Leituras de Páscoa (7)

“Vem Para Fora”

| 30 Mar 2024

Nas últimas semanas, o 7MARGENS publicou um “Diário de Caminho” de Cláudio Louro, como peregrino de Santiago, e iniciámos a publicação do “Diário de um jejuador”, da autoria de Khalid Jamal, como propostas para a reflexão a propósito de tempos fortes para os cristãos (a Quaresma) e para os muçulmanos (o Ramadão) respectivamente. Hoje, 28 de Março, os cristãos celebram Quinta-Feira Santa, o início do Tríduo Pascal que culmina no Domingo de Páscoa.

Tendo em conta a centralidade e importância da Páscoa no calendário cristão (os ortodoxos celebram-na, este ano, apenas no início de Maio, uma vez que seguem o calendário juliano), o 7MARGENS pediu a colaboração de duas editoras, Editorial AO e Paulinas, no sentido de podermos publicar excertos de algumas obras que ajudem à reflexão para e sobre estes dias, sempre na relação com o tempo histórico que estamos a viver. Em resultado da escolha feita, aqui reproduziremos diariamente excertos de dois livros, até Domingo, agradecendo desde já a disponibilidade das editoras para esta iniciativa.

 

 Um livro (também) sobre a amizade 

 

Este livro é também sobre a amizade. Terça-feira passada, dia 26, na apresentação do seu livro na livraria Paulinas, em Lisboa, através de uma sessão vídeo, o padre jesuíta James Martin referia a amizade como um tema importante da vida cristã e do seu livro Vem Para Fora, que acaba de ser editado em Portugal. “Ocorreu-me tocar nesse ponto a partir da frase ‘Lázaro, aquele que amas, está doente’”, afirmou Martin, a propósito do que Marta diz a Jesus, quando o procura para lhe dar a notícia da morte do irmão. “Os dois teriam uma relação muito próxima”, acrescentou. “Marta fala com Jesus de forma directa, até áspera”, o que acontece só quando “temos proximidade com as pessoas”. Explorando a história daquele que é visto como o maior milagre de Jesus – a ressurreição de Lázaro dos mortos – o livro funde exegese bíblica com reflexões diferenciadas sobre a história de Lázaro, representada na cultura mais ampla da arte, da literatura, do cinema. Sendo um livro de exegese bíblica, não se esgota aí, propondo uma reflexão sobre o que cada pessoa acredita que pode ter aconbtecido, a partir da história narrada no Evangelho de João; a forma como isso se relaciona com a vida de cada um(a); a experiência da visita ao túmulo de Lázaro; e o que Jesus quer dizer quando chama cada pessoa a «levantar-se».

 

 

Uma história passo a passo

 

Sebastiano del Piombo (c. 1485-1547), A Ressurreição de Lázaro (pormenor): a razão pela qual, mais de dois mil anos depois, os peregrinos ainda visitam Al Eizariya. Imagem reproduzida via Wikimedia Commons

 

Nos dias de hoje a cidade é conhecida pelo seu nome árabe, transliterado com ligeiras variações por El Azariyeh, Al Eizariya, El Azariya ou simplesmente Azariya. Significam a mesma coisa: «o Lugar de Lázaro». Ao tempo de Jesus, a cidade – agora em território palestiniano, fora de Jerusalém – respondia pelo nome grego Bēthania; em português, Betânia.

