Vergonha da velhice ou omnipotência da juventude

| 4 Dez 19

Apesar de não estar muito na moda olhar para o lado ou em frente, já que, na verdade, olhamos essencialmente para baixo ou para cima, não é nestas direções que conseguimos ir buscar aprendizagens que nos tornam mais sábios.

Para baixo recebemos conteúdos, tantas vezes amalgamados sem critério ou somatórios de fofocas que nos animam a continuar a cuscar, ignorando a meta e a missão. Temos quase sempre na mão um pequeno e imprescindível aparelho que, mesmo em silêncio, nos provoca permanentemente só porque existe e nos obriga a descer o olhar na sua direção.

Para cima contemplamos arrogantemente o mundo que presumimos dominar. Sim, em geral não é para o Céu que olhamos, mas fazemo-lo pelo alto da cabeça de cada outro, sobretudo se esse já tiver espelhada no seu corpo a curva da idade que insiste em raptar ao esqueleto alguns centímetros da medida inicialmente registada em estado adulto.

É, pois, olhando em frente e para o lado que encontramos as pessoas, gente como nós, que procuram desfrutar desta proposta única que conhecemos e que é chamada vida humana.

Cruzamo-nos com seres de várias épocas, de várias gerações, com diferentes ritmos, com diferentes perceções do mundo em que vivemos. Os mais experientes são, muitas vezes, ausentes de alguns desenvolvimentos, sobretudo tecnológicos, e chegam a sentir-se ridículos com as suas ignorâncias seletivas. Os menos sábios, presumem-se donos do planeta, sem qualquer culpa, pois para eles, aparentemente, nada é impossível. Tudo é super-rápido de obter, super-passível de ser alcançado, super, super, super…

Mas será que existe uma linguagem comum passível de tornar as gerações de diferentes tempos da vida capazes de falarem umas com as outras, capazes de se respeitarem, de se fazerem entender, de se valorizarem?

Séneca afirmava que a nossa natureza está na ação e que o repouso pressagia a morte. Contudo, os ritmos divergem e é preciso entender que ser velho é só sinal de ter vivido muito – afinal, um desejo comum a tantos.

A intolerância à lentidão dificulta o encontro de gerações. A prepotência dos que se julgam eternamente rápidos e eficientes retira a disponibilidade para acolher os ritmos daqueles que podem já ter corrido, mas hoje apenas conseguem andar; os que percorrem pequenos caminhos em vez de infindáveis autoestradas; os que verbalizam formas mais elaboradas, mas podem hesitar na escolha do léxico disponível, por vezes arquivado num recôndito canto de memória escondida.

O constrangimento e a vergonha alheia que se intui quando se olha à volta; os filhos intolerantes à pressa que os pais não têm; as cumplicidades procuradas em olhares trocados com estranhos que mais parecem um encolher de ombros de falsa tolerância e, manifestamente, pouca paciência.

Que mundo é este em que vivemos, no qual a história de cada um vai deixando de ter lugar só porque vamos ficando cada vez mais antigos? Que mundo é este no qual se vive cada vez mais tempo, mas envelhecer é constrangedor e inútil? Que mundo é este em que cada novo esquece que um dia será velho? Que mundo é este que nos ensina a desistir de nós mesmos, antes que outros julgados queridos desistam primeiro e rasguem em nós uma tremenda ferida de desamor por abandono?

Que mundo é este?

Para os cristãos, começou o Advento. Pode este tempo ser um desafio para também nós começarmos a mudar o essencial. Não podemos continuar a permitir que as etapas se sucedam e que os diagnósticos de mal viver e de mal fazer se tornem crónicos. É urgente eliminar a negação com que cavalgamos na vida como se fôssemos os intocáveis perfeitos, imperfeitos no sentir. É fundamental aproveitar os desafios de cada momento e, com eles, querermos responder à interpelação de sermos melhores. É imprescindível agarrar a coragem da transformação do que é menos evidente, mas tão fortemente precisa de ser mudado.

O nosso planeta existe para que os seres vivos o possam ser – vivos. Contudo, se (e, sem dúvida, temos que o fazer) tanto nos preocupamos com ele, parece incontestável que comecemos por nos preocupar realmente connosco e com isto que é, afinal, tão simples – dedicarmo-nos uns aos outros.

Tentemos ouvir as histórias que parecem ficções invertidas porque dizem respeito a um momento em que os, hoje, impossíveis existiam; tentemos aprender com quem ainda se lembra como se alimentam os animais e como se amassa o pão; tentemos instruir-nos com quem andava a pé vários quilómetros por dia se queria chegar à escola.

Saibamos aproveitar, sem nos constrangermos, aqueles que, embora pareçam de outro tempo, ainda existem e, por isso, são do nosso tempo também e nele precisam de ter lugar.

Procuremos não nos enganar com uma eternidade presumida pela inconsciência da nossa finitude.

Lisboa, 2019/12/01

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

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