Verdade e Vida, em Fátima: polo da renovação teológica em Portugal fecha ao fim de 57 anos

| 5 Jun 20

Este foi o “alimento cultural do país” católico durante largos anos, diz frei Bento Domingues. Foto reproduzida da página da Livraria Verdade e Vida no Facebook.

 

É uma espécie de pequena arca de vários tesouros: ali se encontravam livros de teologia que não se encontravam em mais lado nenhum, em Portugal. Foco da renovação do pensamento do catolicismo português, durante anos quase o único lugar, a Verdade e Vida, em Fátima, fechará as portas dentro de poucas semanas.

 

Entrava-se e era um convite a explorar um pequeno mundo: uma sala maior, com as novidades e obras em destaque. Depois, um curto corredor que abria para quatro salas pequenas, com os livros arrumados por temas. Entrando numa delas, encontrava-se sempre uma pequena surpresa, um autor procurado, nomes que quase não se publicam em português…

A Livraria Verdade e Vida, propriedade dos padres dominicanos, em Fátima, fechará as portas dentro de poucas semanas. Autêntica gruta do tesouro da teologia cristã em Portugal, ela “foi o alimento cultural do país, do ponto de vista católico e o polo da renovação teológica em Portugal”, diz ao 7MARGENS frei Bento Domingues, que acompanhou os primeiros anos da livraria de forma mais intensa.

Na génese da livraria, que durante anos foi a única do género em Fátima (hoje há outras três, do Santuário, da Paulus e a Difusora Bíblica, dos Franciscanos Capuchinhos, de âmbito mais específico no leque de obras que oferecem), estiveram os Cursos de Verão de Teologia, promovidos pelos dominicanos a partir da segunda metade dos anos 1950. Faziam-se exposições de livros, que as pessoas podiam comprar, recorda frei Bento, até que se resolveu avançar para o arrendamento de um espaço.

A livraria nasceria então em 1963, recuperando o nome de uma revista efémera que os dominicanos também tinham lançado ainda na década de 1940. A ideia era fazer também uma editora, que ainda publicou alguns livros.

Quer os cursos, quer a livraria, seriam pedradas no charco do catolicismo português da década de 1950. Neles, como também já recordou Bento Domingues, havia sempre um agente da PIDE, a polícia política da ditadura. Mas, muitas vezes, a conversa era tão estimulante para os relatórios que ele deveria escrever, que o agente adormecia…

Para muitos cristãos, os cursos de Verão dos dominicanos e a Verdade e Vida funcionaram, ao contrário, como despertador teológico e político. Desde finais da década de 1950, foram muitas as pessoas que descobriram uma forma de agir militante na oposição ao regime, através de livros importados pela livraria, dos cursos e encontros subsequentes e ainda de várias publicações clandestinas que começariam a surgir, como frei Bento recordava há seis anos, a propósito das lutas de grupos católicos contra o regime. A teologia assumiu-se, então, como um factor de dissensão.

 

O lugar do Concílio Vaticano II em Portugal

À Verdade e Vida chegavam as novidades da renovação teológica que se fazia no mundo e sobretudo na Europa. “Estava aberta a toda a renovação teológica que se fazia no mundo, era o lugar do Concílio Vaticano II em Portugal”, diz frei Bento.

Karl Rahner, Yves Congar, Marie-Dominique Chenu, Henri de Lubac, Hans Küng, Johann Baptist Metz e muitos outros – todos os grandes nomes da renovação teológica católica (e protestante) da segunda metade do século XX se podiam encontrar à venda na livraria. Essa intuição continuaria, aliás, nas décadas seguintes e ali era possível procurar livros de teólogos e teólogas emergentes (como Joan Chittister, Andrés Torres Queiruga ou o jesuíta Juan Masiá), além dos grandes místicos cristãos (Hildegarda de Bingen, Juliana de Norwich ou, já do século XX, Dietrich Bonhoeffer, Edith Stein, Simone Weil…). E tudo isto a par dos grandes textos dos pensadores dos primeiros séculos do cristianismo, através das colecções publicadas em Espanha e França.

Todos estes nomes se repartiam sobretudo pelas duas salas da direita: teologia contemporânea e grandes pensadores, na primeira, com muitas edições vindas dos países mais próximos – Espanha, França e Itália; edições bíblicas e comentários ao texto sagrado, bem como teólogos dos séculos fundadores, na segunda; nas salas da esquerda – todas com estantes sóbrias, espaço discreto – estavam sobretudo livros de divulgação, pastoral, catequese e edições para o público infantil.

Padres e bispos, além de muitos outros crentes, abasteciam-se na Verdade e Vida. “Era ali que se ia buscar leitura e alimento para grandes debates, a livraria era um abastecedor da renovação”, acrescenta Bento Domingues.

Os tempos mudaram. Quando nasceu a Verdade e Vida, o catolicismo português era um deserto de ideias, pensamento e criatividade. Não havia universidade católica (só apareceria em 1967), a única editora existente era a Moraes (Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen…) e, com a ditadura, quase nada mais era possível.

 

Um “património cultural intocável”

Hoje, pelo contrário, mesmo se a diversidade de pensamento e de ideias ainda não abunda, há várias editoras, iniciativas, debates e grupos diversos, uma universidade com três polos.  Alçada Baptista já se queixava que os leitores não eram muitos e hoje, se o problema subsiste na sociedade portuguesa, a concorrência e o maior número de iniciativas acabaram por aprofundar a crise que atingira a Verdade e Vida há alguns anos.

“Não há fontes de rendimento para sustentar a livraria”, lamenta frei Bento, considerando que, com as mudanças sociais, isto teria de acontecer. “Já se estava a investir para suportar os prejuízos…”

Por isso, a livraria comunicou, na loja e na sua página no Facebook: “Estimados clientes e amigos é com muita tristeza e mágoa, que informo que a ‘Verdade e Vida’ vai encerrar ao fim de 57 anos”. Num dos comentários na rede social, quase todos a lamentar o fecho da loja, uma das clientes regista: “Esta livraria devia ser considerada património cultural intocável.”

O provincial dos dominicanos confirmou também à Renascença que as dificuldades já vinham de trás: “Não tem nada a ver com a pandemia. É a crise que afectou o sector livreiro e editorial desde há uns anos”, disse frei José Nunes, adiantando ainda que a decisão não foi fácil de tomar.

Ao 7MARGENS, José Nunes diz que a data de fecho ainda não é certa, talvez lá para finais de Julho, porque há ainda questões pendentes a tratar. E à Renascença confirmava: “Claro que nos enche de tristeza, porque esta era uma obra nossa e temos consciência de que desenvolveu um papel muito importante aqui em Portugal ao serviço da Igreja e, sobretudo, da teologia. Esta livraria foi única, de facto.”

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