Via Sacra na Noite de Natal

e | 11 Fev 19

Inesperadamente, naquela manhã da véspera de Natal, quando tudo está a ser preparado, ao chegar a casa das compras, com os seus dois filhos mais novos, Holly – a mãe – tem, à porta de casa, o seu filho mais velho. Ninguém contava, e isso nota-se imediatamente. O medo é visível. Só a mãe sai para o abraçar: o abraço ao ‘filho pródigo’. É verdade que ela está feliz, mas sabe que não vai ser fácil. Afinal, aquele filho é toxicodependente e estava internado numa clínica de reabilitação. Não é a primeira vez que vem e, como a irmã (Ivy) irá recordar, as coisas não correram nada bem.

Mas é preciso fazer tudo, o Ben está de volta e é mais uma oportunidade que não pode perder-se. Aquela mãe sabe o que tem a fazer: não o pode perder de vista, nem um minuto, nem sequer quando ele tem de ir à casa de banho. E assim fará. Só que isso ainda é pouco. A droga é demasiado poderosa e habilidosa. Para além do vício entranhado no corpo e na alma, o mundo dos que vendem e consomem espreita todas as oportunidades e não larga a presa. Não se pode acreditar em ninguém, é o próprio Ben que confessa à mãe. Ele próprio, enquanto fazem a árvore de Natal, arranja um estratagema para ir ao sótão, ao lugar onde costumava guardar a droga, buscar uma dose que ainda lá estava. Sem ninguém se aperceber, nem o espectador. Não a consumirá, e essa dose há-de até ser uma ajuda para ele ser encontrado e salvo.

O inevitável aconteceu. Quando a família chega a casa, depois da celebração da noite de Natal, na igreja – a mãe faz questão de manter a tradição –, a casa tinha sido arrombada. Não faltava nada senão o cão da família. Ben sabe que foi por causa dele que aquilo aconteceu e sente-se culpado. Ele tinha boas intenções quando – afinal – fugiu da clínica para vir a casa, neste Natal. Por isso, sai porta fora, para ir à procura do cão e dele próprio. E a mãe sai atrás dele, porque uma mãe nunca aceita que vai perder um filho, seja ele quem for. Não há nada mais forte que o amor de uma mãe.

Quando o encontra, continuam os dois à procura do cão. Até que Ben percebe que só indo sozinho poderá encontrá-lo e, mais uma vez, engana a mãe para ficar com o carro e prosseguir.

E Holly começa uma longuíssima via-sacra, sozinha também ela, durante toda a noite, percorrendo as mais perigosas e inimagináveis ‘estações’ pelo lado negro, oculto e perigoso da cidade que ela nem sequer podia imaginar. Demasiada dor e sofrimento, degradação e imundície. Demasiada mentira. Apenas um ou outro sinal de compaixão e de paz. Mas ela não desiste. ‘Não podemos salvá-los, mas ficará a odiar-se a si mesma se não tentar’. E será já com a luz da manhã, e com o faro do cão, finalmente reencontrado, que ela encontrará também o seu filho, quase morto com uma overdose. Talvez possa ser Natal, naquele ‘abraço’ desesperado de Pietá.

‘Ben está de volta’ não é um daqueles típicos ‘filmes de família’ de Natal, mas é um filme poderoso sobre o amor de uma mãe ‘que tudo crê, tudo desculpa, tudo suporta’ para não deixar o filho morrer por causa da droga maldita. Poderosa é também Julia Roberts no papel desta “mãe coragem” (desculpem o lugar comum). Nunca o amor lhe deu um rosto tão belo. Acreditem.

 

(O Ben está de volta – Título original: Ben is back; Realização: Peter Hedges; Intérpretes: Julia Roberts, Lucas Hedges, Coutney B. Vance, Kathryn Newton; EUA, 2018; Cor; 103 min)

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Matosinhos; o texto foi inicialmente publicado na revista Mensageiro de Santo António, de Fevereiro de 2019.

 

Breves

Peditório digital da Cáritas entre 28 de fevereiro e 7 de março

O peditório nacional da rede Caritas vai pela segunda vez decorrer em formato digital, podendo os donativos ser realizados, durante a próxima semana, de 28 de fevereiro a 7 de março, diretamente no sítio da Cáritas Nacional ou por transferência bancária.

