o tema dos abusos. Foto © Vatican Media

 

“Caso Santier: choque e desgosto”, é o título do editorial da edição dia 17 de outubro de La Croix. “A má gestão do Vaticano de casos de abuso de alto nível aprofunda a sua principal crise”, titula o Washington Post do mesmo dia. Em ambos os textos a mesma acusação: em alguns casos de abusos sexuais o Vaticano não está a proceder conforme prometera e isso descredibiliza tudo quanto tem dito e feito. Visado número um: o Papa Francisco.

De um e do outro lado do Atlântico os exemplos poderiam multiplicar-se. Quer na Imprensa laica, quer na de origem católica. O tema é sempre o mesmo: casos envolvendo abusos praticados por bispos que foram tratados por Roma de forma sigilosa, ou negligente, e que por isso não promoveram a transparência e a reparação defendidas por Francisco. E o caso do bispo Ximenes Belo volta, de novo, a ser tema.

O “choque e desgosto” francês resulta de se ter sabido, através do semanário Famille Chrétienne de 14 de outubro que o bispo de Créteil (subúrbios de Paris), Michel Santier, que invocara “razões pessoais e de saúde” para se retirar em janeiro de 2021, tinha afinal pedido a sua demissão um ano antes, por reconhecer ter abusado de dois jovens adultos no início dos anos noventa. O pedido de demissão foi aceite por Francisco em junho de 2020, mas nunca foram feitas quaisquer referências a abusos sexuais, apesar de, em outubro de 2021, a então Congregação para a Doutrina da Fé lhe ter imposto medidas coercivas, obrigando-o a um “ministério restrito” e a “levar uma vida de oração e penitência” numa comunidade religiosa.

É contra este silêncio que o editorial de La Croix se manifesta: “Infelizmente, vemos claramente que a instituição, por covardia, legalismo ou cálculo, mais uma vez cometeu o erro de silenciar o escândalo. (…) Definitivamente: é necessário ter um coração forte para não desesperarmos da Igreja, quando ela apresenta tal rosto.”

O mesmo tom está presente no editorial “Caso Santier: o silêncio é uma quebra [abus] de confiança”, da edição online de 18 de outubro do semanário católico La Vie. Nenhuma das publicações aceita como desculpa o facto de os dois jovens serem adultos à data dos acontecimentos (década de 1990), recusarem ser identificados publicamente ou de não terem sido tocados pelo então padre Michel Santier quando os forçou a despirem-se diante dele como penitência, depois de os ouvir em confissão.

Conclui o editorial do La Croix: “Tais contra-testemunhos deixam traços profundos. Os mais terríveis são invisíveis: são os passos discretos daqueles que deixaram a Igreja com desgosto pela traição dos clérigos. Resta o sínodo, que visa transformar a vida eclesial. Mas para que tenha sentido, não podemos contentar-nos com uma reforma estrutural sem mudarmos a relação com a verdade.”

Precisamente de uma responsável do Caminho Sinodal alemão vem o alerta: Charlotte Kreuter-Kirchhof, professora de direito e membro do Conselho de Economia do Vaticano, disse há dias numa conferência promovida na embaixada alemã junto da Santa Sé que “o abuso trouxe um sofrimento sem fim às vítimas e a Igreja perdeu uma quantidade infinita de confiança”. A única saída é abordar as causas sistémicas dos abusos, acrescentou, citada pelo CathNews.

 

Os casos do cardeal Ouellet e do bispo Belo

Cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos: a forma como o seu caso foi gerido levantou dúvidas. Foto: Direitos reservados. 

 

A Igreja Católica “continua a cair nas ratoeiras do costume e assim aprofunda a sua principal crise”, lê-se num extenso artigo intitulado “A má gestão do Vaticano de casos de abuso de alto nível aprofunda a sua principal crise” publicado no dia 17 de outubro no Washington Post e assinado por dois jornalistas, um dos quais, Chico Harlan, chefe da delegação do jornal em Roma.

Os “casos” do cardeal Ouellet e do bispo Ximenes Belo são o ponto de partida do texto que reconhece “embora os casos sejam marcadamente diferentes – um envolve um cardeal canadiano acusado de tocar indevidamente uma funcionária; o outro envolve um bispo de Timor-Leste premiado com o Nobel acusado de abusar de crianças pobres” – os ativistas anti abusos contactados pelo jornal garantem que “ambos os casos refletem um padrão de sigilo e defensivo” e mostram que “a Igreja ainda está a cerrar fileiras para proteger a reputação de prelados poderosos”.

No caso do cardeal Marc Ouellet, o Vaticano analisou as acusações – mas delegou a investigação num padre que o conhece bem [ver 7MARGENS] que determinou não existirem motivos para criticar o comportamento do cardeal. “Uma conclusão – escreve o Washington Post – que o advogado do acusador diz ser discutível, dado o possível conflito de interesses.”

