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Verbalizar o desejo

| 30/04/2021

Rezar de olhos abertosO jesuíta e historiador francês Michel de Certeau, estudando as práticas de oração dos monges do deserto, designa o ser humano em oração como «uma árvore de gestos». De pé diante do sol nascente como o estilista ou sentado em torno à respiração como o hesicasta, o monge apresenta o seu corpo de desejo como a oração mais pura e silenciosa, pois as palavras esgotam-se diante do mistério inapropriável. O próprio bispo João Crisóstomo, no século IV, íntimo da tradição monástica oriental, começa as suas homilias sobre o Evangelho de Mateus referindo como seria bem melhor não termos necessidade da mediação das Escrituras pois, nesse caso, a nossa vida seria de tal modo pura que os nossos corações se converteriam em escritura do Espírito.

José Tolentino Mendonça, como poeta e teólogo, conhece a relação ambivalente entre as palavras e a oração: «As palavras são a verbalização do desejo que sentimos do outro. No fundo, o que quer que digamos, dizemo-lo para avizinhar ou reter o outro perto de nós, para retardar ou desmentir a sua ausência, para dizer quanto o outro é importante para nós. A linguagem humana é, por isso, uma consequência espantosa da necessidade de relação. E o que é a oração senão isto mesmo, a construção inacabada e frágil de uma relação vital?». Em Rezar de Olhos Abertos, o Autor assume a missão de guiar o crente e a comunidade (alguns textos surgem nesse contexto) na verbalização orante, inserindo-se assim numa tradição espiritual que conhece nos Salmos a sua expressão talvez mais plena e fecunda. Não se trata de um caderno íntimo de oração agora publicado (ainda que a intimidade não seja necessariamente oposta à construção literária: pensemos no diário de oração de Dag Hammarskjöld), mesmo que por vezes o leitor seja agraciado com fragmentos que intuímos de forte densidade pessoal: «Por vezes, Senhor, é do fundo do meu esquecimento que grito por Ti». Para fecundar a relação que o exercício de leitura constitui, o Autor necessariamente se expõe: mais ainda quando se trata de pistas para a oração, esse exercício pessoal por excelência.

Ao mesmo tempo, não nos encontramos aqui com uma tradicional elaboração mais teórica ou doutrinal sobre o âmbito da oração; o breve Ingresso que acompanha os textos apresenta perguntas: «De novo: como se aprende a rezar?». A resposta é dada pelos gestos: «Há pessoas que para rezar baixam os olhos, escondem nas mãos o rosto, voltam-se para o interior. E a oração configura-se como uma imersão, um mergulho (…) Há outras pessoas, porém, que abrem esforçadamente os olhos ao rezar, que finalmente os abrem numa tentativa de olhar a vida no seu flagrante espanto, no seu rasgão dilacerante e no seu prazer vivo. Quer umas, quer outras estão certas».

Há uma estrutura poética nos 152 textos aqui propostos: a sua brevidade ou economia de palavras, as suas frases curtas… Mas, sobretudo, a atenção, que é uma dimensão vital da arte de orar: atenção aos ritmos da Natureza: «não podemos permitir que o inverno se prolongue dentro de nós»; atenção aos tempos litúrgicos: «Acorda em nós, Senhor, o desejo de um Natal autêntico»; atenção aos pormenores evangélicos: «”Não nos deixes cair em tentação”. Quantas vezes rezei este pedido do Pai-Nosso em desacordo»; atenção aos dias da semana, como a segunda-feira: «Mesmo se nos sentimos a voltar cada semana ao mesmo sítio, ensina-nos a chegar a ele por novos caminhos»; atenção a tudo o que povoa uma vida em construção, sejam os amigos – «Os que trazem, até nós, o imprevisível do teu coração, Senhor» –, sejam as lágrimas – «Deus conhece-as todas e acolhe-as como uma oração».

«A verdadeira oração cristã é aquela onde a vida está completamente comprometida. Ela atravessa, por isso, o corpo. Ela é a respiração, o grito, a interrogação, a súplica, o gesto sem palavras, a estação dilemática, o atraso, o imprevisto, as mãos cheias, as mãos vazias. Não é uma coisa mental. Não é certamente uma fórmula que se repete de forma desencarnada». Por vezes tratando a Deus por Tu, por vezes em meditação sapiencial, por vezes exortando os irmãos, numa diversidade de tons que recorda, de novo, a polifonia sálmica, Rezar de Olhos Abertos propõe ao leitor uma prática de oração, não na repetição ou fruição dos textos (passos que também fazem parte desta prática), mas na aprendizagem da sabedoria de contemplar os diversos gestos e matérias-primas que, na vida de cada crente, alimentam a sua oração.

 

Rezar de Olhos Abertos, de José Tolentino Mendonça
Edição: Quetzal, 216 páginas

 

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