
“Os velhos foram banidos do palco da pandemia, como se fosse ofensivo tratá-los deste modo, como se ser velho fosse uma vergonha ou uma doença.” Foto © Miguel Veiga
A pandemia, que no início alguns optimistas prognosticavam ser um fenómeno de pouca duração, cada vez mais se nos apresenta como uma mudança de paradigma, uma ruptura com um modo de ser, de pensar e de agir que entendíamos ter sido definitivamente conquistado, sem suspeitarmos que pudessem ser postos em causa modelos de relacionamento, de vivências, de valores ou mesmo de linguagem. Mas, de facto, a nossa relação com os outros passou a ser de desconfiança, encarando-os, mesmo aos mais próximos, como possíveis portadores de vírus, perante os quais a primeira atitude é de resguardo e precaução, eliminando o toque e o abraço.
Nas vivências do quotidiano os noticiários substituíram as telenovelas, tendo como cenário mais comum os centros de vacinação e os hospitais. E os vários canais de televisão alimentam o nosso masoquismo, oferecendo-nos um show permanente de braços, gordos, magros, descarnados, de diferentes cores e consistência, onde milhares de agulhas se vão espetando numa repetição que cria nos não vacinados o desejo de que chegue a sua vez, crescendo a angústia pela ausência de informação quanto ao dia, a hora ou o tipo de vacina que lhes caberá em sorte.
Diariamente assistimos a uma telenovela de episódios sempre iguais, onde duas personagens nos informam e aconselham, assessoradas por uma figura de negro a gesticular para quem não ouve. A saúde passou à categoria de valor determinante e, como escreve o filósofo Byung-Chul Han, a sociedade covídica apresenta-se obcecada pelo horror à dor, uma atitude a que ele chama “algofobia”, classificando-a como “negatividade por excelência” pelo facto de esquecer a condição humana.[1] E também a nossa linguagem se alterou, inventando novos vocábulos ou dando primazia a outros, caídos em desuso, como é o caso do termo “idoso” que definitivamente erradicou a palavra “velho.”
Os velhos foram banidos do palco da pandemia, como se fosse ofensivo tratá-los deste modo, como se ser velho fosse uma vergonha ou uma doença, esquecendo-nos de que a velhice, tal como todas as etapas da vida, deve e pode ser fruída naquilo que tem de bom. Melhor do que ninguém, os filósofos reconheceram-no, desde a Antiguidade aos nossos dias. Exemplificamo-lo com Platão que considerou a velhice uma etapa feliz, da qual importa tirar dividendos. Na sua República, ao apresentar-nos o diálogo entre Sócrates e Céfalon (I, 327-328), fala-nos da relação entre o enfraquecimento dos prazeres corporais e o crescimento das alegrias do espírito. Ao responder à questão do filósofo, que o interroga sobre o modo como encara a sua idade provecta, Céfalon elogia a tranquilidade e a satisfação experimentadas quando se libertou das exigências do desejo.
Séculos mais tarde, Montaigne retoma o tema da velhice com o mesmo olhar de um calmo agrado. No ensaio intitulado “Todas as coisas têm o seu tempo”, o filósofo francês confessa-se aliviado pelo facto de a idade lhe diminuir os desejos e inquietações que o perturbavam na juventude. E por isso congratula-se de, enquanto velho, não mais se preocupar com sonhos de riqueza ou de grandeza, entregando-se ao estudo e dele fruindo.[2] É a velhice que nos prepara diariamente para a morte e nos faz aceder plenamente à filosofia. Por isso ele deu a um dos seus ensaios o título “Que filosofar é aprender a morrer”.[3]
Na nossa era destaco o testemunho de Martha Nussbaum, no seu livro Aging Thoughtfully.[4] Nele a filósofa elogia os benefícios que os anos nos trazem e sublinha a multiplicidade de modos de envelhecer, o que nos impede de falar genericamente de velhice. Congratula-se com o facto de continuar a leccionar depois da idade “oficial” da aposentação e critica a discriminação positiva dos “idosos” como se estes voltassem a ser crianças. Para ela, o corpo próprio deve valorizar-se em todas as idades. Por isso é avessa a discriminações positivas e a olhares condescendentes (patronizing).
Por estar em sintonia com a perspectiva desta filósofa sugiro que se evite o termo delicodoce de “idosos”, com a consciência de que ser velho é um período natural da vida humana que merece ser vivida em plenitude, sem proteccionismos linguísticos ou de qualquer outra espécie. Só deste modo a velhice será plenamente assumida e dignificada.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.
[1] Byung-Chul Han, A Sociedade Paliativa, Lisboa, Relógio D’Água, 2020, p. 12.
[2]“Toutes choses ont leur saison”, Essais, Paris, Classiques Garnier, 1941, livro II, cap. XXVIII, p. 423.
[3] Ob. cit., livro I, cap. XX, p. 81.
[4] Martha Nussbaum & Saul Levmore, Aging Thoughtfully. Conversations about Retirement, Romance, Wrinkles & Regret, Oxford University Press, 2017.










