
Pormenor da estátua no padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, exalta os feitos portugueses no tempo dos Descobrimentos. Foto © Bert Kaufmann
Enquanto o Vaticano prepara um documento de sobre “a doutrina dos Descobrimentos”, a instância máxima dos nativos americanos ligados à Igreja dos Metodistas Unidos decidiu solicitar ao Congresso dos Estados Unidos que aprove o fim do feriado federal do Dia de Colombo e a sua substituição pelo Dia dos Povos Indígenas.
O Presidente Biden emitiu, em outubro de 2021, uma proclamação, na qual se demarca das políticas federais, que ao longo de gerações “procuraram, de forma sistemática, assimilar e deslocar os povos indígenas e erradicar as culturas nativas”. Reconhecendo, hoje “a resiliência e a força dos povos indígenas, bem como o impacto positivo imensurável que eles causaram em todos os aspetos da sociedade americana”, compromete-se a reforçar o apoio às nações indígenas e insta o povo norte-americano a comemorar o Dia a elas dedicado.
No último sábado, o Caucus Internacional dos Nativos Americanos dirigiu-se ao Congresso para que aprove os instrumentos legislativos para a mudança do motivo do feriado nacional.
Num comunicado, a organização dirige-se em particular à comunidade italiana nos EUA, afirmando, a propósito:
“Embora respeitemos a comunidade étnica dos italianos americanos, não podemos aceitar ou apoiar o contínuo reconhecimento público, patrocinado pelo Estado, de Cristóvão Colombo como um símbolo de descoberta, exploração e conquista, uma vez que continua a prejudicar significativamente todos os nativos, tanto dentro como fora” do país.
“As mais de 570 nações tribais nativas americanas nos Estados Unidos continuam a viver com o impacto de injustiças sistémicas e abusos iniciados pelo colonialismo dos colonos”, salienta o comunicado.
Um número crescente de cidades e estados começou a reconhecer a segunda segunda-feira de outubro como o Dia dos Povos Indígenas, a par ou em vez do Dia de Colombo, segundo notícia da agência Religion News Service, que publicou um trabalho sobre esta matéria.
Voltar ao tema do colonialismo
Entretanto, o National Catholic Reporter noticiava recentemente que o episcopado do Canadá está a trabalhar com o Vaticano com vista à elaboração de uma “declaração papal sobre a doutrina dos Descobrimentos”.
Como foi noticiado, muitas das posições críticas da visita recente de Francisco às comunidades indígenas do Canadá relacionaram-se com o não reconhecimento de que aquilo que as potências europeias apresentaram como Descobrimento, significou, historicamente, a destruição de culturas e civilizações pré-existentes, a exploração dos recursos naturais das colónias e mesmo, em várias partes, práticas de genocídio, executando políticas legitimidades pelos papas da altura.
Esta questão foi diretamente colocada ao Papa Francisco pelos jornalistas, nomeadamente de uma rádio indígena do Canadá, na conferência de imprensa durante a viagem de regresso daquele país para Roma. Francisco não teve dúvidas em caraterizar como um “genocídio cultural” o sistema de internatos do Canadá, onde foram praticados abusos e maus tratos, ao longo de décadas, de resto como assim definiu também a Comissão canadiana para a verdade e a reconciliação. E formalizou, nessa oportunidade, um pedido de perdão em nome da Igreja.
Sobre o colonialismo, o Pontífice falou, nessa altura, do esmagamento dos povos e culturas, daquilo que muitos desses povos possuíam de diferente e complementar e de como ainda hoje esta atitude de reduzir o outro ao que nós somos continua a persistir. “É por isso que temos que trabalhar no que você diz: voltar e sanar, digamos, o que foi feito de errado, sabendo que o mesmo colonialismo existe hoje”, observou, dirigindo-se ao jornalista que o interrogou.
Um documento aberto que olhe para lá das Américas
Nesta linha, o porta-voz dos bispos do Canadá, Jonathan Lesarge, dizia recentemente ao National Catholic Reporter que a Conferencia Episcopal do país está trabalhar com as autoridades do Vaticano na redação de “uma nova declaração que rejeita toda uma tradição de raciocínio jurídico” (na base do direito de propriedade estabelecido pelos reinos europeus sobre os territórios dos indígenas, por exemplo).
“Galvanizados pelas chamadas de atenção dos nossos parceiros indígenas e pelos comentários do Santo Padre, os bispos do Canadá envolveram-se nesse processo (…) embora não haja ainda um cronograma sobre quando a Santa Sé pretende divulgar essa declaração”, acrescentou Lasarge.
O jornalista autor deste trabalho observa que é provável que a declaração de Roma venha a abordar as principais preocupações dos povos indígenas no Canadá, mas contemplando igualmente situações análogas em muitas outras partes do mundo.









