“Verdade” e preconceito

| 9 Fev 21

“Em 2019, Portugal tinha 2 136 refugiados e 85 requerentes de asilo”. (Campo de refugiados sírios nos arredores de Atenas. Foto © Julie Ricard / Unsplash)

 

Permitam-me que hoje escreva como cidadã que tem dedicado a sua vida ao estudo dos fenómenos migratórios, e como mãe que deseja, como qualquer outra mãe, que o seu filho encontre um futuro menos ensombrado pelo ódio, pelo medo e pela ignorância.

Há dias, li uma breve notícia sobre o reduzido número de refugiados em Portugal (pouco mais de dois milhares). Tratava-se de uma notícia entretanto partilhada numa rede social, e vinha acompanhada de um pequeno comentário de quem fazia a partilha, bem refletido e ponderado. Até aqui, nada de especial.

Mas o que me despertou atenção foi um outro comentário em resposta àquela partilha. Um comentário que mais do que irritação, mostrava indignação, tanta quanta a violência das palavras o deixava perceber, escrito por alguém que considerava a notícia mentirosa, acusando tanto quem a escrevera como quem a partilhava e comentava, de estar a enganar os portugueses ao dizer que os refugiados no nosso país são poucos. E para corroborar a sua convicção, partilhava o link de uma notícia que falava dos quase 600 mil … imigrantes com residência legal em Portugal em 2019.

Como académica, revirei os olhos perante o disparate tremendo que é confundir refugiados com imigrantes. Mas a minha exaltação foi momentânea. Primeiro porque sei que a maioria das pessoas não é, nem tem porque ser, especialista em sociologia das migrações. Por essa razão, não tem como saber da complexidade das questões conceptuais e metodológicas que subjazem a ambos os termos. Segundo porque o verdadeiro problema aqui, convenhamos, não está na ignorância em si mesma (todos somos ignorantes sobre tudo em que não somos especialistas). O problema está em ignorar a sua própria ignorância quando o desejo de cultivar o direito à sua verdade se revela mais forte do que a obrigação (moral, diria mesmo) de questionar os seus preconceitos.

O problema, dito de outro modo, está nesta autocomplacência com a falta de rigor sobre determinado assunto, em prol da satisfação maior de defender o seu pré-juízo como sendo a lente certa para ler o mundo. No caso em apreço, isto significa que para essa pessoa que confunde refugiados com imigrantes, é-lhe em boa verdade indiferente que alguém lhe queira explicar as diferenças entre um estatuto e o outro (diferenças, diga-se, não apenas académicas, mas também factuais: em 2019, Portugal tinha 2 136 refugiados e 85 requerentes de asilo, e cerca de 590 mil imigrantes com residência legal).

A forma profundamente irada e enraivecida do seu comentário deixa claro que não está interessada em esclarecimentos, porque essa pessoa já possui a sua verdade inequívoca: a de que há demasiados estrangeiros em Portugal, a viver às custas dos empregos e dos recursos dos nacionais. Talvez se possa pedir a essa pessoa que leia por favor o Relatório Estatístico de 2020 (2020, pág. 206-7) do Observatório das Migrações, no qual se dá nota de que estes imigrantes legais que representam à volta de 6% da nossa população, trouxeram em 2019 um impacto positivo à Segurança Social na ordem dos quase 845 milhões de euros, cerca de 2,3 milhões de euros por dia.

Talvez se possa pedir-lhe que verifique que, em 2019, os imigrantes a residir em Portugal gastaram cerca de 111 milhões de euros das contas da Segurança Social, mas contribuíram com mais de 955 milhões. Talvez. Mas duvido que resulte, porque quem está sob a hipnose das suas verdades, dificilmente interrompe o seu transe para dar espaço seja ao dissenso, seja ao simples contraditório. O que significa que tanto se lhe dá que o convite ao contraditório lhe seja proposto pelo jornalismo sério, pelas evidências empíricas ou pela ciência.

Comecei por dizer que escrevo hoje como cidadã, académica e mãe. E é sobretudo como Mãe que me preocupa este tipo de ignorância, que atua não como natural ausência de saber, mas como espaço alternativo de construção e dogmatização de ‘verdades’ nascidas do preconceito (seja ele social, racial, étnico, de género, ou outro). Preocupa-me o papel que nós adultos temos na formação das opiniões e, sobretudo, na criação das lentes pelas quais os nossos filhos começam a ler o mundo.

Que autênticas possibilidades lhes damos de aprenderem a questionar o mundo e a vê-lo pelos seus múltiplos ângulos? Como podemos desejar que sejam cidadãos críticos e independentes nas suas escolhas, quando o que lhes proporcionamos como modelos é a imagem de adultos simultaneamente vítimas e instigadores de leituras preconceituosas e dogmatizadas sobre a realidade? Que janelas para o mundo lhes abrimos, quando em vez de lhes mostrar que a ignorância é apenas a porta para o saber, que a curiosidade e o estudo nos ajudam a transpor, lhes mostramos afinal a ignorância como a sala de pânico onde se resguardam os preconceitos e os medos pelos quais insistimos em ler o mundo?

 

Isabel Estrada Carvalhais é deputada pelo Partido Socialista ao Parlamento Europeu, professora associada da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho e doutorada em Sociologia.

 

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