É o local daquela narração evangélica que ficou conhecida como Ressurreição de Lázaro, na qual Jesus ressuscita dos mortos um homem chamado Lázaro, encerrado no seu túmulo há já vários dias. Antes da sua morte, o homem morava com as suas duas irmãs, Marta e Maria, numa casa comum em Betânia, onde Jesus costumava descansar do seu atarefado ministério público na vizinha Jerusalém. A história de Lázaro – que é também a história das suas irmãs e a história de Jesus – é a razão pela qual, mais de dois mil anos depois, os peregrinos ainda visitam Al Eizariya. É também a razão deste livro. (…)

Este livro é uma meditação sobre o que aconteceu há dois mil anos em Al Eizariya. Espero conduzir-vos através da história da ressurreição de Lázaro, tal como é narrada no Evangelho de João (o único Evangelho em que ela surge), e refletir sobre o que ela nos poderá dizer hoje – sobre o amor, a amizade, a família, a fé, a oração, a tristeza, a frustração, o medo, a raiva, a liberdade, a alegria, a esperança, a morte e a vida. Globalmente, creio que a história de Lázaro pode ajudar-nos a abandonar tudo o que nos impede de nos aproximarmos de Deus, a experimentar novas formas de viver e, acima de tudo, a experimentar uma nova vida. A sua história pode ajudar-nos a refletir mais profundamente sobre as formas como Jesus nos liberta de tudo aquilo que nos mantém presos, de tudo aquilo que nos mantém sem liberdade, de tudo aquilo que nos impede de caminhar para a luz do sol. A história de Lázaro ajuda-nos a compreender o que significa ouvir Deus dizer-nos: «Vem para fora!»

Pretendo combinar análises do texto bíblico, intuições espirituais retiradas de cada passagem, factos sobre o cenário histórico da narrativa e imagens de Lázaro na cultura, num sentido mais abrangente, com reflexões sobre experiências da minha própria vida, para ajudar-vos a entrar mais profundamente nesta história e, acima de tudo, ajudar-vos a nela encontrar Deus. É um convite para a vida de Lázaro, para o seu túmulo e para uma nova vida.

Percorreremos a história passo a passo, demorando-nos em determinadas palavras, frases e temas específicos para vos ajudar a compreender melhor a sua mensagem. Com a óbvia exceção da Paixão, é a mais longa narrativa contínua do Evangelho de João e, como veremos em breve, é narrada com aquilo que o estudioso bíblico C. H. Dodd chama «incomum elaboração de detalhes». Farei referência a comentários bíblicos e trarei à colação ideias de alguns estudiosos contemporâneos do Novo Testamento, e até usarei, muito de quando em vez, um pouco de grego. Mas não é preciso ser-se um académico para me acompanhar.

 

Trabalho e oração, esperança e desespero, antissemitismo e mulheres

 

Lázaro

Peregrinos a caminho do túmulo de Lázaro: “ver coisas que nos podiam escapar”. Foto © James Martin, reproduzida no livro.

 

Porquê desfiar esta história, passagem a passagem, por vezes, frase a frase? Porque uma «close reading», como lhe chamam os académicos, do maior milagre de Jesus pode ajudar-nos a ver coisas que de outro modo nos poderiam escapar, caso nos limitássemos a concentrar simplesmente na mensagem geral da passagem. Se ouvirmos esta leitura pregada durante um funeral (onde, por razões óbvias, é presença frequente), ouviremos qualquer coisa acerca do poder de Jesus sobre a morte e, se tivermos sorte, a capacidade que aquelas duas irmãs revelaram para a honestidade com Jesus sobre a sua frustração e a sua fé.

Mas a narrativa tem muito mais para oferecer. Enterradas (sem qualquer trocadilho) nesta história estão ideias sobre a amizade e sobre o amor, sobre o trabalho e sobre a oração, sobre a esperança e sobre o desespero, bem como sobre tópicos mais específicos, como a trágica história do antissemitismo e do antijudaísmo, e o papel das mulheres na igreja primitiva. Uma «close reading» revelará igualmente algumas surpresas sobre esta passagem do Evangelho, de outro modo, simplesmente, familiar, particularmente no que respeita a quem realmente era Lázaro. Sejamos claros: falarei sobre o que aconteceu a Lázaro e às suas irmãs, do ponto de vista da fé. Aceito a palavra de Jesus e acredito que Ele é a «Ressurreição e a Vida», mas não é imprescindível ser-se um cristão devoto para se juntarem a mim nesta jornada. Basta abrirmo-nos a esta história transformadora e confiarmos que Deus poderá usá-la para nos libertar de tudo o que nos mantém presos, do mesmo modo que Deus a usou para me libertar a mim e a inúmeros outros cristãos.

