O Vaticano abriu uma investigação ao bispo de Cádis e Ceuta, Rafael Zornoza, após ter recebido em julho uma denúncia de que este abusou sexualmente de um menor durante a década de 1990, quando era padre em Getafe e dirigia o seminário diocesano. Esta é a primeira vez em Espanha que se torna público que um bispo está a ser investigado canonicamente por um crime de pedofilia. O prelado continua, no entanto, a exercer normalmente as suas funções.
Terá sido a própria vítima a enviar a denúncia diretamente para o Dicastério para a Doutrina da Fé, pelo correio, detalhando o sucedido e apelando a que fossem tomadas as devidas medidas, avançou o jornal espanhol El País nesta segunda-feira, 10 de novembro [artigo exclusivo a assinantes], após ter obtido uma cópia do documento e a confirmação da parte de fontes da Igreja Católica de que a investigação foi iniciada.
“Escrevo esta carta unicamente para impedir que o que me aconteceu aconteça a outra criança”, afirma o denunciante nas primeiras linhas da missiva enviada ao Vaticano, citada por aquele periódico, acusando o atual bispo de Cádis de ter abusado sexualmente de si dos 14 aos 21 anos. Os acontecimentos remontam a 1994, quando Zornoza tinha 45 anos e dirigia o seminário maior da diocese de Getafe, criada apenas três anos antes, após a divisão da arquidiocese de Madrid em várias dioceses.
“Dos 14 aos 18 anos, eu frequentava o Seminário Maior de Cerro de los Ángeles quase todos os fins de semana. Durante esse período, ele abusou de mim. Era à noite que ele vinha ao meu quarto e eu sofria os abusos. Ele entrava na minha cama, acariciava-me e beijava-me. De manhã, também me acordava da mesma maneira. Nessas ocasiões, eu nunca lhe dizia nada; eu ficava paralisado de medo”, pode ler-se na carta. Os abusos relatados — toques, carícias nas partes íntimas e beijos na boca — também terão ocorrido durante retiros e acampamentos.
E continuaram, segundo o relato da vítima, até completar 21 anos, no início da década de 2000, pois quando o denunciante atingiu a maioridade, ingressou no seminário e durante os dois anos que ali passou, Zornoza entrava na sua cama “quase todas as noites e manhãs” para o beijar e tocar nas suas partes íntimas. “Por diversas vezes, disse ao Rafa que o que estávamos a fazer não era correto. Ele dizia-me sempre que era uma amizade próxima”, escreve o denunciante.
O ex-seminarista explica que Zornoza “tinha uma grande capacidade de manipulação” sobre ele. “Ele sabia absolutamente tudo sobre mim, e eu confiava cegamente no que ele me dizia”, escreve. “Outro exemplo da sua capacidade de me manipular e controlar era através das confissões”, continua. Nestas confissões, o denunciante afirma que sentia uma imensa culpa, “e fez-me acreditar que eu era incapaz de amar ou compreender a amizade”.
O relato da vítima revela que, para além dos abusos sexuais, o então prelado usou a sua posição de poder para o enganar, abusar e culpar pelo sucedido. “Convenceu-me a entrar para o seminário e disse-me que ‘a minha ferida’ (era assim que se referia à minha homossexualidade) me impedia de ver as coisas com clareza e que devia confiar nele. Convenceu-me também a consultar um psiquiatra duas vezes por semana para curar a minha ferida, a minha homossexualidade. Nem a minha homossexualidade, nem o facto de estar em terapia, me permitiam partilhar isso com alguém, nem com os meus pais, família ou amigos […]”.
Quando saiu do seminário, explica a vítima na sua carta, não tinha consciência de ter sido abusado. Foi apenas alguns anos mais tarde, enquanto fazia terapia, que compreendeu que Zornoza tinha abusado de si.
O atual bispo de Cádis nasceu em Madrid em 1949 e foi aí ordenado padre em 1975. Na década de 1980, Zornoza ocupou vários cargos importantes no episcopado de Madrid e, na década de 1990, após o desmembramento da arquidiocese, foi incardinado na nova diocese de Getafe como secretário do seu primeiro bispo. Em 1994, tornou-se diretor do seminário e, em 2005, foi nomeado bispo auxiliar de Getafe. Durante este período, dedicou-se à pastoral juvenil, criou recursos para a formação juvenil e promoveu atividades de lazer. Foi também o fundador da Associação Juvenil Llambrión. Em 2011, o Papa Bento XIV nomeou-o bispo da diocese de Cádis e Ceuta.
Na Conferência Episcopal Espanhola, é membro da Comissão Episcopal para as Missões e Cooperação com as Igrejas. Anteriormente, foi presidente da Comissão Episcopal para o Clero (2017-2020) e foi também membro da Comissão Episcopal para Seminários e Universidades.
Apesar desta denúncia já remontar a julho, altura em que Zornoza pediu ao Papa a sua renúncia por ter completado 75 anos (a qual ainda não foi aceite), o prelado tem continuado a exercer as suas funções normalmente, celebrando missa na catedral até ao passado domingo, assinando cartas pastorais, oficiando crismas e visitando escolas, revela o El País. Tem também viagem marcada para Madrid em meados do mês para participar na assembleia plenária dos bispos, onde serão votadas questões importantes da Igreja espanhola.










