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[Entre Margens]

Vencer a tentação de desesperar da humanidade

 

A Páscoa sempre ocorre na primavera, quando a natureza revivesce, diante dos nossos olhos deslumbrados. O hálito criador que transfigura a nudez das árvores em vida renascida também se percebe na energia com que muitos apostam na possibilidade de se rasgarem caminhos de luz nas espessas nuvens dos invernos deste mundo. Torga serve-se de uma imagem esclarecedora, para nos prevenir que este esforço não está desprovido de incertezas: «todo o semeador/Semeia contra o presente./Semeia como vidente/A seara do futuro,/Sem saber se o chão é duro/ E lhe recebe a semente».

Não obstante a história humana sempre ter sido marcada por forças de desumanização e de violência, nela floresceu uma pulsão de vida, que nenhum poder opressor conseguiu estrangular. Com o olhar da fé, cabe aos cristãos anunciar que a luz da aurora da Páscoa também envolve o latejar da respiração do eterno a iluminar o caminhar da humanidade. Trata-se, contudo, de uma luz que se manifesta numa tensão entre momentos de presença resplandecente e experiências de ausência e de trevas. O Ressuscitado, por vezes, também se mostra ao esconder-se, como nos recorda o poema de São João da Cruz, proclamando a «luz toda que já é vinda, embora seja noite». Num interessante texto ensaístico de Eduardo Amaral, publicado no último número da Brotéria, sobre a obra de Jon Fosse, Nobel da Literatura de 2023, transcreve-se esta importante advertência do autor premiado: «Creio que se chega mais perto de Deus no calar que no falar, no silêncio do que na conversa» (Misterio y Fe, Debate, 2025, p.14). Os sinais da exterioridade festiva da Páscoa ganham mais autenticidade quando temperados por um silêncio contemplativo, sem superficialidades ruidosas.

Celebramos esta Páscoa, quando no horizonte se adensa o alastrar das nuvens negras da guerra, obrigando-nos a estar despertos para os grandes perigos que nos ameaçam. A fé na ressurreição não assegura a tranquilidade do otimismo imponderado de quem se refugia numa espiritualidade de bem-estar, mas dá-nos o atrevimento de confiar que «a morte tem o seu tempo». Ela é só passagem, porque a última palavra pertence à vida. Confrontamo-nos com a inevitabilidade da morte, mas, como lembrou recentemente o Papa Leão XIV, «da ressurreição brota a esperança que nos faz saborear, apesar das dificuldades da vida, uma calma profunda e jubilosa: esta paz sem fim que só Ele nos dará no fim» (Audiência geral de 15 de outubro). A experiência pascal ajudará a habitar de outro modo os problemas sombrios da vida, como aconteceu aos discípulos, quando Cristo ressuscitado franqueou as portas fechadas dos seus corações dubitativos e atemorizados.

A Páscoa é mais envolvente do que a sua coisificação em celebrações litúrgicas ou na frieza de definições dogmáticas, divorciadas da vida real do mundo. A proclamação deste «dia novo» só será anúncio de luz penetrante se for «transformado pelo modo como apoio este dia no chão» (Daniel Faria, Poesia, Assírio & Alvim, 2021, p.192).

Os que acreditam que os esforços por um mundo mais humano e feliz não se perderão no vazio veem bocados de Páscoa a germinar em toda a insurreição contra a fatalidade da morte e do ódio. Muitos nos rotularão de ingénuos, mas fora desta ousadia, mais não faremos do que vegetar na condição de cidadãos tributáveis, que se limitam a ter «por vida a sepultura», como lamenta Fernando Pessoa na sua Mensagem. Não esperar nada é começar a morrer em vida.

 

Manuel António Ribeiro é professor aposentado e faz voluntariado na docência de português para imigrantes e refugiados. É membro do Metanoia e animador de catecumenado de adultos na Igreja Católica.

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