Usaremos contributos dos estudos bíblicos contemporâneos, mas também vos convidarei a verem as coisas de um ponto de vista mais «espiritual». Tal como no meu livro anterior, Jesus: um encontro passo a passo, cada um dos capítulos incluirá algo de estudo bíblico, um pouco de reflexão espiritual e um pouco de narrativa de viagem.

O principal objetivo deste livro não é transformar-vos em estudiosos do Novo Testamento, nem em especialistas na topografia de Al Eizariya. É ajudar-vos a encontrar Deus, que deseja oferecer-vos uma vida nova, particularmente, através deste trecho evangélico. A Bíblia é frequentemente referida como a «Palavra Viva», e somos convidados a encontrar Deus sempre que lemos, ouvimos ou meditamos a Bíblia. No final de cada capítulo, deixo questões para reflexão que talvez ajudem a sublinhar e a convidar-vos a explorar a importância espiritual do que tivermos acabado de analisar.

Ressurreição. Lázaro

Peregrinos à porta do Túmulo de Lázaro, Al Eizariya, Israel: “algo dentro de vós vos fez desejar ler um livro sobre Lázaro.” Foto © James Martin, reproduzida no livro.

 

O lugar de Lázaro na cultura cristã de todo o mundo fará também parte da nossa jornada. Veremos as várias lendas sobre o que aconteceu, depois de Lázaro ter ressuscitado dos mortos (terá sido assassinado na Judeia? Fugiu para a França com as suas irmãs? Ou para Chipre?), as catedrais que afirmam ter as suas relíquias, as celebrações litúrgicas, nas igrejas orientais, chamadas Sábado de Lázaro (com alguns incomuns produtos culinários com o tema de Lázaro) e uma ordem religiosa a ele dedicada com uma história fascinante.

Refletiremos também sobre o que as diversas representações artísticas do homem – nas artes plásticas, na literatura e na poesia, bem como em romances, peças de teatro e filmes – conseguem dizer-nos do seu perene apelo. Num determinado momento, Lázaro acabou por morrer, depois de ter ressuscitado dos mortos (explorarei esta ideia mais tarde), mas, de certa forma, ele manteve-se vivo durante todos estes anos na cultura religiosa e popular.

Também vos convido a pensar na leitura deste livro como uma resposta a um apelo. Poderá parecer estranho, mas algo dentro de vós vos fez desejar ler um livro sobre Lázaro. Poderão ter adquirido este livro por vários motivos. Talvez já tivessem lido previamente a história de Lázaro e pensado que ela exerce uma qualquer atração sobre vós, um apelo que talvez não entendam completamente. Talvez alguém próximo tenha morrido e tivessem pensado como seria ter essa pessoa de volta à vossa vida. Talvez de alguma forma anseiem por uma «nova vida». Ou talvez tenham lido alguns dos meus outros livros e se tenham perguntado: «Porque é que ele se concentrou agora em Lázaro?» Ou talvez tenham simplesmente gostado da imagem da capa!

Quaisquer que fossem as razões, dentro de vós há um desejo de saber mais sobre a história de Lázaro. Convido-vos a ver nisso não uma mera curiosidade, mas uma maneira de Deus trabalhar em vós. Encorajo-vos a confiar que o vosso desejo de saber mais sobre Lázaro e de experimentar uma nova vida é um convite de Deus, um chamamento. Pois, de que outra forma Deus vos desafiaria a experimentar uma nova vida, senão plantando esse desejo dentro de vós? O vosso desejo de saber mais sobre Lázaro e de experimentar uma nova vida é o desejo de Deus dentro de vós. Ao ler este livro, portanto, estejam cientes das maneiras pelas quais Deus nos chama. Observem o que consideram interessante, o que mais vos agrade e o que vos surpreenda ou cause repulsa. O que é que Deus está a pedir que observeis? Que reflitais? Que façais, com base no que descobristes? Considerai a leitura deste livro não apenas uma conversa entre nós, mas, muito mais importante, entre nós e Deus.

