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Viagem ao Sul

Charleston. Foto © Ana Luísa Pimentel

Hoje conto-vos acerca da nossa viagem ao Sul, na semana de Acção de Graças em pleno Novembro de 2020. Um dos aspectos interessantes de viver nos Estados Unidos é a possibilidade de, sem sair das fronteiras do país, encontrarmos de tudo um pouco: desde o inverno gélido de Washington DC aos cenários verdes e húmidos da Geórgia, passando pela secura e aridez do Mississípi. Foram 10 dias de viagem, sensivelmente 4.000km percorridos, 40 horas de estrada onde fomos sempre surpreendidos pela novidade das paisagens, das gentes, dos aromas e sabores de cada local.

Depois de oito horas de caminho percorrido, fomos desaguar em Charleston, uma bela cidade portuária na Carolina do Sul fundada em 1670, que se distingue pelos belos edifícios neoclássicos e as ruas pavimentadas com pedras arredondadas, carruagens puxadas por cavalos e bairros elegantes como o Bairro Francês ou Battery Waterfront.

As varandas de ferro forjado e as cores pastel das pequenas casas sugerem um certo ambiente do Caribe, e não me surpreendo ao descobrir que o charme provinciano desta pequena localidade que se pode percorrer a pé de uma ponta a outra foi o que inspirou George Gershwin ao escrever a sua ópera popular Porgy and Bess, que conta a história de um mendigo afro-americano do gueto crioulo de Charleston.

Mais duas horas em direcção ao sul chegamos a Savannah, uma espantosa cidade costeira da Geórgia, separada da Carolina do Sul pelo rio Savannah. É conhecida pelos parques bem tratados, as carruagens de cavalos e a arquitectura neoclássica do período pré-guerra. O distrito histórico está repleto de praças calcetadas e parques, como o Parque Forsyth, rodeado por carvalhos cobertos de musgo espanhol.

Descobrimos que é uma cidade que teve um papel central no período da escravatura e no comércio do algodão, as referências estão espalhadas por toda a cidade e na zona portuária. É uma cidade extraordinariamente bela e bem conservada, e congratulo-me ao aperceber-me que isso se deve ao empenho de uma sociedade de artistas locais que se tem esforçado por recuperar edifícios antigos e transformá-los em galerias, cafés, estúdios de arte. Não se encontram vestígios de grandes cadeias comerciais americanas, e isso em si é um bálsamo para a alma de viajante.

Savannah, bookstore. Foto © Ana Luísa Pimentel

Outras dez horas de viagem para sudoeste levam-nos para a tão desejada entrada em Nova Orleãs e inicialmente deparamo-nos com uma paisagem de arranha céus e subúrbios iguais a tantas outras cidades americanas. Nova Orleãs é a cidade mais conhecida no estado do Louisiana, fica nas margens do rio Mississípi e próxima do Golfo do México. Por vezes apelidada de Big Easy, ela é conhecida pela sua incansável vida noturna e vibrante cena musical e uma culinária apimentada e única, que reflete a histórica mistura das culturas francesa, africana e americana.

New Orleans. Foto © Ana Luísa Pimentel

Aqui somos recebidos com a alegria simples e boémia dos músicos de rua, os comerciantes locais que acreditam que melhores tempos virão e nada derrubará o espírito alegre da cidade, porque sempre assim foi. Levamos connosco a memória de uma cidade acolhedora e alegre apesar dos tempos de pandemia, assim como sabores únicos e inconfundíveis da cozinha local.

Rumo a noroeste, três horas de caminho levam-nos a Natchez no estado do Mississípi e nas margens do rio com o mesmo nome, uma pequena localidade que foi em tempos a cidade americana com maior concentração de milionários por metro quadrado; este aspecto reflete-se na arquitectura local de grandes casas de fazenda (antebellum), muitas delas hoje em dia abandonadas. Aqui fomos recebidos calorosamente: os locais não hesitam em contar a história da Natchez que foi em tempos a verdadeira capital do jazz e hoje vive pacatamente na sombra dessa memória, ao mesmo tempo que saboreamos o pôr do sol no rio Mississípi e a brisa do anoitecer no alpendre da residencial onde ficamos alojados.

Mas os estados do Sul representam também uma forma diferente de estar e ser americano, e quando dizemos “o Sul” ou o lowcountry estamos também a trazer à conversa uma série de conotações e estereótipos que remontam a outros tempos históricos. Para muitos, Sul é sinónimo de um inglês mais arrastado e lânguido, sinónimo de conservadorismo, de comunidades mais divididas por raças e credos, sinónimo de uma sociedade mais rural e que não usa máscara nem respeita a distância social.

A minha experiência do Sul foi sobretudo marcada pelo acolhimento e a generosidade, a facilidade com que se enceta uma conversa na rua com um desconhecido, o empreendedorismo e o vigor dos pequenos negócios locais – uma livraria, um café, uma galeria – e um optimismo no que está para vir, certamente melhor do que estava reservado para os nossos antepassados.

A história desta viagem foi de certa forma a minha oração de Acção de Graças para 2020, manifestação de uma crença num mundo que, apesar das suas feridas, tem tanto de belo para nos revelar. Saibamos apreciar toda esta diversidade.

 

Ana Luísa Pimentel vive em Washington DC, Estados Unidos da América, é psicóloga, natural de Lisboa e viveu 10 anos na Dinamarca na sua primeira experiência de expatriada. É mãe de três filhos e casada com o Luís. Considera “casa” o lugar onde se sente bem acolhida.

 

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