“Verdades” dos mitos: rituais de donzelar

| 23 Jul 20

“Eu herdo a tríplice dimensão axiológica possível desses objectos:
a consumística-mercantil, a ritual-simbólica, a estética-formal. […]
Este é o questionamento fundamental de todo o processo educativo
e é o paradoxo da educação em Moçambique:
com que valores educar e para que sociedade?
(Severino Ngoenha, in Estatuto e axiologia da Educação. Maputo: Imprensa Universitária)

 

Há mitos sobre rituais de iniciação, sobretudo no que se refere ao de passagem da adolescência à idade adulta. Um deles tem a ver com o facto de que o que se trata nessas cerimónias deverá ser guardado em segrego; o outro tem a ver com a ideia que se criou de que, no sul de Moçambique, não há esse tipo de eventos para as donzelas e que só no norte é que são realizados. Neste texto, falarei sobre o segundo mito acabado de apontar.

Essa afirmação tem-me desafiado tanto quanto o tem feito a obra de Severino Ngoenha, acima citada. Ela surge de conversas que tive com os meus alunos, na cadeira de Cultura Moçambicana: acabados de chegar do 12º ano de escolaridade do ensino público moçambicano, já me questionaram por que razão é que só no norte de Moçambique é que existem rituais de iniciação. Tenho-lhes sempre respondido que, embora nas cidades esses rituais tendam a reduzir-se, eles existem nas diferentes culturas de Moçambique de norte a sul.

A grande questão é que eles são tidos como acontecimentos do foro privado. Pouco se fala acerca deles e, por causa disso, pouco se escreve sobre eles. Além disso, há sobre algumas dessas práticas, críticas relativas a atentados aos direitos humanos. Isso pode ser lido por exemplo, em trabalhos como o de Conceição Osório e Ernesto Macuacua, Os Ritos de Iniciação no Contexto Actual: ajustamentos, rupturas e confrontos (2013).

Em função da discussão sobre o assunto, que tive em duas turmas, em anos diferentes – e sem que nenhuma delas tenha trazido, como resultados das suas pesquisas, dados sobre a realização de rituais de passagem da adolescência para a idade adulta – tento iniciar uma conversa com os poucos aspectos que já reúno. Quem sabe, possamos alargar o diálogo?

A passagem da adolescência para a idade adulta tem sido comemorada pelos matsua, grupo étnico da província de Inhambane, sul de Moçambique. É festejada. Não passa em vão. Ela é marcada pelo início da menstruação da menina. Ao saber do seu novo estado, as suas tias paternas ou a sua avó desempenham um papel importante em diferentes fases de um ritual, que mais do que celebrar, é de transmissão de conhecimento sobre o seu corpo e sobre a sua nova condição, a de adulta. É lhe ensinado que já é uma mulher e que já se encontra em condição de conceber. Refira-se que a fertilidade é um aspecto muito importante da vida destas sociedades.

Há uma espécie de “manual de instruções” para a fase adulta que a menina recebe, durante um certo período, que se avizinha à data da sua primeira menstruação. Há ensinamentos sobre a sua inserção na sociedade, porque antes de ser adulta, ela é um ser com nenhuma ou muito pouca contribuição na sociedade. É lhe falado o seu papel como mãe, educadora, sobretudo esposa. Há uma grande tónica que é dada à vida sexual e à fertilidade. Há também explicação sobre os papeis das pessoas nos rituais que se realizam na sua comunidade: o nascimento, a imposição do nome, o casamento, processo de cura ou de gestão de doenças e a morte. Esta informação revela que é uma fase que não é passada em branco.

Conversei com várias pessoas desta etnia, para me informar melhor sobre o ritual de iniciação do qual venho falando. Após ouvir algumas delas, posso sintetizar do seguinte modo o que uma me contou:

