Velhice aos 60, doença obrigatória

| 13 Set 21

“Como alguém disse, éramos felizes e não sabíamos.” Foto © Jonathan Borba / Unsplash

 

Fomos de férias. Que lugar-comum esse que apenas descreve a clássica paragem de Agosto!

Nada de novo e tudo diferente ao ir e ao regressar. É mesmo estranho o que estamos a viver – um mundo de imprevistos e de incertezas, no qual antes pareciam só existir convicções e controlos; um lugar de todos e de ninguém, aquele que, antes, sem apregoar, deixava sempre um cantinho livre para quem quer que chegasse; um sítio onde o homem ambiciona ser “deus” de si e demónio dos outros que não fazem parte do seu plano narcísico, já que perdeu a simplicidade de se respeitar na sua essência e de querer ser apenas como foi criado; um espaço em que o prazo de validade do presunçoso ignorante está cada vez mais curto, quando parecia que a tendência crescente era ir aumentando pouco a pouco.

Que estranheza tanta contradição. Andávamos entretidos com os transumanos e os pós-humanos que considerávamos estar a criar, mas isso era num passado, ainda que recente, mas passado. Como alguém disse, éramos felizes e não sabíamos.

Entretanto surgiu uma pandemia, diria eu, ainda muito mal explicada, que abalou o mundo. Os aviões pararam, os hotéis esvaziaram-se, as viagens de recreio desmarcaram-se, os hospitais encheram-se, as unidades de cuidados intensivos sobrelotaram-se e os médicos e enfermeiros que nelas trabalhavam esgotaram-se e, parte deles, deprimiram-se… Até os animais selvagens entraram a tentar ocupar algumas cidades que os homens recolhidos provisoriamente despovoaram…

Alguns cenários a que assistimos e nos quais participámos, além de improváveis, eram, tão-somente, inimagináveis. Nem tenho a certeza se, com tantos avanços e recuos, já será possível falar no passado. No entanto, a esperança assim sugere.

E, então? O que aprendemos? Será talvez demasiado negativista responder com um seco – nada. Creio é que é verdadeiro, apesar disso.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) prepara-se para, a partir de 1 de Janeiro de 2022, classificar internacionalmente a velhice, leia-se o ser humano a partir dos 60 anos, como uma doença. Portanto, a liberdade de ser são a partir desta idade, se a proposta vingar, perder-se-á. Já não haverá mais saúde para quem tiver o privilégio de chegar aos 60 anos sem doença. De um dia para o outro, mesmo que tudo esteja igual, ficará obrigatoriamente diferente.

Quando lhe perguntarem se tem alguma doença que conheça, dirá: “Sim desde ontem sou velho: esta é a minha doença.”
E, afinal, estamos a falar de quê?
– Dos que querem viver muito, mas não querem ser velhos?
– Do facto de o mundo estar, em boa parte, a ser governado por doentes?
– Do despotismo dos ignorantes que, não tendo culpa, ainda não tiveram tempo para ser sábios ou do facto de que, neste planeta azul, deixa manifestamente de haver lugar para os que, 60 anos após terem cá chegado como reis, ficam votados a ser marginais e excluídos como escravos (no tempo da escravatura, claro)?
– Da assepsia e da intolerância de uma juventude a tudo o que seja menos do que os seus iguais em termos de estética, superficialidade e aparência?
– Da vergonha de dizer o ano de nascimento?
– Do constrangimento de ter alcançado sabedoria como produto de vasta experiência de vida?…

Com a ditadura da juventude perdeu-se o orgulho bom por se ter atingido uma boa capacidade de superação, resultante de um manancial de experiências provavelmente irrepetíveis, que só a idade acumulada viabiliza.

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“Estar doente pode acontecer a qualquer um de nós, independentemente da idade, mas passar a ser velho e doente aos 60 anos por decreto, ficará uma inevitabilidade para todos.” Foto © Matthew Bennett / Unsplash

 

Ter vivido algo mais do que 50 anos passará a ser inequivocamente constrangedor. Qualquer coisa que não se faça perfeita será consequência da “doença” que as pessoas não sabem que têm; qualquer atitude menos convencional será alvo de comentários de tipo “coitado/a, é doente”; qualquer alegria partilhada com outros, de forma mais efusiva e entusiasmada, poderá ser vista como um excesso de quem começa a não saber bem o que faz, porque se encontra doente. Enfim, a idade passará a ser um peso, um preconceito, uma vergonha, para os mais deprimidos.

O “mundo desenvolvido” está, desta forma, a transformar-se num lugar agreste onde, em breve, o homem não deixará sítio para si mesmo. Aprendi no Oriente que ter em casa uma pessoa mais velha é uma honra, um privilégio. A sabedoria que uma longa história de vida torna possível alcançar, estrutura as famílias e as relações. E, sim, estamos a falar de pessoas com muita idade. Não de pessoas com 60 anos. Aliás, quem me ensinou isto de forma bem fundamentada foi um sexagenário vietnamita, em Saigão, professor universitário, que tinha a sua mãe em casa e a quem toda a sua família apoiava, como se de uma bênção se tratasse. Bênção foi mesmo a palavra usada.

Este lugar do planeta onde vivemos perdeu a flexibilidade e a tolerância. Na verdade, estar doente pode acontecer a qualquer um de nós, independentemente da idade, mas passar a ser velho e doente aos 60 anos por decreto, ficará uma inevitabilidade para todos. Melhor dizendo – ou se morre cedo e saudável, apesar de irónico, ou se morre mais tarde e obrigatoriamente insano porque uma entidade mundial, orientada por gente, presumo eu, “acéfala”, mas “saudável”, decretou que o homem não pode continuar a viver sem ser doente (crónico) a partir de certo tempo da sua existência.

Alguns estudos recentes fundamentados, realizados em entidades credíveis, como a Escola de Medicina da Universidade George Washington ou a Universidade de Montreal, demonstram que não é preciso temer a velhice – a não ser, digo eu, que o homem passe a ameaçar-se a si mesmo com a insaciabilidade que o vai caracterizando. Se uma pessoa tiver um estilo de vida saudável e tiver atividade física e intelectual consistentes, as competências cognitivas não diminuirão com a idade, podendo até atingir o seu pico entre os 80 e os 90 anos. Claro que é preciso continuar a evoluir – aprender novas atividades, música, pintura, dança, … interessar-se pela vida, encontrar-se e conversar com amigos, fazer planos para o futuro, viajar, ir a espetáculos, não se calar e não ficar só, pensar quantas coisas boas ainda estão diante de si.

A OMS há muito que considera que a saúde é um estado de bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença. Qual contradição. Esta entidade prepara-se agora para que, toda a pessoa, ao fazer 60 anos, veja alguma destas dimensões mágica e obrigatoriamente “amputada” por apenas um dia de calendário.

É preciso falar disto. Será que ainda vamos a tempo de impedir que assim aconteça?

Não sei, mas trata-se de um assunto demasiado sério, pois grande parte da nossa população corre o risco de se deitar saudável a 31 de Dezembro de 2021 e acordar doente a 1 de Janeiro do ano imediatamente a seguir, apenas porque sim.

É urgente: quem pode fazer alguma coisa para travar esta desenfreada brutalidade humana que, se avançar, deverá tornar-se endémica em todo o planeta?

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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