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“Vemos, ouvimos e lemos…”

“Vemos, ouvimos e lemos…”

by | 20 Mar 20

Num tempo de medo e de incerteza pela ameaça do novo coronavírus, importa não perder a cabeça fria. Com afirmou José Gil há dias, a lição que estamos a ter deve preparar-nos para o tema da salvaguarda do Planeta e da Humanidade. A exortação apostólica pós-sinodal do Papa Francisco é, assim, de leitura obrigatória. O certo é que neste documento, dirigido ao Povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade, encontramos pistas muito importantes para o mundo contemporâneo e para lermos os novos sinais dos tempos.

Importa ler com atenção tudo, já que a superficialidade é inimiga da compreensão. Antes do mais, o Papa Francisco apresenta-nos os sonhos para a Amazónia (que devemos estender à Humanidade), que devem estar bem presentes, em ligação estreita com o que lemos nas encíclicas Caritas in Veritate e Laudato Si’. De facto, há um apelo forte à inteligência e à compreensão das Bem-Aventuranças – bem evidente nos quatro sonhos do Papa: social, cultural, ecológico e eclesial: “Sonho com uma Amazónia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida. Sonho com uma Amazónia que preserve a riqueza cultural que a carateriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana. Sonho com uma Amazónia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas. Sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazónia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazónicos.”

Não é só a Amazónia que aqui está em causa, mas a sociedade humana. E o Papa Francisco lembra que “antes da colonização, os centros habitados concentravam-se nas margens dos rios e lagos, mas o avanço da colonização expulsou os antigos habitantes para o interior da floresta. Hoje, a crescente desertificação obriga a novas deslocações de muitos, que acabam por ocupar as periferias ou as calçadas das cidades por vezes numa situação de miséria extrema, mas também de dilaceração interior devido à perda dos valores que os sustentavam.

Neste contexto, habitualmente perdem os pontos de referência e as raízes culturais que lhes conferiam uma identidade e um sentido de dignidade e vão alongar a fila dos deserdados. Assim interrompe-se a transmissão cultural duma sabedoria que, durante séculos, foi passando de geração em geração. As cidades, que deveriam ser lugares de encontro, enriquecimento mútuo e fecundação entre diferentes culturas, tornam-se palco duma dolorosa injustiça” (30). Deste modo, “para cuidar da Amazónia, é bom conjugar a sabedoria ancestral com os conhecimentos técnicos contemporâneos”, procurando sempre “intervir no território de forma sustentável, preservando ao mesmo tempo o estilo de vida e os sistemas de valores dos habitantes»” (51).

Eis que a aprendizagem deve fazer-se ligando a sabedoria ancestral e o progresso científico. Pôr as pessoas em primeiro lugar obriga a entender as diferenças e a capacidade de troca e de enriquecimento mútuo. A dimensão religiosa e eclesial terá, assim, de considerar a força dos valores espirituais e das suas raízes, nas condições concretas da vida. A dignidade humana não é uma abstração. E as comunidades não podem ser deixadas ao abandono ou na indiferença. “Os Sacramentos mostram e comunicam o Deus próximo que vem, com misericórdia, curar e fortalecer os seus filhos.

Por isso, devem ser acessíveis, sobretudo aos pobres, e nunca devem ser negados por razões de dinheiro. Nem é admissível, face aos pobres e abandonados da Amazónia, uma disciplina que exclua e afaste, porque assim acabam marginalizados por uma Igreja transformada numa alfândega.” Pelo contrário, “nas situações difíceis em que vivem as pessoas mais necessitadas, a Igreja deve pôr um cuidado especial em compreender, consolar e integrar, evitando impor-lhes um conjunto de normas como se fossem uma rocha, tendo como resultado fazê-las sentir-se julgadas e abandonadas precisamente por aquela Mãe que é chamada a levar-lhes a misericórdia de Deus”. Segundo a Igreja, “a misericórdia pode tornar-se uma mera expressão romântica, se não se manifestar concretamente no serviço pastoral” (84).

Daqui resulta, por exemplo, que as mulheres devem ter “uma incidência real e efetiva na organização, nas decisões mais importantes e na guia das comunidades, mas sem deixar de o fazer no estilo próprio do seu perfil feminino” (103). E há dias, na homenagem justíssima que teve lugar no ISEG a Manuela Silva, a Querida Amazónia foi lembrada através das Bem-aventuranças que tantas vezes invocava: “Felizes os que reconhecem o Amor na sua vida e acreditam n’ Ele, porque só o amor é gerador de vida. Felizes os que vivem o dom da confiança, porque possuem, em permanência, uma fonte de serenidade. Felizes os que estão atentos aos sinais portadores de futuro, porque são construtores do Reino de Verdade, de Justiça e de Paz. Felizes os que cuidam da Criação, porque tomam parte na Obra criadora de Deus. Felizes os que têm um coração compassivo, porque suavizam a vida. Felizes os que se deixam conduzir pelo Espírito, porque conhecerão a liberdade interior….”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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