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Vendo o presente e construindo o futuro

| 25/07/2020

Vendo o presente e construindo o futuro

by | 25 Jul 20 | Entre Margens, Sociedade, Ăšltimas

Nesta “estação de pandemia” parece estarmos em descensão, reconquistando, pouco a pouco, uma “nova normalidade”. Com prudência, para continuar a vigiar a extensão do vírus, mas afirmando e confiando na responsabilidade de cada um e de todos na gestão da sua saúde e da saúde da comunidade, sem discriminação pela idade e respeitando a autonomia pessoal, que não é outra senão a capacidade de cumprir com as próprias obrigações morais.

Aprendemos muito nestas semanas. Coisas boas, provavelmente. Também coisas que devem ser melhoradas e que todos devemos assumir:

Somos todos vulneráveis. Provavelmente, uns mais do que outros. Alguns reclamam que as suas necessidades sejam atendidas de uma maneira diferenciada. Há pessoas que têm sérias dificuldades para serem reconhecidas como sujeitos de direitos; também de direitos à assistência sanitária, à casa, à educação e à liberdade de decidir. Que não valem fórmulas simples para realidades complexas. Que tratando todas as pessoas do mesmo modo, falta-se à equidade e ao reconhecimento de que a igual dignidade merece igual estima e consideração, mas nem sempre o mesmo procedimento.

Saúde. Que a saúde é mais que biologia mecanicista individual que funciona corretamente, que é vida “auto-insuficiente” com significado, que necessita de relação e compromisso.

Pessoa toda e todas as pessoas. Que há serviços essenciais que não podem ser substituídos pelo teletrabalho, pois exigem intervenções qualificadas de cuidados que podem originar graves riscos sendo suspensos; por isso devem retomar-se quanto antes os serviços de apoio direto a pessoas com dependência e/ou deficiência, os tratamentos individualizados de tipo socio-sanitário de que necessitam adultos e menores com deficiência ou necessidades especiais, e as medidas educativas de caráter comunitário para famílias em situação de risco e pessoas com vulnerabilidade social.

Sistema ao serviço das pessoas. Que estabelecer um sistema eficaz e suficientemente dimensionado de serviços sociais, que possa preservar e enriquecer as relações e os apoios comunitários, é imprescindível, porque não podemos permitir que o próximo grande colapso seja o das instituições sociais de proximidade e de solidariedade. Que a “crise de cuidados” e o “envelhecimento das nossas sociedades”, temas dominantes nos fóruns académicos, económicos e políticos, foram neste tempo desafios que nos fizeram ver que as relações comunitárias nos ambientes naturais são indispensáveis.

Valorização do serviço às pessoas. Que há compromissos e lealdades, profissionais ou voluntários, que não se pagam com “salários”, mas com “honorários”, quer dizer com reconhecimento social a quem para além das suas obrigações legais, presta uma atenção de excelência correndo riscos, porque sabe que na relação assistencial não só se joga a dignidade da pessoa atendida (acariciada, alimentada, cuidada, educada, lavada, protegida ou tratada), mas o próprio projeto de autorrealização pessoal.

Ajudas às pessoas. Que as ajudas de emergência, beneficentes e gratuitas, numa sociedade justa, não podem nem devem ser o modo habitual de enfrentar o empobrecimento das pessoas, pelo que se deve garantir um rendimento básico a toda a cidadania que assegure mínimos de vida sadia.

Justiça. Que a justiça requer argumentação, conhecimentos, deliberação e transparência nas diferentes perspetivas, com a convicção de que qualquer olhar é sempre limitado e necessita complementar-se a partir de outras experiências, sempre contidas e subjetivas, porque a subjetividade está no olhar e não no vírus.

A vida é comunhão. Que, em qualquer momento, podemos morrer e que não é a mesma coisa morrer bem ou morrer mal, acompanhado ou isolado, porque morrer deve ser sempre “con-morrer”, como viver é sempre “con-viver”. Por isso, como sociedade, devemos reconhecer a dívida que contraímos com as pessoas que faleceram em absoluta solidão e sem se despedirem dos seus familiares. Também devemos fazer o necessário para aliviar o dano que sofreram os seus entes queridos.

A vida é um dom de Deus. Ateus ou crentes, confrontamo-nos com um misterioso vírus que, em menos de três meses, colocou o mercado financeiro em alerta, desacelerou a economia global, modificou os hábitos quotidianos, reavivou medos ancestrais e pôs em xeque os líderes do planeta. E obrigou-nos a confirmar a fragilidade humana e a disputar a sobrevivência, a sentir a necessidade do abraço e a valorizar o coletivo, a vergar-nos perante uma “mão poderosa e misericordiosa” que tudo fez e a sondar a (re)significação da vida.

 

Lino Maia é padre católico da diocese do Porto e presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS)

 

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