
Pierre-André Dumas tem sido uma das principais vozes da Igreja Católica contra a violência dos gangues no Haiti. Foto © ACN
O bispo Pierre-André Dumas, vice-presidente da Conferência Episcopal Haitiana (CEH), ficou ferido na sequência de uma explosão na casa onde se encontrava hospedado durante a sua visita à capital do país, Porto Príncipe. O incidente foi conhecido esta terça-feira, 20, através de uma nota da CEH, mas terá ocorrido já no domingo, altura em que se intensificaram os tumultos protagonizados por gangues que ocupam mais de 80% da cidade.
A nota, citada pelo Vatican News, adianta que “o estado de saúde de dom Dumas é estável”. O prelado, que há cerca de um mês se ofereceu como refém para que seis religiosas que haviam sido sequestradas em Porto Príncipe por um grupo armado pudessem ser libertadas, tem sido uma das principais vozes da Igreja Católica contra a violência dos gangues no país.
Mas a insegurança continua a aumentar, particularmente nas ruas de Porto Príncipe. Segundo dados da ONU, janeiro de 2024 foi o mês mais sangrento dos últimos dois anos, com pelo menos 1.108 pessoas mortas, feridas ou sequestradas – um valor três vezes superior ao registado em janeiro de 2023.
Missão internacional bloqueada e “o futuro das crianças em jogo”
O alto-comissário para os direitos humanos, Volker Turk, insistiu na semana passada na urgência do envio imediato de uma missão internacional de apoio à segurança no Haiti para auxiliar a Polícia Nacional e garantir a segurança da população haitiana. O Quénia havia concordado em liderar esta força multinacional e enviar até mil polícias para o Haiti já este mês, mas no final de janeiro o Tribunal Superior de Nairobi bloqueou a decisão do Governo, considerando-a “inconstitucional, ilegal e inválida”.
Enquanto a missão não avança, mais de 313 mil pessoas estão já deslocadas internamente. O número é o dobro do estimado em 2022 e mais de metade (170 mil) são crianças.
No passado dia 13 de fevereiro, a UNICEF dava conta de ter recebido relatos de que pelo menos duas crianças haviam sido mortas a tiros enquanto fugiam da violência em áreas controladas por grupos armados no centro de Porto Príncipe. “As condições no terreno continuam extremamente perigosas para as crianças. Os parques infantis, as escolas e as casas tornaram-se zonas de guerra em muitas partes da cidade”, alertou Bruno Maes, representante da UNICEF no Haiti.
“Testemunhei pessoalmente uma criança de oito anos a ser ferida por uma bala há alguns dias enquanto brincava. no pátio de sua casa. Felizmente, foi salva a tempo no hospital com o apoio dos nossos parceiros. No entanto, esses incidentes estão a tornar-se uma realidade diária e muitos não têm acesso ou meios para obter ajuda a tempo”, lamentou, acrescentando que “apesar da escala e da gravidade da crise, a falta de atenção ao Haiti representa um desafio assustador. O custo da indiferença e da inação é injusto. O futuro das crianças do Haiti está em jogo”.