Eu sabia que, quando chegasse a minha primeira menstruação, deveria informar a minha avó ou uma das minhas tias paternas. E foi o que aconteceu. Informei a minha avó, que me acolheu com muita alegria. Ela ensinou-me, imediatamente, como proceder com o corpo, em casos desses, mas antes disso, passou-me uma mezinha, um pó preto na barriga. Cercou-a com um traço circular, iniciando-o no umbigo, dando a volta pelas costas e terminando onde começou. Juntou o mesmo pó a uma papa, que me sentei a comer. Depois disso, foi-me dito que não deveria sair de casa, nem atravessar caminhos, até depois da cerimónia que marcaria o meu “fechamento”. Não sabia do que é que se tratava, mas esperei pacientemente, até o dia em que vieram as minhas tias paternas com roupas novas, que me foram dadas após uma primeira sessão das várias que se foram seguindo, nas quais se dizia que eu precisava de ser inserida na vida da comunidade. Mas nesse mesmo dia, desse segundo ritual, o de aconselhamento, porque o primeiro tinha sido realizado pela minha avó, foi chamado o meu irmão que, com recurso a uma vara, bateu-me de modo leve nas costas; eu tinha uma capulana que me cobria, não me doeu. Mas foi-me depois explicado que eu deveria cuidar-me para que nenhum homem me batesse nas costas, quando eu estivesse menstruada, porque isso aumentaria o meu ciclo menstrual. E isso é algo que guardei para toda a minha vida. Não deixo que me amassem o corpo, nem que mo toquem, enquanto estiver menstruada. Depois dessa fase de abordagem pelas minhas tias, foram-me oferecidas as roupas, cantámos, dançámos e comemos. Foi uma festa, porque a família acabava de receber uma mulher e deveria anunciá-lo à comunidade. O resto são coisas íntimas, que não te posso contar…

Fui procurar saber de outras pessoas do sul; desta feita, questionei pessoas da mesma província, Inhambane, de um outro grupo étnico, os bitonga (ou vatonga), onde a passagem da adolescência para a idade adulta também é festejada com rituais similares aos que mencionei anteriormente. Mas parece-me salutar deixar alguns breves pormenores.

O primeiro dia da menstruação de uma menina, marca a sua entrada para a idade adulta. Fecha-se um ciclo de criança e inicia-se o de adulta, que, em primeira instância, fica dentro de casa para receber ensinamentos básicos sobre o seu corpo e a vida da mulher adulta, mais ou menos nos moldes acima narrados. Nesse dia, é-lhe dada a tomar uma mezinha vermelha, um pó de terra utilizado para tratar dores de barriga, após o que, o mesmo recipiente com a mesinha é utilizado para rodar a sua cabeça, fazendo uma espécie de círculo imaginário, que começa na sua cara, dá a volta à cabeça e volta a fechar no ponto inicial. A menina não pode sair de casa, antes do dia que marca a segunda fase do seu ritual de passagem, dia no qual ela sai do quarto para o quintal, acende lume e leva uma cavaca, para a atirar ao mar ou no rio gritando: wugulungo wangôooo! Khandri wugulungo, gudhandra, ou seja, “que coisa miserável, a que estou a passar!” ao que as adultas que a acompanham respondem: “Não é uma miséria, é a tua entrada para a vida de adulta.” De regresso a casa há mais uma mezinha que lhe é dada (que consiste em ela mastigar uma espécie de caniço, o chamado mboci). Depois desta cerimónia, ela é recebida pela restante família alargada em festa. Come-se, canta-se e dança-se. Para além da sua família, nessa festa a donzela faz-se acompanhar por outras da mesma idade ou mais velhas acabadas de passar pelo mesmo ritual. Um outro exemplo acerca dele é ficcionado na obra O Ritual de Águeda, da autoria de Sónia Jona.

Em ambos casos e nos relatados sobre o norte de Moçambique, está patente a ideia de que existe um ritual de passagem, que faz com que a transição de uma condição de donzela para a idade adulta tenha marcas que lhes são peculiares. Não são momentos iguais ao dia a dia comum das meninas. Não são dias como os outros. E todos os eventos em torno do assunto já deixam a moça preparada para o casamento e para a procriação. A ideia de se estar pronta para o casamento e para a procriação é que tem trazido muitas controvérsias, nos últimos anos, e tem sido debatida, por estar na origem dos casamentos prematuros. Não é o ritual em si ou todas as componentes que têm sido colocadas em causa, mas a coisificação da mulher como objecto sexual.

No caso das culturas do Sul, que acabei de descrever, o “manual de instruções” dado à menina é reativado nas vésperas do seu casamento tradicional (o lobolo), que é antecedido da cerimónia do Kulaya, i.e., cerimónia de aconselhamento à noiva, que são caracterizadas por outros rituais diferentes dos da adolescência. Mas esse é assunto para um outro texto.