 

Entrando no túmulo

 

James Tissot (1836-1902), A Ressurreição de Lázaro (Brooklyn Museum): a pintura mostra, com notável precisão, a disposição real da tumba em Al Eizariya. Imagem reproduzida via Wikimedia Commons.

 

Todos os anos, na peregrinação à Terra Santa, realizada pela America Media, a visita ao Túmulo de Lázaro, que ocorre no primeiro dia da nossa estadia em Jerusalém, revela-se um momento poderoso para muitos peregrinos. Antes ainda de chegarmos, convidamos os peregrinos a pensarem naquilo que mais gostariam de «deixar» no túmulo. Que rancor, ressentimento ou memória dolorosa gostariam de «deixar morrer» ali? Em que áreas da sua vida é que mais desejam ouvir Jesus dizer-lhes «Vem para fora!» e convidá-los para a luz? Em que áreas da sua vida é que mais precisam de experimentar uma nova vida?

Os peregrinos sentem-se muitas vezes inquietos, desafiados e inspirados pela convergência destes fatores: o drama da história do Evangelho; o cenário em território palestiniano desconhecido; o desafio físico de descer uma escada escorregadia; o medo de entrar num espaço escuro, antigo e desconhecido; e o desejo quase universal de deixar para trás algo de doloroso. Muitas vezes, os peregrinos têm medo de descer. Mas, geralmente, acabam por ficar lá por mais tempo do que esperavam. Alguns saem em lágrimas.

Há alguns anos, fiquei à porta com alguns para ajudar as pessoas a saírem do túmulo, oferecendo-lhes a minha mão para segurá-las, enquanto subiam os últimos degraus e cruzavam a soleira. É necessário baixar a cabeça para sair pela porta.

Um homem agarrou a minha mão ao sair: «Sair do túmulo é difícil! – disse ele. – Mas entrar também!»

 

Vem para Fora! A promessa do maior milagre de Jesus, James Martin, SJ
344 pág., Paulinas Editora

 

Catarina Pazes: “Sem cuidados paliativos, não há futuro para o SNS”

Entrevista à presidente da Associação Portuguesa

Catarina Pazes: “Sem cuidados paliativos, não há futuro para o SNS” novidade

“Se não prepararmos melhor o nosso Serviço Nacional de Saúde do ponto de vista de cuidados paliativos, não há maneira de ter futuro no SNS”, pois estaremos a gastar “muitos recursos” sem “tratar bem os doentes”. Quem é o diz é Catarina Pazes, presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) que alerta ainda para a necessidade de formação de todos os profissionais de saúde nesta área e para a importância de haver mais cuidados de saúde pediátricos.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Bahá’ís plantam árvores em Lisboa, para que a liberdade religiosa floresça em todo o mundo

Em memória das "dez mulheres de Shiraz"

Bahá’ís plantam árvores em Lisboa, para que a liberdade religiosa floresça em todo o mundo

Quem passar pela pequena zona ajardinada junto ao Centro Nacional Bahá’í, na freguesia lisboeta dos Olivais, vai encontrar dez árvores novas. São jacarandás e ciprestes, mas cada um deles tem nome de mulher e uma missão concreta: mostrar – tal como fizeram as mulheres que lhes deram nome – que a liberdade religiosa é um direito fundamental. Trata-se de uma iniciativa da Junta de Freguesia local, em parceria com a Comunidade Bahá’í, para homenagear as “dez mulheres de Shiraz”, executadas há 40 anos “por se recusarem a renunciar a uma fé que promove os princípios da igualdade de género, unidade, justiça e veracidade”.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This