Vem Espírito Santo e renova a face da Igreja

| 30 Mai 20

Em abril de 2013, nas Jornadas de Teologia da Caridade, subordinadas ao Tema “A força evangelizadora da caridade”, promovidas pela Cáritas Espanhola, em Salamanca, conheci, ao tempo, o arcebispo de Tânger, Santiago Agrelo Martínez. Fiquei fascinado pela profundidade do seu pensamento, pela simplicidade no trato e pela suas coragem e clarividência pastorais.

Antes de ser escolhido para a missão de bispo, foi frade da Ordem Franciscana, tendo exercido vários cargos nesta congregação religiosa, em Espanha, para além de ter lecionado em escolas superiores de Teologia e sido pároco. Em 2019, deixou o governo da diocese.

Apesar das várias diligências que fiz, nunca consegui que viesse a Portugal apresentar o seu pensamento sobre a prática da caridade cristã em contexto inter-religioso. Com efeito, nas referidas Jornadas deu testemunho de como conseguia alcançar uma convivência cooperante entre os seus 2.500 diocesanos, dos quais 15 eram sacerdotes, integrados em sete paróquias com a grande maioria de muçulmanos.

Desde esse encontro, tenho mantido um contacto frequente com o arcebispo Santiago Martinez. Todas as semanas envia-me o texto da homilia que utiliza no domingo seguinte. São breves, formativas e iluminadoras das realidades terrestres a nível local e mundial. No contexto da celebração litúrgica do Pentecostes, decidi partilhar preocupações e desejos que me invadem, aproveitando alguns trechos de uma carta pastoral que ele escreveu. Uma carta, diz, nascida do afeto aos diocesanos e da sua preocupação de que a vida da Igreja Católica “seja cada vez mais iluminada pela luz do Espírito de Jesus, e sempre seja recriada pela força do seu amor”.

O arcebispo emérito de Tânger faz uma relação entre o acontecimento, pós-pascal, ocorrido no Cenáculo e o da Anunciação. Escreveu ele: “(…) Igreja, amada do Senhor, como se fosses tu quem estivesse a viver uma particular anunciação, como se fosses uma imagem viva de uma inesperada maternidade humanamente impossível.” Preocupa-me que a rigidez de algumas normas canónicas, desfasadas do espírito evangélico, não permitam que a Igreja seja um “útero” prenhe de amor, onde se gera vida em abundância (cf. Jo 10,10) e faz da misericórdia o “líquido amniótico” para defender e proteger os mais débeis em qualquer dimensão da vida. Desejo, por isso, uma Igreja que não se deixe aprisionar por calculismos, mas aceite a intervenção do Espírito Santo que, inesperadamente, sopra onde quer, da forma que quer, em quem quer.

O arcebispo refere-se à surpresa que o Espírito Santo suscitou na jovem Maria de Nazaré como algo que acontece frequentemente à Igreja: “Surpreendidas, Ela e tu, porque Deus olha para vós, porque conhece a vossa pequenez; surpreendidas ficastes, porque o céu vos saúda com uma mensagem de alegria; surpreendidas vos vedes, porque tudo tem para vós um sabor a pura gratuidade.” Como gostaria de ver a Igreja ainda mais disponível para reconhecer e aceitar as suas fragilidades e apresentar-se ao mundo com firmeza no que é o essencial da Boa Notícia que foi enviada a anunciar com alegria e não com cinzentismos desmotivadores. A Igreja a reforçar a sua missão profética, sem se deixar seduzir pela cultura monetarista e pela ambição do poder, mas a praticar e a difundir os testemunhos de muitos dos seus membros que optam por estilos de vida sóbrios e se dão com total gratuidade, colocando-se ao serviço da construção de um novo modelo civilizacional, alicerçado no amor. Anseio que a Igreja tenha maior consciência de que “se não existir para servir, não serve para nada”.

Referindo-se, de novo, à Igreja, o arcebispo afirma: “Tu levas na garganta o grito dos pobres, nos lábios o seu clamor por justiça, em sua alma as lágrimas pelo sofrimento.” Preocupa-me uma certa timidez, que predomina em muitos membros da Igreja, na opção pela defesa das pessoas sujeitas a variadas formas de opressão, colocando-as apenas nas suas preces que não chegam a transformar-se em compromisso pela construção da justiça e da vivência da caridade que não se reduza à esmola, mas seja verdadeiramente libertadora. Inquieta-me que a Igreja corra o risco de tornar a “opção preferencial pelos pobres” numa mera figura de estilo piedoso, sem investir numa prática pastoral que o demonstre sem equívocos.

Quase a terminar a sua carta, o arcebispo Santiago diz à Igreja diocesana que lhe estava confiada: “Tu és chamada a entender todas as línguas, todos os gestos, todos os sinais, e sabes que homens e mulheres do mundo velho, consumidos pela confusão, hão-de entender a tua voz que os convoca a um mundo novo, no qual a confusão será anulada pelo fogo da caridade.” Neste sentido, entristecem-me os fundamentalismos, de qualquer orientação, que existem no seio da Igreja. Os que se batem ferozmente por ideias e procedimentos secundários e não se abrem ao diálogo na busca do essencial da fé que professam. Os que lançam o fogo destruidor da inveja e da maledicência e não o que arde os corações em chamas de amor compassivo e acolhedor.

Vem Espírito Santo e renova a face da Igreja.Vem e inunda o meu ser; abana a minha fé para que não seja alienante; fortalece a minha esperança de modo a que seja arauto da justiça e da paz; faz-me arder em caridade verdadeira que me leve a dar a vida pelos meus irmãos. Renova-me, porque também eu pertenço à Igreja.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Cáritas Portuguesa  

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