A pesquisa básica e breve que caracteriza este texto deverá, futuramente, ser aprofundada por uma investigação mais aturada, mais demorada, mas esta serviu apenas para responder aos meus alunos e a mim mesma: existem ritos de iniciação a raparigas, no sul de Moçambique. A questão que se coloca é que são envoltos em mitos, além de que têm mais lugar em regiões rurais, que são as que ainda preservam as tradições. E isto coloca-me a mim como mãe e como docente de Cultura Moçambicana questionamentos sobre qual é ou quais é que são as culturas moçambicanas que deverei ensinar.

 

Sara Jona Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica, em Maputo e participante do movimento Graal, em Moçambique. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

 

Artigos relacionados

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

De 1 a 31 de Julho

Helpo promove oficina de voluntariado internacional

  Encerram nesta sexta-feira, 24 de Junho, as inscrições para a Oficina de Voluntariado Internacional da Helpo, que decorre entre 1 e 3 de Julho. A iniciativa é aberta a quem se pretenda candidatar ao Programa de Voluntariado da Organização Não Governamental para...

Isenção de propinas

Católica lança programa de bolsas para refugiados

A Universidade Católica Portuguesa vai atribuir 24 bolsas de estudo para refugiados com isenção de propinas. a Universidade declara que “junta-se ao esforço nacional de acolhimento e integração dos refugiados com o lançamento de um programa de atribuição de bolsas”, num comunicado enviado ao 7MARGENS.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Dia dos Mártires

Igreja na Índia recorda massacre de 2008

Treze anos depois da onda de violência que varreu o Estado de Orissa, na Índia, provocando mais de 100 mortos, a justiça é ainda uma miragem, denuncia a Fundação AIS. Desde 2016 que é celebrado pela Igreja em Orissa o dia dos Mártires. 

Fundação AIS

Padre haitiano morto a tiro

Um padre que dirigia um orfanato no Haiti foi morto a tiro, Andrè Sylvestre, de 70 anos de idade, foi assassinado na tarde de segunda-feira, 6 de setembro, durante uma tentativa de assalto, revelou a Fundação AIS. 

IndieLisboa

Cinema: prémio Árvore da Vida atribuído a “Sopro”

O filme “Sopro”, realizado por Pocas Pascoal, uma cineasta angolana de 58 anos, foi distinguido na segunda-feira com o prémio Árvore da Vida, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), no final da 18.ª edição do festival de cinema independente IndieLisboa. 

Máximo histórico

Quatro em cada dez espanhóis dizem-se ateus ou não crentes

O estudo mais recente do Centro de Investigações Sociológicas de Espanha revela que quase quatro em cada dez espanhóis (38,7%) se declaram ateus ou não crentes e são apenas 16,7% os inquiridos que se assumem como católicos praticantes. Trata-se do máximo histórico do número de não crentes e do valor mais baixo alguma vez registado em relação aos católicos praticantes. Se a tendência se mantiver, estima-se que dentro de dois anos o número de não crentes no país ultrapasse, pela primeira vez, o de crentes.

Entre margens

Por onde pode começar a sinodalidade?

  Será que os grupos que se reúnem para realizar como comunidade este percurso sinodal se lembram do gesto mais simples e mais evidente que o ser humano consegue identificar à distância? Um gesto que pode iluminar uma sala inteira sem se acender a luz? Um gesto...

Jesus e a sua ética

Discorrer acerca da ética de Jesus e dos seus ensinamentos, não é tarefa fácil. Das muitas leituras que temos hoje acerca dele, do seu pensamento e ensino, esquece-se por vezes o seu lado humano, a sua ética que permeava toda a existência humana, especialmente as relações que ele tinha com os que o circundavam.

Cultura e artes

Livro de João Reis

“Cadernos da Água”, um romance a ler

É um livro envolvente e inquietante. Alienante, só se for no sentido de nos transportar para outra realidade, mas de nenhum modo sem nos deixar sossegados no nosso hoje. Cadernos da Água é o seu título, João Reis o seu autor. Valeram a pena as horas intensas de leitura que lhe dediquei, porque me alargaram os horizontes da vida e da esperança.

Sete Partidas

Acolher sem porquês

Eu e o meu namorado vivemos na Alemanha e decidimos desde o início da guerra na Ucrânia hospedar refugiados em nossa casa. Pensámos muito: nenhum de nós tem muito tempo disponível e sabíamos que hospedar refugiados não é só ceder um quarto, é ceder paciência, muita paciência, compreensão, ajuda com documentos…

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This