Vaticano já dá passos concretos para criar o fundo contra a fome com dinheiro retirado às armas

| 19 Nov 20

A nuvem nuclear sobre Hiroshima: o fundo pretende que nunca mais isto aconteça, mas também dar de comer a todas as pessoas que têm fome. Foto: Direitos reservados

 

Já há passos concretos a serem dados no Vaticano para que se chegue à constituição de um fundo global para pôr fim à pobreza e à fome, utilizando o dinheiro que os governos gastam em despesas militares.

“Esta não é uma ideia abstracta”, afirmou Alessio Pecorario, chefe da secção de Segurança da Comissão Covid-19 do Vaticano, criada pelo Papa para lidar com as consequências sociais e económicas da pandemia.

Segundo as declarações citadas pela Europa Press, Pecorario afirmou que os interlocutores internacionais com quem o seu gabinete tem trabalhado “vêem como algo lógico o cessar-fogo global que o secretário-Geral da ONU solicitou e que o Papa fez seu“.

Também a irmã Alessandra Smerilli, que integra a mesma comissão, se expressou nesse sentido numa conferência virtual com jornalistas, na qual afirmou que seria muito mais “ingénuo” não fazer nada. “O que é mais ingénuo: pensar nesta solução ou deixar a crise acontecer enquanto continuamos a aumentar os arsenais militares?” – perguntou. “O absurdo é que nada mais concreto está a ser feito”, disse. Além disso, a pandemia criou um ambiente propício a este fim: “Antes da covid-19 era impensável propor um fundo de cuidados de saúde com dinheiro proveniente de armamento.”

Só em 2019, as despesas globais com armamento atingiram um máximo histórico de 1,917 mil milhões de dólares, de acordo com dados do Instituto Internacional de Investigação da Paz de Estocolmo (SIPRI). E, de acordo com o Programa Alimentar Mundial (PAM), das Nações Unidas, bastariam 260 mil milhões de dólares num ano para erradicar a insegurança alimentar.

O Papa referiu em várias ocasiões o seu apoio à criação desta reserva económica com o dinheiro proveniente das despesas militares. No início de Outubro, na encíclica Fratelli Tutti, publicada dia 4, apelou à urgência desse fundo. Dias depois, na mensagem por ocasião do 75º aniversário da FAO, afirmou: “Uma decisão corajosa seria utilizar o dinheiro gasto em armas e outras despesas militares para criar um fundo global, para que a fome possa ser derrotada de uma vez por todas e para que os países mais pobres se possam desenvolver.”

Pecorario, que já trabalhou na Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça (CEPEJ), diz que a ideia é “reunir as melhores mentes e aqueles que trabalham para colocar a segurança ao serviço do bem comum”, criando sinergias e trabalhando em rede, entre religiões, universidades, organizações internacionais, ONG, governos e sector privado.

 

Armamento ou desenvolvimento?

O Papa Francisco com sobreviventes de Hiroshima. Foto: Direitos reservados/Religion Digital

 

Este responsável, que semanalmente conversa com o Papa sobre o que está a ser feito, destaca gestos concretos como a “Campanha do Congelamento”, que pretende sensibilizar os governos a “congelar os investimentos em armamento a fim de obter os recursos necessários para enfrentar a pandemia e garantir a segurança dos cidadãos”. Além disso, tem também reforçado a sua colaboração com outras instituições como a FAO ou entidades não governamentais como a Caritas Internationalis, que trabalham todos os dias para melhorar as condições de segurança alimentar.

Ao mesmo tempo, refere ainda Pecorario, diz que as cadeias de produção estão a ser reconstruídas, em simultâneo com uma campanha dirigida a instituições financeiras, com o título “não deposite em bombas ou tire o seu dinheiro das armas nucleares. O mesmo deve ser feito por cada cidadão, diz: “Investi em bancos que, por sua vez, afectam os fundos à indústria de armamento ou privilegiei os bancos que investem em programas de desenvolvimento?”, pergunta.

As notícias de conflitos em tantas regiões deve fazer-nos abrir os olhos e “olhar para além das nossas próprias fronteiras: a guerra é algo real e a nossa responsabilidade é limitá-la”, diz. E, acrescenta, o Papa vê “a violência não apenas como uma batalha armada ou explosões de bombas”: “Fome, falta de educação ou de cuidados de saúde, bem como inimizade entre estados e povos, são todas formas de violência, nascidas da globalização da indiferença”, afirma.

O tratado internacional para a proibição de armas nucleares entrará em vigor a 22 de Janeiro, depois de as Honduras se terem tornado o quinquagésimo país a ratificar o texto. Os signatários obrigam-se a não desenvolver, testar, produzir, fabricar, adquirir, possuir ou armazenar armas nucleares ou outros dispositivos explosivos de natureza nuclear, em nenhuma circunstância. A Santa Sé foi o primeiro Estado a assinar e ratificar este Tratado.

 

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