Cardeal Tolentino vence Prémio Universidade de Coimbra

O Prémio Universidade de Coimbra foi atribuído ao cardeal José Tolentino Mendonça, anunciou a instituição nesta quinta-feira, 25. O reitor, Amílcar Falcão, referiu-se ao premiado como “uma figura ímpar, uma pessoa de cultura com uma visão social inclusiva.”

Recolha de bens e fundos para Pemba continua em Braga até 31 de março

O Centro Missionário Arquidiocesano de Braga – CMAB decidiu prolongar até 31 de março a campanha para recolha de bens a enviar para Moçambique, onde serão geridos e distribuídos pela Diocese de Pemba, para apoiar “o meio milhão de pessoas deslocadas que fogem das suas aldeias atacadas por um grupo sem rosto.

Boas notícias

Outras margens

Cultura e artes

Canções para estes tempos de inquietação 

No ano em que Nick Cave se sentou sozinho ao piano, para nos trazer 22 orações muito pessoais, desde o londrino Alexandra Palace para todo o mundo, numa transmissão em streaming, o australiano dedicou-se também à escrita de 12 litanias a convite do compositor neoclássico belga Nicholas Lens.

Franz Jalics, in memoriam: a herança mais fecunda

Correr-se-ia o risco de passar despercebido o facto de ser perder um dos mais interessantes e significativos mestres da arte da meditação cristã do século XX, de que é sinal, por exemplo, o seu reconhecimento como mestre espiritual (a par de Charles de Foucauld) pela conhecida associação espanhola Amigos del Desierto, fundada por Pablo d’Ors.

Pessoas

Padre Armindo Marques Garcia: um homem na minha vida

Padre Armindo Marques Garcia: um homem na minha vida novidade

Éramos ainda adolescentes e ele era o nosso ídolo. Tinha pouco mais de dez anos do que nós. Uma diferença que o tornava suficientemente respeitável, mas igualmente próximo, muito próximo. E tinha um ar juvenil, surpreendentemente jovem, que, de resto, conservou durante toda a vida.

Sete Partidas

Vacinas: Criticar sem generalizar

Alguns colegas de coro começaram a falar dos espertinhos – como o político que se ofereceu (juntamente com os seus próximos) para tomar as vacinas que se iam estragar, argumentando que assim davam um bom exemplo aos renitentes. Cada pessoa tinha um caso para contar. E eu ouvia, divertida.

Visto e Ouvido

Agenda

Entre margens

Servir: lavar as mãos, lavar os pés, lavar o coração novidade

Depois de alguma leitura, aquela conversa não me saía da cabeça. Lembrei-me do ritual do “Lava pés”, que teve lugar na última ceia de Jesus Cristo, na qual Ele ensinou-nos, entre outras coisas, a partilhar o pão e o vinho (a comida) e a servir (lavou os pés aos seus discípulos). Lembrei-me também de uma tradição ocidental, segundo a qual quando alguém vai à casa de outrem pela primeira vez, a dona de casa deve servir ao visitante o “primeiro copo”. Por ser de “bom tom”, é cortês. E é, porque abre o à vontade ao visitante.

Como o “bicho” mexe com a prática religiosa

A verdade é que um de cada três cristãos praticantes americanos parou de frequentar a igreja com a pandemia, apesar da evidência de que a comunidade de fé exerce um efeito integrativo do ponto de vista social, de estabilização emocional e promove o encorajamento e a esperança dos indivíduos. Curiosamente, as gerações mais novas apresentaram mais dificuldades na substituição das celebrações presenciais pelas online, eventualmente devido a uma maior necessidade gregária.

Direitos Humanos das Pessoas Idosas. Importa-se de repetir?

Todos os textos são incontroversos, lembram que os idosos têm direito a trabalhar ou a ter uma fonte de rendimento, a viver com dignidade e segurança, a poder residir em casa pelo máximo de tempo possível, a formar associações que defendam os seus interesses ou a aceder a programas educacionais próprios; e reafirmam que os mais velhos contribuem para o desenvolvimento das sociedades de que fazem parte (tem o seu quê de irónico, dada a média etária dos “líderes mundiais”).

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This