O caso do bispo Ximenes Belo é assim sintetizado no artigo em questão: “O Vaticano puniu-o em 2020, um ano depois dos funcionários da Santa Sé terem tomado conhecimento das acusações. Mas as restrições impostas – incluindo a proibição de Belo entrar em contacto com menores – foram mantidas em segredo pela Igreja até que uma investigação holandesa recentemente publicada noticiou o abuso de vários meninos desde a década de 1980”.

Carlos Ximenes Belo, Timor-Leste, abusos

O bispo Carlos Ximenes Belo, antigo bispo de Díli, Timor-Leste, numa foto de fevereiro 2019: em 2020, o Nobel da Paz viria a ser penalizado pelo Vaticano. Foto © José Fernando Real, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

 

Para sublinhar a perda de credibilidade que estes casos geram, os jornalistas citam analistas para quem o caso do cardeal Ouellet “evidencia a necessidade de peritos externos investigarem alegações de má conduta”. David Deane, professor associado de teologia da Atlantic School of Theology, na Nova Escócia, disse ao Washington Post que “os membros do clero geralmente cerram fileiras e não podem ser fiáveis ​​para se investigarem uns aos outros. Ter o clero a dirigir a investigação é um problema real. É um assunto problemático”. “Enquanto isso acontecer, será muito difícil [a Igreja] ser transparente e ganhar a confiança pública no processo.”

Os jornalistas reconhecem que “Ouellet, de 78 anos, negou as acusações de toque inapropriado”, mas não deixam de sublinhar que “é amplamente considerado como uma das figuras mais importantes da Cúria Romana” enquanto prefeito do Dicastério para os Bispos e que o Papa Francisco “permitiu que ele permanecesse no cargo muito para além do mandato normal de cinco anos”. Sobre as relações do cardeal com Francisco acrescentam que eles mantêm “encontros quase todas as semanas”.

No La Croix International, Robert Mickens é também muito crítico sobre o tema: “É muito decepcionante ter de dizer isto, mas tenho de dar este conselho a qualquer pessoa que tenha sido abusada sexualmente por um padre ou bispo católico: se a ofensa ainda não tiver prescrito, não a denuncie – em circunstância alguma – às autoridades eclesiásticas, especialmente às do Vaticano.

Na UCA News, agência católica asiática, o etnógrafo e teólogo Justin Wejak, que estudou as culturas do medo entre os católicos indonésios orientais, escreve sobre “Quando o silêncio já não pode ser comprado”, a propósito do caso de Ximenes Belo. E recorda: “Belo renunciou ao seu papel episcopal no início de 2002, aos 54 anos de idade, ainda muito jovem para se reformar como bispo. O estranho foi que, após a sua demissão, ainda lhe foi permitido trabalhar com menores em Moçambique. Isto precisa de ser esclarecido pelo Vaticano, especialmente quando o caso for levado a tribunal.”

Defendendo que muitas pessoas “querem saber porque é que Belo se demitiu”, o articulista acrescenta, na linha do que disse há dias a alemã Charlotte Kreuter-Kirchhof, que em vez de mudar as pessoas de lugar, a Igreja tem de “tentar compreender as causas profundas do abuso sexual e continuar a explorar formas significativas de se reformar a partir de dentro, para garantir que isso nunca mais volte a acontecer”.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Iniciativa ecuménica

Bispos latino-americanos criam Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo

O Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) lançou oficialmente esta semana a Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo, anunciou o Vatican News. Um dos principais responsáveis pela iniciativa é o cardeal Luís José Rueda Aparício, arcebispo de Bogotá e presidente da conferência episcopal da Colômbia, que pretende que a nova “pastoral de rua” leve a Igreja Católica a coordenar-se com outras religiões e instituições já envolvidas neste trabalho.

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro

Frade morreu aos 85 anos

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro novidade

O último alarme chegou-me no dia 10 de Fevereiro. No dia seguinte, pude vê-lo no IPO do Porto, em cuidados continuados. As memórias que tinha desse lugar não eram as melhores. Ali tinha assistido à morte de um meu irmão, a despedir-se da vida aos 50 anos… O padre Morgado, como o conheci, em Lisboa, há 47 anos, estava ali, preso a uma cama, incrivelmente curvado, cara de sofrimento, a dar sinais de conhecer-me. Foram 20 minutos de silêncios longos.

Mata-me, mãe

Mata-me, mãe novidade

Tiago adorava a adrenalina de ser atropelado pelas ondas espumosas dos mares de bandeira vermelha. Poucos entenderão isto, à excepção dos surfistas. Como explicar a alguém a sensação de ser totalmente abalroado para um lugar centrífugo e sem ar, no qual os segundos parecem anos onde os pontos cardeais se invalidam? Como explicar a alguém que o limiar da morte é o lugar mais vital dos amantes de adrenalina, essa droga que brota das entranhas? É ao espreitar a morte que se descobre a vida.

Agenda

There are no upcoming events.

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This