Comissão para a Proteção de Menores

Vaticano quis reunir com vitimas de Rupnik, mas estas recusaram as condições

| 29 Out 2023

Marko Ivan Rupnik, padre jesuíta, arte

“As pessoas abordadas entenderam que se tratava, sobretudo, de responder a um interesse ou necessidade da Comissão Pontifícia e não particularmente o caso das vítimas do padre Rupnik.”  Foto © Centroaletti, CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons

 

A Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores e das Pessoas Vulneráveis (CPPMPV) do Vaticano dirigiu recentemente a algumas ex-religiosas que se assumem como vítimas do padre Marko Rupnik uma carta, em que manifesta vontade de rever com elas o modo como foram tratadas por parte da Igreja. No entanto, o teor da missiva e os objetivos pretendidos levaram a quase totalidade das contactadas a recusar o encontro com a Comissão.

A missiva, que o 7MARGENS pôde ler, está datada de 8 de outubro último, foi enviada por e-mail apenas a algumas das vítimas que vieram a público denunciar os abusos de que tinham sido alvo e o comportamento de desinteresse e abandono por parte da Igreja Católica.

A Comissão começa por manifestar preocupação quanto ao “tratamento” que as vítimas “receberam ao longo de um processo” que diz saber “ter sido extremamente doloroso e frustrante” para elas, as suas famílias e para “um sector importante da Igreja, no que diz respeito à escuta, investigação, acompanhamento, apoio e comunicação que lhes foi prestada”.

É com base nessa preocupação que a CPPMPV, através desta iniciativa de contacto, pretende “rever os processos e ações que foram levados a cabo no vosso caso particular, para identificar como tudo isto pode ter afetado a legitimidade da vossa queixa, os vossos direitos e o apoio e acompanhamento que não vos foi dado”.

O propósito da abordagem das vítimas não é, assim, ouvi-las para, em função do que até agora foi o seu calvário, tomar medidas ou acionar iniciativas junto de outras entidades para que tais iniciativas sejam tomadas. É, antes, proceder à “revisão da qualidade, eficácia e eficiência da atenção prestada às vítimas (psicológica, médica, espiritual, pastoral, jurídica), bem como dos procedimentos canonicamente estabelecidos ao longo do processo”. “Não temos o poder de modificar o veredito existente, nem de intervir nas decisões tomadas pelo tribunal e pelas instâncias correspondentes”, esclarece ainda a carta enviada pela Comissão.

Segundo contactos realizados pelo 7MARGENS, esta abordagem deixou as pessoas contactadas incomodadas. Primeiro por não terem sido objeto de quaisquer “ações levadas a cabo” da parte da Igreja, apesar das denúncias, das cartas e das audiências havidas por iniciativa das vítimas. Depois, por parecer que a Comissão está a utilizar uma carta-tipo que não se adapta à especificidade do seu caso. E, finalmente, porque, na primeira vez em que são abordadas, o objetivo não ser a escuta, mas a avaliação de uma escuta inexistente.

Isto é visível quando a carta recebida pelas vítimas refere:

“Sabemos que, como o seu caso – abuso de poder, de consciência e abuso sexual – existem muitos dentro da Igreja e, por isso, é essencial rever o que está a ser feito atualmente e compará-lo com os protocolos e procedimentos que existem, a fim de identificar as fraquezas e propor recomendações adequadas para futuros casos semelhantes, procurando melhorar o sistema como um todo”.

As pessoas abordadas entenderam que se tratava, sobretudo, de responder a um interesse ou necessidade da Comissão Pontifícia e não particularmente o caso das vítimas do padre Rupnik.

Na sequência de troca de correspondência entre as partes, as destinatárias das mensagens da Comissão decidiram não aceitar um encontro, neste quadro de referência. Até porque há, em mais de um dicastério do Vaticano informação bastante, incluindo no Dicastério para a Doutrina da Fé, no qual se enquadra a Comissão para a Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis.

De qualquer modo, a decisão anunciada pela Santa Sé de reabrir o processo do padre Marko Rupnik no Dicastério para a Doutrina da Fé, na sequência de alertas que a CPPMPV lhe fez chegar (cf. Notícia do 7MARGENS), pode vir a alterar este estado de coisas do lado das vítimas.

 

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